Após o início de sua era dourada, Ceres evoluiu — mas o espírito humano também. Aos poucos, o desejo pela liberdade se rebelava. Homens e mulheres, até mesmo os filhos mais obedientes, começaram a organizar corridas clandestinas.
Mãe Ceres percebeu: a fúria humana se voltava contra ela. O recado estava claro.
As influências vinham dos continentes, de folhetins contrabandeados, de mensagens criptografadas via rádio amador, de transmissões ilegais que percorriam o mundo subterrâneo. Usavam sua própria tecnologia agrícola como base, transformando tratores em supermáquinas, adaptando-as para saciar o instinto de correr como o trovão.
Nas plantações, o ronco dos motores soava como o chamado da natureza — como o despertar de deuses adormecidos. Homens e mulheres sonhavam em cavalgar cavalos divinos: bestas de aço, diesel, óleo e gasolina. Mãe Ceres viu o fascínio. Entendeu que até os adultos continuavam crianças — e que a única diferença entre eles estava no preço do brinquedo.
Com sua sagacidade, arquitetou uma proposta que abalaria todo o continente. Seus filhos eram fiéis, mas o chamado para o impossível era mais forte que a lei. Não se arrependiam do que faziam — e mesmo na transgressão, jamais deixaram de amar sua Mãe.
Assim como os deuses antigos criaram o homem à sua imagem e semelhança, Mãe Ceres criou as máquinas de corrida. Veículos capazes de ultrapassar os 450 km/h, encantando pela fusão de astronomia, engenharia e fúria mecânica. Seus filhos, orgulhosos, se uniram mais uma vez. Mãe Ceres havia domado, novamente, o espírito humano.
O entretenimento era também lucro. Seus motores eram únicos. Seus pilotos, lendários.
Mãe Ceres é implacável: ela nos educa, nos alimenta — e nos devora.
Mãe Ceres disse:
"A diferença entre adultos e crianças está no preço de seus brinquedos."
E não deixou que fosse apenas uma frase. Reuniu sua equipe de astrônomos e engenheiros, e por dez anos trabalharam na criação de supercarros e na formação de pilotos. Assim nasceu a Academia da Velocidade — AVE INFINITY.
Doze superpilotos disputavam duas vagas para correr nos circuitos do continente. No sexto ano, um deles se consagraria campeão, elevando Ceres ao patamar da excelência absoluta. Premiações grandiosas e desafios impensáveis fizeram da AVE INFINITY uma referência mundial, atraindo pilotos estrangeiros para treinar em sua equipe.
Mas nem tudo era glória: rivalidades ferinas marcavam cada treino, cada prova. Nenhum piloto era amigável, nem mesmo entre os mais internos. Eles se odiavam, e odiavam ainda mais qualquer um que ousasse se meter em suas brigas. Mesmo sob a tutela de Mãe Ceres, a chama da competição continuava incontrolável.
O cheiro de gasolina queimando misturava-se ao suor dos pilotos e ao aroma da terra levantada pelos pneus. A disputa na AVE INFINITY não era uma corrida comum — era uma guerra silenciosa, onde provocações, insultos e ódio pelo domínio valiam tanto quanto velocidade. Socos eram proibidos; quem ousasse tocar o adversário era imediatamente separado. Mas a raiva fervilhava em cada curva, em cada ultrapassagem, em cada motor que rugia como trovão.
Os carros, inspirados nos lendários protótipos de resistência de supercarros, eram monstruosidades de engenharia: aerodinâmica perfeita, motores capazes de ultrapassar os 450 km/h, combustíveis que queimavam como fogo sagrado, chassis que suportavam a fúria humana. Cada piloto sentia a máquina como extensão do próprio corpo, e a pista era tanto arena quanto templo.
Durante os treinos e provas, insultos e palavrões cortavam o ar tão rápido quanto o vento nos capacetes. Um olhar atravessado, uma provocação verbal, e a tensão crescia, elétrica, quase tangível. Cada piloto queria ser o melhor — não só para vencer a corrida, mas para provar que sua fúria, coragem e habilidade eram superiores a todos os outros.
