A sala era ampla, branca, iluminada por grandes janelas de vidro que davam para o circuito. As mesas se dispunham em formato de arquibancada espaçosa, cada uma com cadernos fixados em pranchetas, canetas alinhadas e um copo com garrafa de água. O ambiente carregava um silêncio cerimonioso, quase clínico, quebrado apenas pelo som dos projetores.
No fundo, estampava-se uma imagem imensa: Michà em sua postura fria e implacável, ao lado do slogan da equipe: “Nossa energia vem do desafio!”. No telão, rodavam os melhores lances de suas corridas. Entre eles, o episódio famoso em que ela cuspiu a rosquinha açucarada de um patrocinador ao vivo — momento que arrancava risadas discretas, ainda que fosse um lembrete de como Michà odiava ser reduzida a marketing.
No centro, abaixo da arquibancada, estava Ron. Camisa social clara com o logo AVEX INFINITY TEAM bordado no peito, mangas arregaçadas revelando seu braço regenerado — ainda em desenvolvimento estético, mas já com movimentos plenos. Calça social preta, sapatos engraxados, postura firme. Ele não parecia apenas um chefe de equipe: naquele instante, era maestro de um espetáculo.
Espalhados pelas mesas, os 12 pilotos selecionados: rostos arrogantes, olhares calculistas. Vieram de todos os cantos de Ceres, cada um com seu fardo de glórias e cicatrizes. Um deles, da República de Fiúme — país vizinho e patrocinador-chave do combustível em abundância — estava ali como intercâmbio, representando interesses além das pistas. Apenas duas mulheres entre eles, ambas de Ceres.
Mas todos compartilhavam um destino: disputar o lugar de segundo piloto, a sombra da lenda que já tinha um apelido cravado na história — “Donzela de Aço”.
Ron abriu os braços.
— Bem-vindos a Ceres. Bem-vindos à AVEX INFINITY TEAM! Nossa energia vem do desafio!
O auditório ecoou aplausos.
— Vocês estão aqui porque foram escolhidos para disputar a vaga mais difícil do grid: correr ao lado da nossa primeira piloto! — disse ele, a voz firme, quase militar. — À frente de vocês há um manual do complexo, de comportamento e das leis que regem este lugar.
Ron ergueu o próprio manual, pesando-o na mão.
— Eu sou Ron, chefe da AVEX INFINITY TEAM. E a minha função é fazer vocês romperem limites. Estamos aqui para separar homens… — ele fez uma pausa, lançando o olhar para as duas mulheres — … e mulheres… de crianças!
A sala se mexeu em desconforto. Alguns riram, outros cerraram os dentes.
— Agora, façam fila. — Ron fechou o manual com força. — Não vou mesa por mesa entregar como professores fazem com alunos. Aqui exigimos comunicação. Exigimos interação.
Houve um instante de hesitação, olhares atravessados. Então, a movimentação começou. Alguns pilotos foram direto para frente da fila, atropelando os que estavam no meio. O atrito era quase físico, mas ninguém ousou recusar.
Ron sorriu, satisfeito.
— É isso que eu quero ver! Mentalidade de vencedor. Competição até na fila. Mas lembrem-se… — a voz baixou, quase sussurrada — … a batalha psicológica começa hoje.
Ron.
Todos pegaram seus manuais.
— LEIAM! É OBRIGATÓRIO! VOCÊS SABEM LER ALÉM DE PILOTAR!
O tom ríspido ecoou nas paredes brancas. Alguns pilotos franziram o cenho, outros baixaram os olhos, mas todos obedeceram.
— Agora, me sigam. Vou mostrar o coração do Complexo para vocês.
O grupo o acompanhou, ainda atônito. Pelo corredor, os olhos foram atraídos para os pôsteres pendurados nas laterais: máquinas antigas, corridas lendárias e, no centro de tudo, a imagem de Ron, campeão mundial antes do acidente. Ele, jovem, sorrindo ao erguer o troféu. Era impossível não comparar aquele homem dos cartazes com o que caminhava à frente deles agora — firme, frio, mas ainda carregando a aura de quem fez história.
