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O Ódio é Nossa Energia - Parte 4 final

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Silêncio, Solidão e Solitude

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Silêncio, Solidão e Solitude

Após o primeiro treino com o carro, Michà retorna ao box. Os mecânicos cercam o supercarro, empurram-no de volta para dentro, satisfeitos com os resultados. Ron e Dan sorriem discretamente. Michà, porém, ainda carregava a adrenalina no sangue e o semblante sério.

Ela desce do carro, tira o capacete sem olhar para ninguém e atravessa o box em silêncio. Vai até um espaço fechado, mais adiante. Lá, pendurado na parede, um pôster enorme: seu próprio rosto, acompanhado da chamada da nova temporada.

Michà para. Fica imóvel, observando o cartaz. Seu reflexo no brilho do pôster parecia zombar dela. O símbolo da equipe, o “rosto da temporada”, estava ali — frio, perfeito, intocado.

Ron se aproxima devagar.

— Infelizmente, eles querem o seu rosto — diz ele com um suspiro. — Sei que isso te afeta. E nem é como se você tivesse ganhado a última temporada...

Michà vira-se, os olhos brilhando de raiva e dor.

— Minha beleza... é só isso que eles veem. — A voz dela é baixa, amarga. — Essa beleza natural virou uma praga.

Ron balança a cabeça.

— Michà... sinto muito. Desde o kart, isso já te perseguia. Mas você venceu todos, mesmo sendo uma das poucas mulheres nesse ambiente selvagem. Aguentou preconceito, comentários baixos, armadilhas psicológicas. Você está na AVEX porque é rápida, porque é boa. Seus números não mentem. Até Mãe Ceres sabe disso. Sua beleza... é só um detalhe. Não há como fugir disso. É um dom também. Aproveite, como sempre fez.

Michà fecha os olhos, respira fundo.

— Estou cansada de ser sempre forte, Ron. — A voz dela falha. — Meu corpo aguenta, mas a cabeça... está cheia de rachaduras. Eu sangro por dentro. Todo mundo chama isso de solitude, mas solidão é solidão. Eu sempre estive sozinha.

Ron permanece em silêncio, sentindo o peso de cada palavra.

— E agora, com Dan entre nós, me sinto ainda mais distante. Ano passado... eu me sentia bem ao seu lado. Sou mulher, Ron. Tenho necessidades. Eu amava tudo que fazíamos. Mas por Mãe Ceres... faço tudo. Como a amo. Como eu te amo.

As palavras caem como uma lâmina no peito de Ron. Ele não responde. Michà vira-se, sem lágrimas, apenas com o rosto fechado. Vai embora, carregando nos ombros o fardo de sua própria dor.

Naquele instante, a Donzela de Aço se quebrou.

Ron ficou parado por alguns segundos, ainda olhando para o pôster.
O rosto de Michà sorrindo para a câmera contrastava brutalmente com a cena que acabara de presenciar.

Ele sentiu o box inteiro ficar mais silencioso. Os mecânicos continuavam trabalhando, mas os ruídos pareciam distantes.
Ron tirou o fone de ouvido, deixou-o sobre a bancada e apoiou as mãos nela, respirando fundo.

— Ela está quebrando por dentro... — murmurou para si mesmo.

Lembrou-se da época do kart, das primeiras corridas de Michà. Da menina que ria no pódio com o troféu nas mãos, que respondia a provocações com ironia e nunca mostrava fraqueza.
Agora, no auge da carreira, ela parecia mais frágil do que nunca.

Dan apareceu no corredor, trazendo alguns relatórios, mas parou ao ver o chefe parado, pensativo.

— Algum problema? — Dan perguntou.

Ron não respondeu de imediato. Olhou novamente para o pôster e depois para Dan.

— Não é o carro que me preocupa, Dan. É ela. — a voz era grave. — Nós construímos um monstro perfeito para ela domar, mas talvez... talvez ela mesma esteja no limite.

Dan hesitou, sem saber o que dizer.

— Ela vai aguentar, Ron. Sempre aguenta.

Ron balançou a cabeça.

— É isso que me assusta. Ninguém aguenta para sempre.

Ele pegou o fone de ouvido novamente e voltou para o box, mas a expressão séria no seu rosto denunciava que algo havia mudado.
A Donzela de Aço tinha mostrado uma rachadura — e, para Ron, aquilo era tão perigoso quanto qualquer falha no carro.

Ron ficou ali, sozinho no corredor, sentindo o peso do que tinha acabado de ouvir.
A lembrança da temporada passada o atingiu como um soco: jantares em cidades distantes, risadas após as corridas, aquela sensação de que, fora do olhar de Mãe Ceres, eles podiam ser apenas Ron e Michà — não chefe e piloto.

Ele se lembrou de como ela brilhava nos camarotes e festas, como dançava sem se preocupar com câmeras, como às vezes o puxava para fora do protocolo para simplesmente viver.
Tudo parecia tão vivo, tão perigoso, tão libertador.
Talvez aquilo tivesse custado pontos importantes na temporada... mas ele sabia que não trocaria aquelas lembranças por nada.

No fundo, Ron sentia algo que ia além da admiração profissional.
Mas era diferente do que Michà sentia.
Para ela, cada momento tinha sido maior, mais intenso, quase uma salvação.
Para ele, era uma memória doce, porém carregada de dúvidas — a dúvida de que, se tivesse se entregado por completo, talvez tivesse arruinado não só a temporada, mas a carreira de ambos.

Ele suspirou, fechando os olhos por um instante.
Michà estava certa: ela sangrava por dentro, e ele não tinha coragem de estancar aquele sangue.
Ela sentia mais do que ele — e isso o consumia de uma forma silenciosa.


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