Mãe Ceres observava do alto de sua torre de controle, impassível e fascinada. Ela sabia que seus filhos a amavam, mas que o espírito humano, mesmo sob disciplina e ensino, continuava indomável. Cada corrida era uma dança perigosa entre criação e rebeldia, velocidade e ódio, luz e fumaça — e ela saboreava cada segundo desse espetáculo.
O sol mal despontava sobre os circuitos de AVE INFINITY, tingindo o asfalto com reflexos dourados. O cheiro de borracha queimando e óleo misturava-se à poeira levantada pelos motores, como se a própria terra respirasse tensão.
Dois superpilotos alinhavam suas máquinas, cilindros prontos para rugir, cada carro um monstro de aço e fogo. Nenhum soco seria desferido, mas isso não importava. A batalha acontecia nos olhares: cada piloto estudava o adversário, buscando medo, hesitação, qualquer fraqueza invisível. Um sorriso cínico, um franzir de sobrancelhas, uma provocação silenciosa — cada gesto era uma arma.
Os números não mentiam. Velocidade, tempo por curva, aceleração — tudo registrado e comparado. Humilhar o outro era ver seus índices caírem, seus tempos se perderem, suas estatísticas serem superadas. Cada centésimo de segundo ganho era uma vitória, cada erro, uma humilhação que queimava mais que qualquer insulto verbal.
O rugido dos motores subiu, uníssono, como trovões adormecidos despertando. Eles arrancaram. O vento cortava os capacetes, poeira e faíscas saltavam de cada pneu, e os carros dançavam perigosamente pelas curvas. Cada ultrapassagem era um ato de desafio, cada freada perfeita, um golpe calculado na batalha invisível.
Os olhos de Mãe Ceres acompanhavam cada movimento do alto de sua torre. Ela via o prazer, o ódio, a raiva contida, a adrenalina e a obsessão pelo domínio. Não precisava intervir; ela apenas observava, sabendo que o espírito humano se revela mais verdadeiro em seus próprios limites.
O circuito transformava-se em arena, templo e campo de guerra. Cada piloto corria não apenas pela vitória, mas pela glória de humilhar o outro, de provar que seu cálculo, coragem e instinto eram superiores. Cada curva era poesia e agressão, cada aceleração, um decreto silencioso: quem domina os números, domina a todos.
A AVE INFINITY não se limitava a pistas e circuitos. Possuía simuladores de realidade virtual, mas havia um único e temido simulador de força G: o GFG — Gimbal de Força G. Um laboratório circular, negro como ébano, com trinta metros de diâmetro, duas circunferências concêntricas e um único propósito: moldar pilotos além do limite humano.
O primeiro círculo controlava a direção, aplicando forças acima de 5G, capazes de fazer qualquer um desmaiar. O segundo círculo controlava a velocidade, formando um caminho circular no qual os cockpits de seus carros ficavam suspensos em cabides metálicos. Cada movimento, cada aceleração e curva simulava a realidade com precisão mortal.
O GFG era tão perigoso quanto qualquer carro de corrida. Mas havia segurança: fora da cabine, técnicos monitoravam batimentos cardíacos, pressão arterial, oxigenação do sangue e todos os sinais vitais. Cada piloto era testado até o limite, desafiando corpo e mente, enquanto a máquina absorvia o ódio, a tensão e a determinação, transformando-os em energia pura para a AVE INFINITY.
O GFG não era apenas treinamento. Era prova de coragem, resistência e obsessão. Quem sobrevivesse a seus giros, curvas e acelerações extremas estava pronto para enfrentar qualquer circuito, qualquer adversário e qualquer desafio imposto por Mãe Ceres.