A reverência silenciosa logo se transformou em tensão. Ao chegarem ao final do corredor, as portas do enorme elevador se abriram. Todos entraram.
O espaço fechado parecia encolher à medida que mais corpos ocupavam cada canto. O som das botas no chão metálico cessou, restando apenas o zumbido grave do motor enquanto as portas se fechavam.
Um piloto estalava os dedos sem parar, o estalo seco repetindo como um tic nervoso. Outro apoiava os braços cruzados contra o peito, o queixo erguido, olhando de soslaio para o outro. Quando alguns devolveu o olhar, firme como aço, ele desviou rápido, pigarreando para disfarçar.
Do fundo, Ron observava tudo. O silêncio forçado, as respirações curtas, o peso da rivalidade no ar. Sorriu por dentro. Ali, antes mesmo de pisarem no GFG, a batalha psicológica já havia começado.
As portas do elevador se abriram com um som metálico. No andar abaixo, uma equipe inteira já os aguardava: Dan, engenheira de pista; os engenheiros de performance; estrategistas; mecânicos; fisioterapeutas. Todos uniformizados com o mesmo padrão institucional de Ron, sorrisos seguros no rosto, postura impecável.
Ron ergueu a voz:
— Senhores, conheçam aqueles que transformarão cada detalhe em resultado. Tudo que vocês precisam saber, está com eles. Do volante ao material do carro, da estratégia às correções mecânicas... eles pegam o seu feedback e transformam em realidade.
Com um gesto rápido da mão, organizou os pilotos em círculo. O ambiente ganhou um ar de instrução militar.
— Eu quero vocês com cabeça de piloto.
Um silêncio caiu. Ninguém se moveu, ninguém perguntou. Ron estreitou os olhos.
— Galera... comunicação! Se não sabe, pergunta! Eu quero errar por excesso, nunca por falta.
Um jovem hesitou, mas levantou a mão.
— Senhor... o que é cabeça de piloto?
Ron caminhou até ele e olhou o crachá pendurado em seu peito.
— Muito bem... Ayr. Esse é seu nome mesmo?
— Sim, senhor!
Ron girou de volta para o círculo, a voz firme:
— Prestem atenção. Cabeça de piloto significa eliminar formalidades. Na pista, não existe tempo para “por favor” ou “obrigado”. A comunicação precisa ser rápida, clara e objetiva. Um “bom dia” no começo basta, depois falem direto ao ponto. Essa equipe não está aqui para etiqueta social, está para resolver problemas. Quanto menos palavras, mais soluções.
Fez uma pausa, encarando cada um dos presentes.
— Educação? Vocês podem usar no refeitório ou na sala de convivência. Aqui, cada segundo importa. A vida de vocês depende disso.
Alguns pilotos trocaram olhares rápidos, assustados com a intensidade. Outros, ainda orgulhosos e arrogantes, mantiveram o peito estufado, convencidos de que não precisavam de instrução.
Ayr respirou fundo, entendendo que sua mão levantada não era apenas curiosidade, era teste. Ele observava os outros, alguns franzindo a testa, outros acenando levemente com a cabeça.
Uma das poucas mulheres ali suspirou, claramente incomodada com a atmosfera pesada. Sentia que precisava provar algo a todos, mas o peso da expectativa era maior que o próprio desafio físico.
Ron circulava lentamente pelo círculo, observando cada expressão, cada reação.
— Alguns de vocês já estão pensando em desculpas. Outros, em justificativas. Aqui não tem isso. Apenas ação. Resultado. Vocês vão aprender rápido ou vão aprender do jeito mais difícil.
Ele parou no centro e bateu com o punho na mesa à sua frente.
— Hoje vocês começam a ser medidos, e não apenas no simulador. Cada olhar, cada gesto, cada pergunta, será registrado. Ceres não perdoa erros. Eu não perdoo erros.
Um frio percorreu o grupo. A tensão era quase palpável. Alguns já sentiam o coração acelerar, outros o estômago se revirar. Mas todos sabiam que dali sairiam mais fortes — ou quebrados.
