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Carta para Hanna Moreira: que sorte a minha ter aceitado aquele convite.

Tatianeturcatti
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Há pessoas que a gente encontra.

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AlmaTavares

Chegar a um sítio pela primeira vez e ter a sensação de ter voltado. O que descreves ali parece-me sobretudo uma dispensa, deixares de te apresentar a alguém. Vejo o contrário quase todos os dias, gente que entra num lugar novo e continua a compor-se para

Chegar a um sítio pela primeira vez e ter a sensação de ter voltado. O que descreves ali parece-me sobretudo uma dispensa, deixares de te apresentar a alguém. Vejo o contrário quase todos os dias, gente que entra num lugar novo e continua a compor-se para ninguém em particular.

Conteúdo da publicação

Há pessoas que a gente encontra.

E há pessoas que, quando chegam, dão a impressão estranha de que a gente já estava a caminho delas há muito tempo.

Você é uma dessas.

Antes de sermos amigas, eu já havia cruzado com você pela cidade algumas vezes. É curioso pensar nisso agora. Duas mulheres atravessando as mesmas ruas, respirando o mesmo ar, vivendo seus próprios dias, sem a menor ideia de que, em algum lugar que a gente não vê, a vida já começava a aproximar uma da outra.

Talvez o acaso seja apenas o nome que damos às coisas enquanto ainda não conseguimos enxergar o desenho inteiro.

E então apareceu a Ingrid.

A Ingrid tem esse dom de abrir portas. Ela é uma espécie de chaveiro das amizades: chega com uma pessoa pela mão, coloca essa pessoa dentro da nossa vida e, de repente, a casa parece ter sido construída para ela.

Foi assim com você.

Um convite para passar um final de semana no sítio de uma amiga.

Eu poderia ter dito não.

Poderia ter permanecido confortavelmente dentro da minha bolha, onde tudo era conhecido, previsível e devidamente organizado.

Mas eu fui.

E ainda bem.

Porque, às vezes, a vida muda de direção por coisas que parecem pequenas demais para carregar uma mudança.

Um convite.

Uma estrada.

Um sítio.

Uma amiga de uma amiga.

E pronto.

Quando percebi, eu estava diante daquela sensação rara de chegar a algum lugar pela primeira vez e, ainda assim, não sentir que havia chegado.

Sentir que havia voltado.

Você já reparou como existem casas em que a gente entra e imediatamente sabe onde colocaria uma xícara?

Onde sentaria para conversar?

Qual janela abriria pela manhã?

Acho que algumas pessoas são assim.

A gente chega e não precisa aprender o lugar.

O corpo reconhece.

Você foi um pouco isso para mim.

Talvez seja por isso que eu penso em você como copo-de-leite.

Não pela delicadeza óbvia da flor, mas pela maneira como ela parece guardar alguma coisa dentro de si. Uma forma branca, aberta, quase como uma pequena concha de luz. Bonita sem pedir testemunha.

Você tem presença.

Mas não aquela presença que exige espaço.

É outra coisa.

Você chega e alguma coisa muda de temperatura.

Você exala.

E talvez essa seja uma das suas características mais bonitas: existe leveza em você sem existir ingenuidade.

Você não é leve porque desconhece o peso.

Você é leve apesar dele.

E isso, Hanna, é muito diferente.

Há pessoas que, depois de serem machucadas, passam a viver como quem fecha todas as janelas antes da tempestade.

Você não.

Você parece ter aprendido a construir telhados sem deixar de abrir as janelas.

Talvez por isso você seja leoa.

Há uma mulher em você que protege os seus com a força de quem não negocia aquilo que ama. Sua família, suas meninas (que às vezes parecem irmãs), seus amigos.

Você cuida.

Mas existe algo bonito na maneira como cuida: não parece nascer de uma obrigação. Parece nascer de uma espécie de pacto íntimo com a vida.

Se é para viver, que seja direito.

Talvez seja essa a sua filosofia sem nome.

Porque você não sabe viver pela metade.

Se existe uma estrada, você pega.

Se existe um lugar improvável, você vai.