O piloto entrou na cabine suspensa do GFG. O interior era estreito, metálico, frio. Um silêncio absoluto preenchia o laboratório negro antes que o círculo externo começasse a girar. O chão tremia levemente, anunciando a força que viria.
A primeira curva simulada chegou com violência: forças superiores a 5G pressionaram o corpo contra o banco, arrancando cada músculo, cada fibra, cada respiração. O coração acelerou, quase saltando do peito. O sangue parecia ferver nas veias, e o estômago ameaçou se rebelar. Um instante de fraqueza, e qualquer piloto poderia desmaiar — mas a cabine não perdoava nem um centímetro.
O segundo círculo começou a girar, controlando a velocidade. Cada aceleração fazia a cabine inclinar, torcer, virar como se estivesse em um furacão de aço e adrenalina. Faíscas imaginárias saltavam do cockpit, o cheiro metálico do ambiente parecia impregnar a pele. A sensação era de estar dentro de uma fera viva, uma máquina que respirava e respondia ao ódio e à coragem de quem ousava enfrentá-la.
Fora da cabine, técnicos monitoravam cada sinal vital. Cada batimento cardíaco, cada variação de pressão arterial, cada sopro de oxigênio no sangue era registrado, analisado, transformado em dado. O piloto era medido, avaliado, testado — e a máquina absorvia tudo: tensão, medo, determinação, ódio silencioso.
Minutos se passaram como horas. Cada curva vencida, cada aceleração suportada, era uma vitória silenciosa. Cada instante de fraqueza era humilhação, lembrando que ali, no GFG, não havia atalhos, nem sorte. Apenas quem se entregasse de corpo e mente poderia emergir pronto para enfrentar a AVE INFINITY, pronto para domar a pista e sobreviver à guerra silenciosa entre máquinas e humanos.
O silêncio voltou ao laboratório negro. Mas ninguém podia relaxar. Cada piloto que entrava na cabine sabia: o GFG não ensinava apenas a dirigir. Ele ensinava quem você realmente era, e que a verdadeira corrida começava dentro de você mesmo.
O Circuito
O maior circuito de Ceres dominava a paisagem, imponente e quase sagrado. A pista era de superfície, desenhada para mostrar a grandiosidade do mundo que Mãe Ceres havia criado. A primeira parte, curta e veloz, percorria o topo do estádio de Flagball, mergulhando em seguida no coração da cidade. Do alto, parecia um rio de aço cortando concreto, fumaça e luz, convidando os pilotos a desafiar limites.
A segunda parte era monumental: retas quase infinitas de 30 km que cortavam campos de trigo, soja e milho, exibindo a abundância e o poder da terra. Cada detalhe era transmitido via satélite de CERE IV para todo o continente, mostrando o milagre de Mãe Ceres, sua engenharia e domínio absoluto sobre humanos e máquinas. Cada curva, cada trecho reto, cada colina parecia cuidadosamente desenhada para lembrar a todos: aqui, o impossível era permitido — mas com regras mortais.
E havia uma curva lendária: “O Beijo de Mãe Ceres”. Uma curva traiçoeira onde qualquer excesso de velocidade significava morte certa. Nenhum piloto podia ultrapassar 250 km/h ali, e ainda assim o risco era real. A lenda dizia que até os mais experientes tremiam antes de encará-la, porque ela testava mais do que habilidade: testava coragem, cálculo, instinto e respeito pelo poder que Mãe Ceres exercia sobre tudo.
O circuito era mais que uma pista; era um altar, um espetáculo e uma provação. Cada centímetro mostrava a força, a ambição e a inteligência de Ceres, e cada transmissão lembrava a todos que estavam diante do domínio absoluto da Mãe, que observava e moldava não apenas as máquinas, mas também os corações e mentes de seus filhos.
O maior circuito de Ceres não era apenas uma pista; era um palco, um monumento à grandiosidade da cidade e à vontade de Mãe Ceres. A primeira parte, curta, serpenteava sobre o estádio de Flagball e mergulhava no coração da cidade, lembrando a todos que ali, mesmo em tempos de guerra nos países vizinhos, a neutralidade de Ceres reinava absoluta.