Ayr olhou para os colegas, percebendo que ninguém ali iria facilitar nada para ninguém. Cada um estava sozinho com sua própria capacidade e medo. O jogo finalmente começava.
Ron para, deixa o silêncio respirar, observando os pilotos absorverem cada palavra. Alguns se remexem, outros se inclinam levemente para frente, ajustam o crachá, respiram fundo. A tensão é quase física: o som de passos, o tilintar de canetas sobre pranchetas, o leve cheiro de metal e café pairando no ar, tudo contribui para a atmosfera de disciplina extrema.
— Agora, mãos à obra. Vocês vão conhecer cada canto deste complexo. Cada detalhe, cada metro cúbico, cada máquina tem propósito. Quem não entender, pergunte, mas não interrompa a fluidez do treino. Aqui, tudo é teste — psicológico, físico e de reflexo. Estejam atentos.
Todos avançam pelo corredor branco, amplo e minimalista, onde cada detalhe transmite rigor e disciplina. À frente, uma vidraça do teto ao chão revela toda a sala de exercícios, permitindo uma visão completa de cima para baixo. Ali, entre esteiras, máquinas de musculação e equipamentos de reflexo, está ela: “A Donzela de Aço”, trajando máscara de treino, correndo ao lado de seu preparador físico. Cada movimento é preciso, focado, sem distração. Ela ignora todos, alheia aos olhares, porque ali o foco absoluto e a cabeça de piloto são superiores a qualquer formalidade.
Ron, à frente do grupo, fala com firmeza:
— Esta é a sala de exercícios. Cada um de vocês poderá usá-la quando for chamado. Regra número um: ninguém conversa com Michà. Vocês ainda não são pilotos da equipe. Observem. Aprendam. Respeitem o espaço dela.
Todos se entreolham, absorvendo cada palavra. Alguns suspiram, outros mantêm o olhar fixo, sabendo que ali se constrói mais que habilidade: se constrói lenda. Michà, além de bela, demonstra resistência, disciplina e coragem. É a referência viva, intocável, o padrão pelo qual todos serão medidos.
Enquanto ela mantém o ritmo, a equipe sente o peso da instituição que os cerca: corredores impecáveis, equipamentos de ponta, o silêncio respeitoso e a atmosfera de exigência máxima. Cada detalhe, cada sombra projetada pelo vidro, cada máquina alinhada reforça que estão em um complexo onde talento e disciplina se encontram, e que nada ali é por acaso. A aura de Michà não é apenas física: é psicológica, inspiradora, implacável.
Ron observa de longe, satisfeito: todos veem, todos aprendem, mas apenas ela demonstra a verdadeira essência da velocidade e do controle.
Mais adiante do corredor, grupo de engenheiros e mecânicos trabalhava na recolocação de peças, logística e distribuição. Cada movimento parecia ensaiado: caixas empilhadas com precisão, relatórios passados de mão em mão, ferramentas conferidas duas vezes antes de irem para o estoque. Os pilotos, ainda em fila, olhavam admirados pela harmonia daquela engrenagem. A AVEX INFINITY TEAM funcionava como um organismo vivo.
Ron abriu os braços, orgulhoso:
— Aqui, como vocês veem, é o centro de logística e mecânica. Todas as peças que precisamos passam por este chão. É aqui que montamos os carros.
No fundo, um pano preto estendido em grandes cortinas escondia a silhueta do novo supercarro. O desenho encoberto pelo tecido despertava algo quase sagrado. Os pilotos se entreolhavam, alguns com os olhos marejados. Era como contemplar um útero de aço que carregava um nascimento prestes a acontecer — a máquina que Michà guiaria e, no futuro, talvez um deles.
Ron parou diante do pano e falou com solenidade:
— Parece que o supercarro respira, não é? Melhor ainda é entrar nele, sentir a diferença entre uma dor de cabeça que dura seis horas e a descarga de um GP de quase três horas. Isso não é apenas velocidade: é um simulacro da liberdade, um orgasmo que dura de seis a oito segundos. Se o sexo fosse tão bom, ninguém sairia do quarto. Mas nessas máquinas… nessas máquinas, somos livres por temporadas inteiras.
