Refeitório da Manhã
O refeitório da AVEX INFINITY brilhava em branco: mesas impecáveis, cortinas abertas, janelas largas que refletiam o circuito de Ceres ao sol. Michà sentou-se sozinha, fazendo uma refeição simples — não podia treinar com o estômago vazio.
Um arrepio percorreu sua espinha: lembrança do GFG, da adrenalina extrema, e do mal-estar que a fez vomitar na sala de Ron. Todos ali sabiam que o efeito vinha sem avisar, e era parte do teste.
Enquanto mastigava, pensava no ensaio do dia: aquecimento, exercício de força G com peso no pescoço — chato, repetitivo, mas necessário. Sem isso, seria apenas um boneco no cockpit, sacudido pelas máquinas como brinquedo.
Olhando pela janela, Michà se perguntava quem seriam os 12 escolhidos por Ron para ser seus rivais internos. O rosto dela se endureceu, lembrando das palavras dele:
“O ódio é seu combustível. É sua energia. Trabalhe duro, mais rápido, mais forte, sua mulherzinha. Os outros irão te engolir. Mãe Ceres não tolera gente fraca. Aqui, você lida com máquinas de aço e homens sem coração, que te olharão como se fosse carne… Olhe para mim, me odeie, gaste essa energia, transforme em velocidade. Imagine estes supercarros te esmagando… sorria com escárnio e desejo, porque só assim você vence! Lembre-se, Annes, o traidor, é seu rival. Ele te jogou fora com maestria. Ano que vem serão 10 homens e 2 mulheres competindo para te estraçalhar. Nada é garantido. Quero todo o seu ódio concentrado. Não facilite para ninguém.”
Michà respirou fundo, sentindo a raiva se transformar em combustível. No fundo, sabia que não precisava de aprovação de Ron para ser piloto. Mas era exatamente esse desafio — o ódio, a pressão, o risco — que a fazia querer ultrapassar cada limite, se tornar mais rápida e mais forte.
Academia de Treinos
Enquanto completava as séries de exercícios na academia, Michà sentia a pressão esmagando seus ombros. Mas, no fundo, ela amava odiar e odiava amar a pressão. Cada dor, cada esforço, era combustível para romper limites.
Ela sabia, pelos bastidores, que seu carro estava mais agressivo: peças de uma liga mais leve e resistente, deixando-o mais rápido e mais ágil. Seu corpo, 57kg de pura fibra, músculos de mármore, era o trunfo. O peso ajudava a controlar o carro com maestria, sem arriscar demais — e isso também seria vantagem contra Annes, tão impetuoso quanto ela.
Annes tinha um estilo poético-agressivo, quase desafiando sem palavras:
“Olha, você é mais leve que eu e não me passa! Eu sinto seu medo!”
Os olhos dele diziam tudo, sem piedade, com um sorriso de canto de boca que arrancava faísca de raiva de Michà.
O carro estava pronto, com performance excelente. Mas agora vinha o verdadeiro teste: o asfalto. Mais recursos não garantiam nada. O mundo real era imprevisível, cheio de problemas que só a inteligência humana podia resolver. Não se tratava de refazer tudo do zero, mas de corrigir, ajustar, evoluir os detalhes que passaram despercebidos.
Porque, como Ron dizia:
“Perdemos nos detalhes. E é nos detalhes que se vence.”
Michà fechou os punhos, sentindo o ódio, a adrenalina e a concentração convergirem em energia pura. O próximo treino, o próximo teste, seria onde talento, disciplina e inteligência se encontrariam na velocidade máxima.
Grid de Largada
Após terminar os exercícios, Michà dirigiu-se ao grid de largada. Olhou ao redor, sentindo o peso da magnitude do circuito e imaginando a multidão gritando seu nome. Ali, era liberdade pura. Vestiu as luvas, ansiosa, o coração acelerado. O cheiro de óleo e combustível inundava o ar — os simuladores e o GFG eram violentos, mas os supercarros reais eram deuses de aço, criação máxima de Mãe Ceres.
Cada volta era a extensão do ser humano em busca da liberdade absoluta. Um erro e a morte podia chegar em um instante. Cada instante no volante transformava a vida em algo frágil e intenso: deus de aço ou caixão de rodas e metal.
Ela sentiu a sinfonia interna: o vibrar das rodas, a textura da zebra que virou pista, a curva perfeita, a frenagem intensa, o peso absurdo sobre o pescoço. O corpo avisava o quanto podia suportar. Cada dor, cada esforço, era o preço da liberdade.
— É para isso que sofro. — pensou, quase em transe. Três horas intensas de liberdade abstrata transformada em concreta. A última volta aproximava-se, e a sensação era melhor que qualquer vitória — estar na frente era apenas consequência. O sacrifício, as dores, tudo recompensado por aquele momento em que saía viva para a próxima corrida.
O carro respondia como uma partitura de sinfonia. Cada ajuste, cada nota, cada reação era a demonstração da harmonia entre piloto e máquina. A conexão era absoluta: ou ela a elevava, ou a matava.
Enquanto sentia o percusso em uma corrida a pé e responder a cada curva, Michà pensava nos produtos inúteis e nocivos estampados no seu uniforme: patches coloridos, luvas, macacão, até a bala clava. Lembrou-se de aquele anúncio de rosquinhas superprocessadas, tão doces que até as formigas morreriam com o sabor artificial.
— Até as baratas de Ceres estão mais em forma que o resto do continente… baratas gordas! — riu sozinha.