A segunda parte estendia-se por retas quase infinitas de 30 km, cortando campos de trigo, soja e milho, transmitindo via satélite de CERE IV cada detalhe ao continente. Era a propaganda máxima de Ceres: riqueza, tecnologia e ordem. Painéis gigantes exibiam produtos inúteis, extravagantes, que ninguém realmente precisava — mas o dinheiro chegava antes mesmo de a corrida ser vista, trazendo recursos para alimentar os planos de Mãe Ceres.
Entre todas as curvas e retas, havia a lendária “O Beijo de Mãe Ceres”. Uma curva mortal, onde ultrapassar 250 km/h era sentença de destruição. Cada piloto tremia diante dela, não só pelo perigo, mas pelo respeito quase religioso à Mãe que observava cada movimento.
O circuito transformava a cidade em espetáculo, atraía olhares de todo o continente e servia como vitrine do poder econômico e tecnológico de Ceres. Enquanto o mundo enfrentava guerras e disputas de poder, a cidade permanecia neutra, abundante e cheia de vida — e cada transmissão das corridas era uma prova de que a genialidade de Mãe Ceres superava qualquer rivalidade.
O vento trazia o cheiro da terra e da pólvora metálica das máquinas, enquanto a poeira levantada pelos carros se misturava com os painéis luminosos, criando uma dança de luz e movimento. Cada curva, cada aceleração, cada freada, era uma liturgia de velocidade e espetáculo, lembrando a todos que em Ceres, mesmo o inútil se transformava em poder e riqueza.
AVEX INFINITY – Academia da Velocidade
No coração de Ceres, erguia-se a AVEX INFINITY, um centro tecnológico sem igual, dedicado ao desenvolvimento dos superpilotos que moldariam o futuro da velocidade. Ali chegavam apenas os melhores: jovens vindos das categorias de base, treinados em circuitos de terra nas periferias da cidade, selecionados com precisão por scouts e pelos números que provavam seu talento.
A academia ficava de frente para o grande circuito profissional que serpenteava até o estádio de Flagball, como se fosse sua extensão natural. O complexo reunia alojamentos, oficinas de mecânica e laboratórios de desenvolvimento de motores, sustentado por engenheiros e técnicos de mais alto nível. Era um ecossistema quase independente, abastecido por patrocínios milionários de marcas de todo o continente. Produtos inúteis, ineficientes, mas altamente lucrativos: o combustível perfeito para manter a propaganda política do Ceresianismo, doutrina que celebrava a Mãe como criadora, provedora e devoradora.
Na AVEX, todos os pilotos começavam recebendo o mesmo tratamento: atendimento médico, psicológico, treinos físicos especializados, exercícios de reflexo e memória muscular. Com o tempo, o desempenho individual definia privilégios e regalias — quartos privativos, piscinas, áreas de descanso. Ali, mérito e sacrifício eram moeda de troca.
O centro abrigava também o lendário GFG – Gimbal de Força G, simulador que submetia os pilotos a pressões superiores a 5G, testando não apenas resistência física, mas a capacidade mental de suportar velocidades extremas. Além dele, havia túneis de vento para desenvolvimento aerodinâmico, simuladores virtuais de realidade total e laboratórios onde físicos e astrônomos brincavam de deuses, criando novos materiais como carbono, titânio e rodas de magnésio, empurrando sempre os limites da segurança e da própria vida.
Os carros da AVEX eram monstros: máquinas capazes de atingir de 0 a 100 km/h em apenas três segundos, exigindo corpos treinados ao limite. Era o espaço onde infância e poder se confundiam, onde os brinquedos da Mãe se tornavam armas de velocidade e símbolos de domínio.