Os pilotos, quase em transe, repetiram o mantra:
— Mãe Ceres que nos alimenta, educa e devora!
Todos, menos o piloto da República de Fiúme, que deixou escapar em tom próprio:
— Mãe Ceres que nos alimenta, educa e devora.
O silêncio cortou o ar. Ron não se irritou, não ergueu a voz. Apenas sorriu de lado, como se tivesse esperado por aquilo.
— Interessante… — disse, olhando diretamente para o jovem. — Cada país cria seus próprios deuses. Mas aqui, na AVEX, existe apenas um: a máquina. A máquina não educa, não devora, não perdoa. Ela apenas exige. Quem não entender isso… não passa do GFG.
O piloto de Fiúme engoliu seco. Os outros respiraram fundo, aliviados por não serem eles o alvo. O pano preto ao fundo parecia pulsar, como se confirmasse a sentença de Ron.
Os pilotos pararam diante das cortinas negras. O carro oculto não era apenas uma máquina — era um altar. A respiração coletiva cessou, e por um instante, parecia que o tecido se movia como pulmões.
Ron ergueu a voz com solenidade:
— Aqui não existe apenas engenharia. Aqui está a fé de Ceres. O útero de aço que acolhe e devora.
Os engenheiros, em silêncio ritual, pareciam monges em serviço. Cada ferramenta brilhava como incenso metálico, cada peça encaixada era oração.
O carro era deus adormecido. Ron era o sumo sacerdote. Michà, a santa intocável. E os novatos, fiéis à espera do batismo.
Todos repetiram o mantra, como se fosse oração final:
— Mãe Ceres que nos alimenta, educa e devora!
Todos reagiram de maneiras diferentes, mas não havia como negar: diante da silhueta oculta sob as cortinas negras, todos olhavam como se estivessem diante do primeiro brinquedo de suas vidas. A diferença, porém, estava no peso. Como dizia Mãe Ceres: “a diferença entre homens, mulheres e crianças são os preços de seus brinquedos”. E ali estava o mais caro de todos. A igreja de aço. O útero de aço. Moldados pela doutrina da Mãe, pela lógica do Útero de Chumbo e do Ceresianismo: a sobrevivência acima da liberdade, o sonho perfeito realizado conforme a vontade da Mãe Ceres. O supercarro era a fantasia concreta desse credo — e, ao mesmo tempo, a tentação máxima. Estar dentro dele, sentir a velocidade, era por instantes ser maior que a Mãe, mesmo que apenas por poucas horas.
Ron os conduziu pelo complexo durante horas, apresentando cada ala, cada engrenagem daquela estrutura colossal. Fez questão de mostrar que ali ninguém estava “brincando”. Mas, paradoxalmente, era justamente pela brincadeira — essa brincadeira séria de ser veloz, de flertar com a morte e chamá-la de liberdade — que a AVEX INFINITY TEAM se erguia como instituição. Crianças não sabem nada, mas brincando sabem tudo. E era esse paradoxo que alimentava a máquina e a fé. Um sonho doce, mas também pesado para aqueles que um dia precisassem acordar dele.
À noite, recolhidos em seus quartos individuais, os doze pilotos tentaram descansar. Doze sonhos diferentes, doze ambições infladas, doze almas arrogantes e cheias de ódio por disputarem a mesma vaga de segundo piloto. Mas no fundo, todos sabiam: ser aprovado era apenas o primeiro passo. O verdadeiro pesadelo viria depois, quando cada um tivesse de encarar seu maior rival, não o companheiro ao lado, mas a lenda viva à frente deles. Michà, a Donzela de Aço. E no grid da AVEX só havia espaço para um piloto principal.
Na manhã seguinte, todos os doze pilotos se reuniram novamente no auditório, ainda espalhados em suas posições para o briefing antes de entrar nos simuladores virtuais. Havia oito simuladores disponíveis, mas apenas quatro seriam usados naquela sessão; os outros quatro fariam simulações mais tarde. Apesar de estarem aquecidos após o treino físico na academia na tarde anterior, alguns pareciam levemente decepcionados: Michà, a Donzela de Aço, não estava presente.
