Ajuste do Cockpit
Michà entrou no cockpit, sentando-se cuidadosamente no cavalete ajustável, segurando a bolsa de plástico com o silicone-espuma que moldaria o assento ao corpo dela. O carro fora feito sob medida, pensado para cada curva, cada vibração, cada força G que só uma piloto como ela podia suportar. Entre homens, já era difícil se destacar fisicamente; na mente e no psicológico, o desafio era ainda maior.
Dan a observava, admirando a força que Michà transmitia nas câmeras de transmissão. Destemida, intocável, pilotando acima de 450 km/h e saindo viva de paredes de concreto — era preciso coragem e controle extremo para isso.
Michà, cautelosa, mantinha a distância, mas quebrou o gelo com um comentário irônico, mesmo odiando que Dan a elogiava:
— Sabe, nessa curva, enquanto a morte estava a centímetros, eu estava… fazendo xixi.
Dan não conteve o riso.
— Segurar xixi antes de quase morrer não é bom — disse, rindo, percebendo que a intimidade e a confiança começavam a surgir no ambiente de trabalho.
O ajuste seguiu, com profissionalismo absoluto, mas agora havia espaço para humanidade, humor e respeito mútuo, enquanto Dan ajustava os moldes do assento e Michà fornecia feedback preciso, cada detalhe garantindo performance máxima e segurança total.
Michà deixou o molde do assento para trás e caminhava pelo complexo quase vazio. O uniforme cinza-escuro antigo parecia destoar das paredes brancas e lisas, como uma sombra deslocada em um templo de silêncio.
Pelos vidros largos, via os engenheiros em sua dança caótica: uns riam nervosamente, outros coçavam a cabeça em desespero, alguns cruzavam os braços e fitavam o chão como se esperassem uma revelação. Era um mantra coletivo de frustração e esperança. Cada gesto, cada tentativa, era por ela — para que seus olhos negros vissem o impossível se tornar velocidade.
Ninguém a notava, e ainda assim, todos sabiam que ela estava ali. O silêncio em torno de Michà não era descaso, mas reverência. Pilotos precisam de espaço, porque no fundo carregam sozinhos o peso da máquina e da morte.
Enquanto caminhava, sentia a energia do lugar pulsar contra o vidro, mas dentro de si o inverso: calma, foco, como se estivesse em outro tempo. O contraste a fazia sorrir discretamente — o caos do aço lá fora, a serenidade da carne aqui dentro.
No fim do corredor, chegou ao alto do complexo. O sol já descia, tingindo de dourado o grid lá embaixo. As linhas da pista cintilavam como se fossem traços de fogo sobre a escuridão nascente. A sombra da torre erguia-se e a cobria inteira, lembrando-a de que Mãe Ceres sempre observa.
Por um instante, Michà parou.
Aquele pôr do sol não era apenas o fim de um dia — parecia um presságio. O início de algo maior, algo que o mundo ainda não estava pronto para ver.
Michà permanecia no complexo como uma criança aguardando o presente prometido. O novo carro ainda era um mistério, mas para ela já tinha nome: Útero de Aço. O cockpit era sua morada — ventre e caixão, segurança e morte em centímetros.
Ron se aproximou devagar, silencioso. Olhou o horizonte alaranjado.
— Em Ceres, o pôr do sol sempre foi lindo. Sempre será.
Ele respirou fundo, pesado.
— Eu lamento termos que ter Dan entre nós. Mas essa é a realidade. Quanto maior a pressão, quanto mais investimento, mais precisamos vencer. Não adianta eu dizer que você tem talento, Michà. Se não transformarmos essa… vontade de estarmos juntos… em resultado na pista, não significa nada. O sonho pode viver, mas só os detalhes decidem.
Michà abaixou os olhos, dividida, os sentimentos borbulhando.
— Eu… sinto muito por tudo isso.
Ron não respondeu de imediato. Caminhou até o vidro e deixou a sombra da torre cair sobre os dois, como se fosse uma sentença. Quando falou de novo, sua voz estava diferente — firme, mas vulnerável.
— Isso não é um adeus. É só um tempo. A Mãe foi muito tolerante conosco. Mais do que deveria. E… mesmo agora… — ele ergueu os olhos para a torre imensa, como se falasse com ela — Mãe Ceres escuta nossas conversas. Inclusive esta.
“Ron não falava em amor, nem em desejo. Falava em investimento, pressão, detalhes. Mas quando a sombra da torre os cobriu, sua voz tremeu. Ele não disse ‘eu sinto sua falta’. Disse apenas: ‘Mãe Ceres escuta nossas conversas, inclusive agora’. Era a forma dele admitir o que não podia.”