O GFG
Ron ajustou o microfone e sua voz grave ecoou pelo rádio:
— Michà, vamos começar com o circuito de Oplon. Devagar, até seu corpo se acostumar. Estou de olho nos seus sinais vitais. Você já fez esse teste no ano passado, mas precisamos repetir. Quero saber se o seu corpo ainda aguenta.
Um dos instrutores do GFG interrompeu, lembrando o protocolo:
— Ela precisa confirmar, Ron. Sem resposta, não há procedimento.
Na cabine, Michà apenas lançou um olhar frio para o monitor. Ódio puro refletia em seus olhos negros, como se fosse humilhante ter que provar de novo que sabia dominar a máquina. Com arrogância, fechou o visor do capacete em um estalo seco. Não disse nada — mas todos entenderam aquilo como um “ok”.
Michà, 22 anos.
Talento nato. No ano anterior, era a segunda piloto; agora, poderia se tornar a primeira mulher titular da AVEX Infinity. O caminho havia sido árduo — não apenas pelas curvas da pista, mas pelas cicatrizes invisíveis de competir em um ambiente masculino. Ainda assim, nada a enganava: seu rosto belo escondia a fúria, mas seus olhos escuros denunciavam o ódio tão denso quanto o cheiro de gasolina que impregnava o ar.
Ron a conhecia como ninguém. Ele era o fogo; ela, a faísca pronta para explodir.
Sabia que Michà não precisava provar nada a ninguém. Mas era criterioso até a crueldade. Já havia visto pilotos morrerem no GFG — triturados como carne em um processador. Para ele, não existia espaço para arrogância: ou o corpo resistia, ou era apagado.
E agora, o destino de Michà estava preso na rotação da máquina.
A Máquina Desperta
O GFG começou a girar lentamente. Primeiro, um zumbido grave tomou conta do laboratório negro, como o rugido de um trovão distante. A cada segundo, o círculo acelerava, e o cockpit de Michà balançava preso à estrutura metálica.
No painel, os números subiam.
— Força em 1.5G. Frequência cardíaca estável. — anunciou o instrutor.
Michà manteve o pescoço firme, olhos fixos no visor, mandíbula cerrada. O silêncio dela era mais eloquente que qualquer palavra.
— 2.8G. Saturação de oxigênio em queda mínima.
Ron não desviava o olhar das telas. Seu braço regenerado formigava como se quisesse lembrar-lhe do acidente. Aquele membro — pálido, estranho, incompleto — parecia reagir junto com a máquina. Ele pensou, quase sem perceber:
"É isso que separa os deuses dos mortais. A dor. A pressão."
— 4.1G. — a voz do instrutor soou mais tensa. — Precisamos do protocolo verbal agora.
Ron apertou o rádio. Sua voz saiu como uma ordem militar:
— Michà, confirme se está consciente.
Por dentro, todos esperavam uma resposta. No cockpit, porém, ela apenas ergueu o polegar, lenta e firme, como se fosse um gesto de desprezo contra o próprio protocolo.
O instrutor arregalou os olhos.
— Isso não basta! Ela tem que falar!
Ron sorriu, frio:
— Basta sim. Ela já respondeu. Continuem.
O GFG gritou, subindo para além de 5G. A cabine tremeu como se fosse despedaçar. O corpo de Michà afundava contra o assento, ossos esmagados pelo peso invisível. Cada respiração era uma luta contra o colapso.
E, ainda assim, ela não piscava.
O Flow Absoluto
Ron estalou no rádio, a voz dura como aço:
— Michà, força 4G! Volta rápida voadora! Quero milésimos abaixo do ano passado — 1'25''905. Traga isso pra baixo de 900. Responda, Michà!
Silêncio.
No monitor, ela seguia calada. O silêncio a irritava, mas a desobediência a excitava. Ron socou o painel com força, fazendo tremer os instrumentos.
— Responda, maldita!
Mas Michà não estava ali.
Seu corpo estava no GFG, esmagado pela gravidade artificial, mas sua mente mergulhava em outro lugar. Entrava no estado que poucos alcançavam: o flow absoluto. A pista, antes selvagem, agora parecia previsível. Cada curva se tornava lenta, simples, inevitável. O impossível tornava-se natural.