Dan, a engenheira de pista, assumiu a frente, explicando detalhadamente o que esperava da sessão.
— Objetivo da sessão — disse ela, olhando cada piloto nos olhos —: Hoje o foco é trabalhar o aquecimento dos pneus e o comportamento em curvas de baixa.
Ela continuou, com clareza e precisão, sem deixar margem para dúvidas:
— Parâmetros técnicos: o carro está configurado com carga aerodinâmica média, nível de combustível X e pneus simulando compostos macios usados.
— O que observar — enfatizou —: queremos feedback sobre tração na saída de curva, estabilidade na frenagem e sensibilidade da dianteira.
Os pilotos anotavam mentalmente, absorvendo cada detalhe.
— Procedimentos — continuou Dan —: no início, façam duas voltas de adaptação. Depois, entrem no ritmo. Pediremos algumas voltas constantes para coleta de dados.
Por fim, destacou a importância da mentalidade durante o treino:
— Postura mental: não se preocupem com tempo de volta agora. O foco é consistência e clareza no feedback.
O auditório permaneceu em silêncio, cada piloto absorvendo a responsabilidade e o peso da sessão. Aqueles que ainda não haviam cruzado com Michà sentiam a ausência dela como um lembrete: no mundo da AVEX INFINITY TEAM, ninguém recebia tratamento especial. E ali, naquele circuito fechado de Ceres, cada curva e cada freada testariam não apenas suas habilidades técnicas, mas também sua capacidade de se tornar mais do que humanos, no limiar entre o controle absoluto e a adrenalina pura.
Ron entrou na sala com uma prancheta em mãos, o semblante sério e firme, e chamou os oito pilotos selecionados para iniciar os testes nos simuladores.
— Bom dia a todos — disse, com voz firme —. Eu convoco: Rix, Ara, Dio, Joa, Doca, Lans, Ray e Pace… me sigam, por favor!
Os pilotos se entreolharam, alguns respirando fundo, outros já com um brilho nos olhos. Atônitos e curiosos, seguiram Ron pelo corredor. Ao longo das paredes, pôsteres dos campeões passados se alternavam com telas de LED, projetando animações de velocidade, curvas e ultrapassagens perfeitas. No fundo, uma batida pesada preenchia o ar: Daft Punk – Harder, Better, Faster, Stronger.
A música pulsava sincronizada com as animações de luz, e a pressão no ambiente era quase tangível — um estímulo sensorial que fazia cada coração bater mais rápido, cada mente se concentrar mais. Cada repetição, cada curva animada nos LEDs, fazia os sentidos saltarem, afiados como lâminas.
Era um chamado para quem queria mais do que simplesmente pilotar; era o útero de aço, o espaço onde metal e carne se fundiam, onde cada piloto começaria a provar do limite da sua resistência e habilidade. Ali, não havia espaço para hesitação. O simulado seria rigoroso, impiedoso e absoluto, e os oito escolhidos sentiam isso pulsando no ar, como se cada nota da música e cada flash de luz fossem um lembrete do que os esperava: velocidade, precisão e sobrevivência.
Os oito pilotos seguiram Ron até o salão dos simuladores, um espaço amplo, iluminado por luz branca intensa, minimalista, mas de atmosfera quase ritualística. Cada máquina estava alinhada como um altar de aço e fibra de carbono, com painéis de LED e volantes que pareciam de outro mundo, prontos para serem o prolongamento do corpo humano.
Rix foi o primeiro a subir, um jovem alto e musculoso, de expressão séria. Sentou-se, segurou o volante e respirou fundo, como se tentasse absorver a energia do ambiente. Ara, por outro lado, franziu a testa, claramente medindo cada detalhe, cada ângulo da cabine antes de se acomodar. Dio parecia alheio ao redor, focado apenas no volante, mãos já tremendo de ansiedade e excitação.