Um dia, ela havia experimentado uma dessas rosquinhas. Tão artificial que cuspira ao vivo, durante uma propaganda, no circuito da República de Fiúme. A reação foi instantânea: o produto perdeu mercado, não por vendas, mas por sua sinceridade inesperada. O escárnio público conquistou fãs, mas também alimentou seu ego. Michà sabia que não podia se perder nisso: era primeira piloto, mas até quando permaneceria no topo? Na primeira corrida, na segunda?
Ela se lembrava das aulas de sociologia e economia dos países vizinhos. Fracassavam no óbvio, no detalhe, e por isso não conseguiam vencer. Pequenos gestos, aparentemente insignificantes — como cuspir uma rosquinha — podiam derrubar cadeias inteiras de produtos multiprocessados.
Enquanto o corria mais leve, Michà sentia que cada detalhe, cada escolha, cada reação, podia ser arma ou fraqueza. O circuito, o público, os rivais — tudo era calculado, até mesmo os erros alheios.
No meio da pista , uma mulher desconhecida se aproximou, chamando Michà:
— Michà, preciso que depois do treino você venha tirar as medidas do assento do cockpit do seu carro.
Michà franziu a testa. — Quem é você?
— Sou Dan, nova integrante do time AVEX INFINITY. Engenheira de Pista. Serei seu intermediário com Ron, a ligação entre você e o chefe de equipe.
A tensão subiu imediatamente. Michà se sentiu invadida e desrespeitada: um intermediário? Ela não precisava disso, não queria. Furiosa, rebateu Dan com palavras afiadas, desentendendo-se ali mesmo, no grid.
Logo depois, ambas entraram no complexo para discutir. Michà questionava a decisão de Ron, sentia-se desavisada e subordinada sem necessidade, enquanto Dan explicava que o papel de Engenheira de Pista era essencial para coletar feedback preciso e otimizar o cockpit e o carro. A discussão subiu de tom, misturando frustração e curiosidade profissional.
Subiram juntas no elevador, continuando o debate: Michà questionava cada escolha, cada razão de não ter contato direto com Ron, sentindo que sua autonomia estava sendo limitada por protocolos que ela não entendia totalmente.
Ao chegarem à sala de Ron, ele levantou os olhos, surpreso com a energia tensa das duas.
— Sentem-se, ambas. — ordenou, com voz firme, mas calma.
O clima pesado no ambiente anunciava que aquela conversa seria mais do que ajustes de cockpit; seria sobre limites, autoridade e controle dentro da AVEX INFINITY.
Sala de Ron
Ron suspirou, olhando para Michà e Dan:
— Estou sobrecarregado com ajustes no carro. Depois, Michà, você vai testá-lo. Mas o carro não tem problemas. Na verdade, tem qualidade excessiva — algo que raramente acontece.
Ele fez uma pausa, observando Michà:
— Mãe Ceres pediu que Dan faça a intermediação entre nós.
Michà e Ron se olharam, entendendo perfeitamente o motivo, mesmo que não precisassem verbalizar. O complexo era repleto de câmeras de vigilância. Mãe Ceres tolerava muito os dois, não pelo romance escondido — que não acontecia há mais de três meses — mas porque acreditava que isso custou a temporada inteira do ano passado. Dan não tinha a menor ideia do porquê de estar ali, mas Ron e Michà sabiam.
— Isso vai atrapalhar — retrucou Michà, cruzando os braços.
— Não aceito esse desrespeito — respondeu Dan com firmeza.
Ron interveio, mantendo a autoridade:
— Precisamos de comunicação entre vocês. Não é opcional.
Michà ergueu uma sobrancelha, irônica:
— “Comunicação”, é? Comunicado em cima da hora, sem detalhes.
Ron manteve a calma, mas firme:
— Fui comunicado antes. Explicaria para você, mas a pressa de ajustar o assento é urgente. A pressa pode passar, mas a merda dos resultados fica.
O clima ficou pesado, mas a tensão carregava uma verdade clara: na AVEX INFINITY, disciplina, precisão e comunicação valem mais que orgulho ou sentimentos pessoais.
Depois da conversa com Dan e Michà, Ron dispensou as duas da sala, como uma ordem clara, e permaneceu sozinho. Cercado pelos projetos do carro, ele sabia que, no papel, eram excepcionais. Mas também lembrava: no ano passado eram excepcionais, e na pista, a realidade sempre encontrava seu próprio caminho. Detalhes internos, rivalidades e resultados somados transformavam pequenas imperfeições em fracassos enormes.
Ele coçou o braço que lentamente renegava. Anos atrás, perdera o membro, mas graças à medicina moderna de Ceres, hoje poderia se mover quase sem restrições, como aquele aluno cadeirante que, meses depois, começou a jogar Flagball.
Ron permaneceu em silêncio, pensando em Michà — uma mulher linda e perigosa. Lembrava das vezes em que a AVEX viajara para outros países, onde os pilotos viviam uma liberdade quase sem supervisão. Não que não houvesse liberdade em Ceres, mas lá, a Mãe observava e julgava se aquela necessidade existia, sempre dentro de um ambiente de disciplina e competição.
Era como uma coleira invisível: “Você só pode ir até aqui.” Mãe Ceres sabia como intervir entre ele e Michà. Ela entendia o espírito humano: não reprimia, acolhia e disciplinava.
Ron recordou-se das aulas de mecânica de motores de tratores, do prazer quase sensual de ver aquelas torneadoras eletrônicas moldarem peças exclusivas. Era como transformar aço em manteiga, transformar máquinas antigas em brinquedos absolutos, perfeitos e novos.