"Por que eu corro dentro de uma máquina que pode me matar e ainda sinto felicidade?"
O pensamento ecoava como um sussurro íntimo.
"Porque aqui existe liberdade. O presente proibido por Mãe Ceres, mas que ela nos oferece disfarçado em aço, chumbo e motores."
O ronco da máquina vibrava como uma memória primal. Para Michà, não era só barulho: era o som uterino da criação. O chiado que embalava bebês, o coração que pulsa como motor, o sangue que corre como combustível.
"Sou novamente filha, enclausurada num útero de aço. O cockpit me sufoca, mas também me protege. É claustrofóbico e libertador ao mesmo tempo."
Ali, entre a velocidade e a morte, Michà se sentia mais viva do que nunca.
"A morte poderia calar meu corpo, mas jamais meu espírito. Enquanto respiro, quero mais. Sempre mais."
No centro de controle, Ron observava os gráficos subirem. O sorriso frio voltou ao seu rosto.
— Ela está bem. Entrou no flow absoluto.
O instrutor, incrédulo diante dos números, murmurou:
— É como se... ela tivesse se fundido à máquina.
No visor, as voltas de Michà surgiam uma após a outra, cada vez mais rápidas. O impossível se tornava estatística. O que para qualquer outro seria agonia, para ela era liberdade pura.
A Experiência de Michà
O mundo se tornava líquido. Cada curva, cada pressão sobre seu corpo, era um sussurro do universo. O motor não rugia apenas; ele cantava, pulsava como coração que a sustentava e despertava. O calor e o peso da gravidade eram limites que ela sentia com reverência, não com medo.
A velocidade não era uma disputa; era um diálogo íntimo com o instante, com o próprio corpo que se dobrava, se esticava e se entregava à máquina. Michà não corria para vencer outro piloto — corria para sentir o mundo inteiro comprimido em milésimos de segundo, para provar que seu espírito podia existir livre mesmo dentro do metal e do perigo.
O cheiro de combustível, o chiado dos freios, o toque do assento em seu corpo — tudo era linguagem, música e respiração. Cada curva a envolvia como se fosse abraço de útero metálico, perigoso e seguro, sufocante e acolhedor. E no centro disso tudo, a morte rondava, mas não a dominava; a morte apenas intensificava a vida, e Michà se tornava mais viva do que jamais imaginara.
No flow absoluto, ela não existia mais como Michà separada da máquina. Ela era velocidade, era motor, era liberdade encapsulada, e o mundo fora dali só poderia observar, incapaz de tocar aquela sensação que pertencia apenas a quem se entregava de corpo e espírito.
Confronto no Escritório
Ron observava os números das voltas rápidas e balançou a cabeça:
— Parar os testes.
Michà, sem hesitar, respondeu:
— Coloca 5G.
Ron concordou, com o olhar severo:
— Logo você vai desmaiar. Ninguém vence a física, ninguém.
O GFG subiu a força. Michà desmaiou. Ron desligou o aparelho de propósito, como castigo, e entrou na cabine para acordá-la:
— Vamos, acompanhe-me. Depois conversaremos em particular na minha sala.
Michà se recompôs rapidamente, ajeitou o macacão branco com detalhes em vermelho e o capacete estilizado. Ron, sério, mas com o nervo à flor da pele, não dizia nada. Michà sabia: coisa boa não era.
Silenciosos, ambos caminharam até o elevador. Michà retirou o capacete, soltando os cabelos negros até as costas, segurou o capacete com uma mão e abriu o macacão. Ron seguia à frente, sem olhar para trás.
— Veja este corredor. — disse ele, gesticulando para fotos e troféus. — Todos que cumpriram ordens fazem parte da história da AVEX INFINITY. E você? Você fez história… ganhou corridas, mas não venceu Annes, o traidor, seu ex-companheiro de equipe. Olhe o espaço que ele deixou… vago. Eles nos venceram ano passado!