Joa e Doca trocaram olhares, um misto de desafio e cumplicidade. Ambos sabiam que seriam rivais internos, mas também que aquele simulador era o primeiro teste de fogo — errar aqui não seria apenas um aprendizado, seria uma advertência silenciosa. Lans, Ray e Pace observavam em silêncio até que Ron desse o sinal final.
— Ajustem o assento, os pedais e o volante. Entrem na posição de corrida. Respirem fundo e sintam a máquina — disse Ron, caminhando entre eles, avaliando cada movimento, cada expressão. — A pista de Ceres é traiçoeira, mesmo nos simuladores. O que vocês fizerem aqui vai refletir no GFG.
Um estalo metálico ecoou, os simuladores ganharam vida com o rugido virtual dos motores. Luzes piscavam, telas simulando o circuito inteiro se acenderam, e cada piloto sentiu o coração acelerar. Rix apertou o botão de ignição do painel, e imediatamente o simulador respondeu com vibrações precisas, quase reais. Ara franziu o cenho: o carro virtual se comportava diferente do esperado, mas era uma oportunidade de sentir cada detalhe do volante, cada centímetro do cockpit.
Dio soltou um sorriso nervoso, sentindo a adrenalina subir. Ele sabia que poderia se perder na pressão, mas ao mesmo tempo, era o combustível que queria. Joa e Doca já estavam em ritmo, ajustando traçados e frenagens, como se tivessem nascido para isso. Lans, Ray e Pace respiravam fundo, absorvendo cada detalhe da tela e cada vibração que chegava às mãos.
Ron observava de pé, cruzando os braços. Cada pequeno movimento, cada expressão de tensão ou confiança era registrado por ele. Ali não havia distração, não havia favor. Era teste, era performance, era preparação para aquilo que apenas alguns sobreviveriam: a corrida real, o GFG, onde o metal se encontraria com a carne e apenas os melhores resistiriam.
Na sala ficaram Ayr, Adual Ikin da República de Fiúme — estrangeiro, comunicativo, de sotaque carregado mas fácil de entender —, Lidi, uma mulher de Ceres, e Ickx, também de Ceres. Dan explicou que eles ficariam na espera para usar os simuladores virtuais à tarde. Podiam ir aos quartos ou mesmo passear pelo complexo, mas sempre uniformizados e com crachá.
Ayr sentou-se na primeira fila do auditório, mãos entrelaçadas atrás da nuca, entediado. Ao lado, Adual parecia animado demais para quem estava apenas aguardando.
— Vocês podem ouvir música agora? — perguntou Adual, quase num tom de curiosidade infantil.
Ayr estranhou a pergunta. Música? Fazia tanto tempo que isso não soava como algo proibido. Mesmo assim, respondeu com um meio sorriso.
— Sim. Faz anos que Mãe Ceres permitiu. Claro, ainda existe controle dos censores, mas eles buscam qualidade musical.
Na sua cabeça, Ayr lembrou de quando era mais jovem: os rádios piratas, as batidas escondidas nos porões, e as acusações absurdas que recebeu de “rebeldia”. Quase riu por dentro — se tivesse nascido alguns anos antes, estaria morto.
— Mas por que a pergunta? — completou.
Adual ajeitou-se na cadeira, com aquele ar de quem trazia histórias pesadas na bagagem.
— Bem, lembro que, no meu país, vocês não podiam ouvir música. Ou praticar qualquer coisa que mostrasse rebeldia.
Ayr assentiu. O incômodo cresceu, mas tentou transformá-lo em orgulho, repetindo o discurso que aprendera.
— Ah, sim... antes era mesmo assim. Mas Mãe Ceres percebeu. Acolheu a música, apoiou os músicos, desde que houvesse propósito e qualidade. O senso de liberdade da nossa Mãe é... divino. É difícil falar algo ruim dela.
Hesitou por um segundo, antes de confessar:
— Eu, por exemplo, fui muito rebelde na juventude. Acusado de coisas que não fiz. Se fosse anos atrás, eu teria sido queimado na Praça A. Hoje... hoje temos até feira de trocas e artesanato lá.