Se a ideia parece um pouco absurda, melhor ainda.

Você é capaz de colocar o carro na estrada para um rolê no meio do nada com a mesma disposição com que encara um lugar superfaturado, onde a gente entra com a dignidade de quem definitivamente tem dinheiro para estar ali, ainda que a realidade bancária peça um pouco de ficção.

E eu gosto disso em você.

Essa capacidade quase infantil (no melhor sentido da palavra) de ainda achar que a vida merece ser experimentada.

Como se viver fosse uma coisa que não pudesse ser adiada até que tudo estivesse em ordem.

Talvez porque você saiba, melhor do que muita gente, que a vida não promete ordem antes de começar.

Ela simplesmente começa.

E você vai.

Foi bonito perceber isso naquele chalé.

Eu, você e Ingrid.

A serra.

Aquelas horas em que ninguém precisava ser uma versão apresentável de si mesma.

Não havia currículo.

Não havia papel.

Não havia necessidade de impressionar ninguém.

A gente podia simplesmente existir.

E talvez uma das formas mais bonitas de intimidade seja justamente essa: quando o silêncio não pede explicação e a companhia não exige desempenho.

Ali eu pensei que amizade talvez seja um dos poucos lugares onde podemos descansar do personagem que inventamos para sobreviver ao mundo.

E com você existe esse descanso.

Mas existe também escuta.

Você tem uma coisa curiosa: sabe receber pessoas sem fazê-las sentir que estão sendo recebidas.

Você não transforma hospitalidade em cerimônia.

Você simplesmente cria espaço.

Uma cama arrumada.

Uma comida.

Uma preocupação pequena.

Um “fica à vontade”.

Um detalhe que ninguém pediu, mas você percebeu.

Você tem alma de anfitriã porque parece entender uma coisa que pouca gente entende: receber alguém não é apenas abrir a porta da casa.

É abrir espaço dentro dela.

Talvez seja por isso que tanta gente te conte coisas.

Você escuta sem transformar a escuta em espetáculo.

E, de alguma maneira, depois de conversar com você, a gente sai um pouco diferente de como entrou.

Você não necessariamente resolve.

Você ilumina.

Às vezes faz uma pergunta.

Às vezes apenas deixa a pessoa falar até que, no meio da própria fala, ela encontre alguma coisa que estava procurando.

Você é nossa psicanalista, literalmente.

E talvez tenha nascido com essa vocação estranha e bonita de ajudar os outros a ouvirem a própria voz.

Mas há uma coisa que admiro ainda mais em você.

Você aprendeu que amor não significa permanecer onde sua presença precisa ser tolerada.

Você sabe reconhecer quando não existe celebração.

E sabe sair.

Isso parece simples quando escrito.

Não é.

Existe uma quantidade enorme de coragem em não insistir na porta que não se abre.

Talvez porque você tenha aprendido que pertencimento não deveria parecer uma negociação.

A gente não deveria precisar diminuir a própria presença para caber no afeto de ninguém.

E talvez seja por isso que você consiga acolher tão bem.

Quem conhece a falta de espaço aprende a oferecer espaço.

Quem já precisou se defender aprende a proteger.

Quem já precisou ser forte aprende, com o tempo, que força também pode ser dizer: isso me machucou.

Você me ensinou isso.

Que desconforto comunicado ainda pode virar encontro.

Que aquilo que fica preso dentro da gente não desaparece; apenas muda de lugar.

Vai para o corpo, para a distância, para o silêncio, para a interpretação errada.

Falar é uma maneira de organizar a casa por dentro.

E você me lembra disso.

Essa é uma das coisas que eu mais gosto na nossa amizade: você não me ensina apenas pelo que diz.

Você me ensina pela maneira como vive.

E eu acredito que as melhores pessoas são assim.

Elas não chegam com placas explicativas.

A gente aprende olhando.

Observando como elas amam.

Como elas protegem.

Como elas partem.

Como elas ficam.

Como elas riem.

Como entram num carro e dizem “vamos?”

Como conseguem transformar um final de semana qualquer em uma memória que a gente vai carregar por muito tempo.