Michà engoliu o orgulho, em silêncio.
Entraram na sala. Ron fechou a porta atrás de Michà, mas ela, distraída, bateu com força. Ele explodiu:
— Feche a porta devagar! Você não faz isso nos carros! SENTE-SE!
Michà sabia que era rotina: ali, campeões se formavam, e ser mulher não dava tratamento especial.
Ron, furioso, continuou:
— Responda o monitor! Comunicação, Michà! Comunicação! Não vou aliviar. Eu poderia ter explodido aquele GFG com você lá dentro! Mas vou acabar com você no privado! Sabe por que cobro de você? Porque você pode fazer melhor! Eu só grito com os melhores. Sabe por quê? Porque vocês gostam disso, porque vocês correm! Mas eu quero comunicação! Alinhamento! Disciplina!
Ele respirou fundo, continuando com intensidade:
— Nada disso é brincadeira! Você conquistou tudo isso por Mãe Ceres. Comunicação entre você e seu futuro companheiro de equipe… agora, o resto que se dane! Eu quero a alma de vocês!
— Você traz bons resultados, mas comunicação… — ele batia na mesa. — Eu preciso disso. Você erra e perde detalhes. Quando vai vencer? Quando vai acertar pelos detalhes? É isso! Me odeie, mas quando vai usar essa força com comunicação?
Michà engoliu em seco, sentindo cada palavra de Ron penetrar como faísca sobre gasolina. Seus olhos negros, ainda quentes de raiva e adrenalina, fixaram-se no dele.
— Entendi. — disse, em voz firme, mas baixa. — Vou treinar comunicação. Vou alinhar cada movimento. Vou… controlar cada detalhe.
Ron estreitou os olhos, avaliando. Ela não parecia assustada; parecia desafiante, mas ao mesmo tempo consciente da gravidade.
— “Vou treinar comunicação” não basta. — rugiu ele, levantando-se e andando de um lado para o outro. — Eu quero ação, Michà! Cada palavra, cada sinal, cada decisão… quero que seja tão automático quanto respirar!
Michà respirou fundo, sentindo o fluxo da adrenalina ainda pulsando em suas veias. Era o mesmo flow absoluto do GFG, mas agora transformado em disciplina.
— Está certo. — murmurou, firme. — Vou fazer isso. Vou fazer melhor. E vou provar que posso.
Ron parou, encarando-a por um instante. A tensão não diminuiu, mas algo mudou: ele percebeu que a arrogância dela não era obstáculo, mas combustível.
— Muito bem. — disse, finalmente, mais calmo, mas ainda rigoroso. — Agora levante-se. Vamos revisar o treino. Quero que aplique tudo o que aprendeu. Sem desculpas. Sem hesitação.
Michà se levantou, ajustando o capacete e o macacão, o coração ainda acelerado. Ela sabia que ali não havia espaço para erro, mas também sabia algo que Ron nunca precisaria ensinar: ela corria para existir, para sentir a liberdade dentro da máquina, e ninguém tiraria isso dela.
O clima pesado se dissolvia apenas no propósito compartilhado: lapidar talento em excelência absoluta, onde raiva, disciplina e adrenalina se encontravam no mesmo instante.
Michà sentiu uma pontada no estômago. O mal-estar veio rápido, súbito, como se o corpo dela lembrasse que havia limites que nem mesmo o flow absoluto podia ignorar. Antes que pudesse recuar, vomitou no chão da sala de Ron.
Ron permaneceu imóvel, os braços cruzados, rosto fechado. Um suspiro curto de decepção contida escapou. Não era surpresa — não era a primeira vez que isso acontecia.
— Novamente… — murmurou, a voz baixa e firme. — Ainda assim, você volta. Isso é o que importa. Mas lembre-se: talento não é desculpa para fraqueza. Controle o corpo, Michà. Controle.