O estrangeiro sorriu, fascinado.
— Sua Mãe absorveu vocês de uma maneira que simula a própria liberdade. Incrível.
Ayr piscou, desconfiado. “Simula?” O tom soou estranho, mas deixou passar.
— Mas fala a verdade. Melhor que a sua liberdade, lá no seu país, não é?
— De fato. Ela é implacável. Sua lógica vence antes do debate.
Ayr soltou uma risada curta.
— No final, é como a nossa mãe de verdade. Elas sempre têm razão.
— Sim. Mãe Ceres é considerada santa pelos cidadãos de Fiúme.
Ayr inclinou-se para frente, lembrando-se de Ron.
— Viu o braço dele? Realmente... Mãe Ceres fez o que os deuses não fazem. Fé recompensada.
Adual baixou os olhos.
— É difícil vencer a lógica dela diante da minha fé. Melhor eu ficar em silêncio, ou vou acabar me atrapalhando.
Ayr sorriu com mais leveza dessa vez.
— Que nada. Qual é o seu nome mesmo?
— Adual Ikin.
— Nossa, que diferente. Você tem sobrenome! Que demais! O meu é só Ayr.
Ayr se levantou da cadeira. Estava cansado do ar abafado do auditório e do olhar de Lidi, que parecia escárnio puro diante de Adual. Ickx também não se importava em esconder sua indiferença. Aquela tensão silenciosa entre os de Ceres e o estrangeiro era evidente, quase palpável.
— Vamos lá fora? — disse Ayr, quebrando o clima.
Adual o seguiu pelos corredores claros, curiosidade viva nos olhos. Caminharam lado a lado em silêncio por alguns metros, até que ele não aguentou.
— Por que vocês se odeiam assim? Até entre vocês mesmos, de Ceres? — perguntou, sem rodeios.
Ayr respirou fundo. Aquela era a pergunta certa, mas a resposta nunca era simples.
— É complicado... todos queremos a atenção da Mãe, mas não queremos interferências internas. Entre nós, podemos admitir derrotas. Mas perder para alguém de fora... é pessoal.
Adual arqueou a sobrancelha, provocando sem malícia:
— Como crianças em volta da Mãe. Isso não a torna sádica?
Ayr deu uma risada curta, seca.
— Não. Isso nos torna fortes. Bem-vindo a Ceres.
Ele parou um instante, encarando o estrangeiro, antes de continuar:
— Reconhecer o ódio no outro faz parte. É cultural. Você pode criticar nossa Mãe, e tudo bem... se fosse anos atrás, seu pescoço já estaria quebrado. Mas você está aqui. A lógica da Mãe é negar a realidade.
Ayr estreitou os olhos, como se quisesse medir até onde Adual aguentaria ouvir a verdade.
— E você, com certeza, pagou milhões para estar aqui. Eu não. Eu estou porque tenho resultados. Não estou te menosprezando... bem, talvez um pouco. Mas isso é real.
Adual sorriu com serenidade.
— Não tem problema. No meu país, Annes é herói nacional. Virou até estátua.
Ayr silenciou por alguns segundos. A lembrança de Annes ainda doía como ferro quente.
— Entendo... aqui, ele é um traidor. Mas aí está o paradoxo: ele também foi cinco vezes campeão da categoria em que estamos. O melhor de nós nos traiu por fama e “liberdade”.
— Ele é realmente muito bom — admitiu Adual. — Temos orgulho dele. Mas estou aqui para aprender com vocês, sem esconder nada.
Ayr olhou de lado, como se testasse a sinceridade do estrangeiro.
— Mãe Ceres não tem medo de vazar segredos. Parece até que, quando ela revela, ela evolui. Ela absolve o absurdo.
— Pode me dar um conselho para os outros pilotos? — pediu Adual.
— Use o ódio a seu favor. Acostume-se com ele.
Adual pensou um instante antes de retrucar:
— Mas... por que você não sente ódio de mim?
Ayr arqueou uma sobrancelha, deixando escapar um meio sorriso.