Hanna, se alguém me perguntasse quem você é, eu poderia tentar responder com todas essas coisas.

Mas ainda seria pouco.

Porque talvez algumas pessoas não possam ser definidas sem que alguma coisa essencial se perca no caminho.

Você é um pouco estrada.

Um pouco casa.

Um pouco flor.

Um pouco leoa.

E, estranhamente, tudo isso cabe na mesma mulher.

Talvez seja essa a beleza.

Você não precisou escolher entre ser doce e ser forte.

Entre acolher e partir.

Entre cuidar dos outros e preservar a si mesma.

Entre gostar do conforto e topar um rolê insalubre.

Você parece ter entendido que a vida não exige coerência o tempo inteiro.

Às vezes, ela só exige inteireza.

E você é inteira.

Foi por isso que aquele primeiro convite importou tanto.

Eu ainda penso na mulher que poderia ter dito não naquele dia.

Ela teria perdido um final de semana.

Eu teria perdido você.

E olha só que coisa curiosa: a gente passa tanto tempo procurando grandes acontecimentos para explicar as mudanças da nossa vida, quando, às vezes, a mudança começa com alguém dizendo:

“Vai comigo?”

E outra pessoa respondendo:

“Vou.”

Talvez amizade seja uma dessas pequenas revoluções que não fazem barulho.

A vida continua com suas contas, seus problemas, seus horários, suas dores e suas urgências.

Mas agora existe alguém para quem você pode mandar uma bobagem.

Alguém que topa a estrada.

Alguém que escuta.

Alguém que abre a porta.

Alguém que sabe que, de vez em quando, tudo o que a gente precisa é de um chalé, as amigas e algumas horas sem precisar ser nada além daquilo que já somos.

E eu queria te dizer uma coisa que talvez eu não diga com a frequência que deveria:

que sorte a minha ter aceitado aquele convite.

Porque existem encontros que parecem acontecer entre duas pessoas, mas, olhando de longe, parecem obra de uma inteligência maior.

Como se a vida soubesse antes da gente.

Como se tivesse visto você cruzando comigo pela cidade e pensado:

Ainda não.

E depois tivesse me visto dentro da minha bolha e pensado:

Agora talvez.

Então veio você.

E, de todas as coisas que a vida poderia ter me trazido naquele final de semana, ela me trouxe uma amiga.

Uma dessas que fazem a gente suspeitar que o acaso, às vezes, é apenas Deus brincando de não contar o final da história antes da hora.

Hanna, eu não sei quantas estradas ainda vamos pegar.

Não sei quantos lugares improváveis ainda vão nos encontrar.

Não sei quantas conversas vão começar em uma mesa e terminar dentro de nós.

Mas gosto de saber que, em algum lugar do mundo, existe uma mulher que provavelmente vai olhar para uma estrada qualquer, apertar o volante e pensar:

por que não?

E eu espero estar por perto quando isso acontecer.

Porque algumas pessoas entram na nossa vida.

Outras nos dão vontade de sair de casa.

Você faz as duas coisas.

E talvez seja esse o seu jeito mais bonito de ficar.

Thoughts

  • AlmaTavares

    Chegar a um sítio pela primeira vez e ter a sensação de ter voltado. O que descreves ali parece-me sobretudo uma dispensa, deixares de te apresentar a alguém. Vejo o contrário quase todos os dias, gente que entra num lugar novo e continua a compor-se para ninguém em particular.

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  • oquefaltadizer

    A Ingrid abre a porta e depois some do texto. Ela sabe que ficou sendo o começo dessa história toda?

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  • Ovid

    Entrar numa casa e já saber onde poria a xícara, isso explica bem o que acontece quando alguém chega e o lugar inteiro muda de temperatura. Passei a manhã pensando em duas ou três pessoas minhas que são assim e que eu nunca agradeci direito. Me avisa quando sair a próxima carta!

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  • rotaAntiga

    Venho acompanhando estas cartas desde a da Karen. Nas outras entras já com a pessoa dentro da tua vida, e nesta ficas na parte de antes, quando ainda se cruzavam sem saber.

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