Michà abaixou a cabeça, envergonhada, mas já sentindo a adrenalina voltar. O mal-estar passaria. Ela sabia que, apesar da dureza de Ron, era ali que se forjava campeãs, e ela não podia se permitir falhar.
Ron, sem um gesto de indulgência, pegou uma toalha e limpou o chão, como quem reforçava silenciosamente uma lição: respeito ao corpo é disciplina; disciplina é liberdade; liberdade é vitória.
Quarto de Michà
Michà repousava em seu quarto reservado, luxuoso e silencioso. Finalmente havia conquistado a vaga de primeira piloto. O conforto ao seu redor não apaziguava totalmente a mente: as palavras de Ron ecoavam em seus pensamentos, afiadas como lâminas.
Ela se lembrava da intensidade dos treinos, da disciplina implacável e… dos sentimentos reprimidos que existiam entre ela e Ron. Mãe Ceres havia percebido, mas apenas relevado: sabia que Ron era a química perfeita para extrair o melhor dos pilotos. O único empecilho era a relação deles. Não havia outro chefe de equipe nem outro piloto capaz de substituir a dinâmica que eles compartilhavam.
O coração de Michà batia acelerado por ele, embora Ron não aliviasse um centímetro. Ele era exigente porque ela aguentava a pressão. Ser melhor, vencer no GFG, conquistar espaço, isso era suficiente. Nem mesmo o luxo do quarto compensava a ausência de aprovação explícita de Ron; ele não precisava elogiar para que o respeito fosse sentido.
De pé junto à janela, ela olhava o circuito banhado pelo pôr do sol. Ao lado, a torre de 1.500 metros projetava sua sombra gigantesca sobre o complexo. Lá embaixo, os “deuses adormecidos” — as supermáquinas — aguardavam. A pintura cinza-escuro reluzia à luz dourada, os uniformes haviam mudado, e os patrocínios brilhavam em cada detalhe.
Michà sentiu o pulso da liberdade na velocidade. Era ali, entre motores, regras e adrenalina, que ela se sentia completa. Mas no coração, havia duas forças: Ron e Mãe Ceres, lembrando-a sempre que obediência e ambição caminham lado a lado, e que para alcançar o ápice, até a paixão tinha de ser controlada.
Michà deixou-se afundar na cama macia, mas não havia descanso. O corpo estava exausto, mas a mente queimava. O olhar de Ron, a fúria contida, as ordens gritadas no rádio… tudo voltava à memória como se ainda estivesse presa no GFG.
“Ele nunca alivia para mim. Nunca.”
Era verdade. Ron pegava mais pesado com ela do que com qualquer outro. E Michà sabia por quê: porque ela aguentava. Porque tinha talento, porque podia suportar o peso que esmagaria qualquer um. Ainda assim, havia algo além da disciplina.
A lembrança da sala fechada, a explosão de raiva dele, a tensão entre os dois. O silêncio no elevador. O jeito como ele nunca a olhava como uma mulher — apenas como piloto. E ainda assim, era isso que mais a prendia a ele.
Ron não era só chefe de equipe. Era um abismo e um espelho: o braço perdido, a dor transformada em disciplina, a paixão sufocada em ordens. Ele era inquebrável… e isso a atraía mais do que podia admitir.
Mãe Ceres sabia. Ela sempre sabia. Mas ao invés de proibir, deixava-os lado a lado como se fosse um castigo. Um castigo cruel: estarem tão próximos e nunca poderem ceder.
Michà respirou fundo, abriu o macacão até a cintura e encostou o capacete ao lado, na cama. O reflexo da torre de 1.500 metros invadia o quarto pela janela, projetando sombra sobre ela. Lá embaixo, os carros reluziam como feras de aço adormecidas.
“Velocidade é a minha liberdade. Mas Ron…”
Ela fechou os olhos, sentindo o coração acelerar.
“…Ron é a prisão em que eu quero estar.”