— Ih... acho que você é um espião, hein. — O silêncio que se seguiu foi quebrado pela risada dos dois.
Depois Ayr completou, seco, sem deboche:
— Não te vejo como ameaça.
Adual entendeu que ali não havia ironia, apenas transparência. Riram de novo, mas com alívio.
— Explicar a um cidadão de Ceres como é ser de Ceres é desperdício de tempo e energia — concluiu Ayr. — Mas explicar isso a um estrangeiro... é desnecessário.
Enquanto Ayr e Adual conversavam no corredor, Lidi apareceu mais ao fundo, os braços cruzados e a expressão dura. Não parecia por acaso: ela havia seguido os dois.
— Então é isso? — disse, a voz carregada de ironia. — O estrangeiro já tem um amigo dentro de casa.
Ayr virou-se devagar, encarando-a.
— O que você quer, Lidi?
— Quero entender por que você está abrindo o jogo com ele. Esse tipo de conversa não é para forasteiros.
Adual ficou em silêncio, mas seus olhos denunciavam certo desconforto. Ele não queria piorar a situação. Ayr, por outro lado, não recuou.
— O óbvio, Lidi. — A voz dele era firme, quase solene. — Se Adual está aqui, é porque Mãe Ceres quer. Se ela não quisesse, ele não estaria nem respirando este ar.
Lidi apertou os olhos, como se quisesse cravar uma resposta, mas olhou para cima, percebendo as câmeras ao longo do corredor. A lembrança da vigilância constante fez o peso da acusação recuar em sua garganta.
— Você confia demais nesse estrangeiro... — murmurou, cedendo um pouco, mas sem soltar a desconfiança que latejava em seus olhos.
Ayr deu um passo à frente, deixando claro que não recuaria.
— Eu não preciso confiar, Lidi. Eu apenas sigo a lógica. E a lógica da Mãe é perfeita.
Por alguns segundos, apenas o silêncio reinou. As luzes brancas refletiam no corredor, impessoais, e as câmeras piscavam como olhos atentos, registrando tudo. Lidi respirou fundo, recuou meio passo e voltou a se apoiar na parede.
— Cuidado, Ayr. A lógica também pode engolir quem a desafia — disse, antes de virar as costas.
Adual olhou para Ayr, meio inquieto.
— Sempre assim?
Ayr respirou fundo, sem perder a firmeza no olhar.
— Sempre. Bem-vindo à vigilância. Aqui, até o silêncio fala.
As palavras de Ayr ainda ecoavam no corredor quando Lidi se afastou, engolindo a própria desconfiança diante das câmeras. O silêncio entre Ayr e Adual voltou a pesar, mas não estavam tão sozinhos quanto imaginavam.
Na sala de controle, acima dos corredores, dezenas de telas mostravam cada ângulo do complexo. Dan, de uniforme impecável, observava tudo com a calma de quem sabia separar emoção de dado. Ela ajustou um dos monitores, ampliando o enquadramento no corredor onde os três pilotos haviam se encontrado.
Não sorriu, não suspirou. Apenas pegou sua prancheta digital e digitou algumas anotações rápidas:
[Observação – 07h54]
Piloto Ayr demonstra liderança natural e confiança plena na lógica de Ceres. Resiliente diante da provocação.
Piloto Adual Ikin mantém postura diplomática, evita atrito, mas não disfarça desconforto.
Pilota Lidi apresenta hostilidade direta e suspeita recorrente. Cede somente ao lembrar da vigilância.
Dan gravou o arquivo e o etiquetou com um código numérico. Não precisava de juízo de valor, apenas fatos. A triagem psicológica era parte essencial do processo, e cada reação contava tanto quanto uma volta rápida no simulador.
Enquanto Ayr e Adual retomavam a caminhada pelo corredor branco, Dan manteve os olhos fixos na tela por mais alguns segundos. Depois, sem dizer uma palavra, desviou para outro monitor, onde os simuladores já exibiam os primeiros testes sob o comando de Ron.
Tudo estava sendo registrado. Tudo tinha valor.