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Dia 11/09/2026, às 15h17

Tatianeturcatti
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Amor,

confesso que hoje procrastinei bastante para vir escrever esta carta. Estou no trabalho e, como de habitual, já ouvi todos os tipos de música que você poderia imaginar. Neste minuto, estou ouvindo Não Me Compares, do Alejandro Sanz com a Ivete Sangalo, e é engraçado porque, quando gosto de uma música, não sei simplesmente ouvi-la: eu canto como se fosse a própria cantora. Com drama, interpretação, entrega. Eu sinto a música. Sou muito musical, e você vai perceber isso.

Espero que você tenha um gosto eclético e peculiar como o meu. Mas, caso não tenha, não tem problema. Eu vou aparecer um pouco nas músicas que você ouvir, te apresentar artistas, te fazer mergulhar em uma playlist completamente aleatória e, quando você perceber, já vai estar ouvindo uma música que nunca teria escolhido sozinho. Acho que amar alguém também deve ser um pouco isso: descobrir mundos que não eram nossos e, de repente, começar a gostar deles porque vieram acompanhados de alguém.

Hoje, no meu horário de almoço, visitei a Ingrid. Ela trabalha em home office às sextas-feiras, então já virou quase um hábito passar por lá. Inclusive, combinamos um churrasco para amanhã. Coisa de garota. Essas pequenas programações que parecem não significar nada, mas que, quando a gente olha para trás, percebe que eram justamente a vida acontecendo.

Pela manhã, ao sair de casa, reencontrei uma ex-amiga. Não trocamos sequer uma palavra. Foi um encontro completamente indiferente por fora, mas confesso que ainda estou digerindo por dentro. É estranho voltar a ter acesso, ainda que por alguns segundos, a lembranças que um dia fizeram tão bem e que hoje já não encontram lugar na nossa vida. Algumas pessoas deixam de fazer parte da nossa história sem que isso apague o que foram. E talvez essa seja uma das partes mais difíceis de amadurecer: entender que uma lembrança pode continuar bonita mesmo quando a presença deixou de ser possível.

À noite, tenho meu ritual de salão: hidratação no cabelo, escova, prancha. Você ainda vai descobrir que isso é quase uma instituição na minha vida. Existem coisas que faço porque preciso e existem aquelas que faço porque gosto de me reencontrar nelas. Acho que o salão pertence à segunda categoria.

Ontem à noite organizei algumas coisas em casa, falei um pouco com minha mãe por ligação e, depois, entrei em uma videochamada com a Alessandra. A vida nos colocou em caminhos tão diferentes ultimamente que, às vezes, é necessário fazer uma espécie de overview dos últimos acontecimentos para descobrir em que ponto cada uma está.

E como essa ligação me fez bem.

O curioso é que, em muitos momentos da vida da Alessandra, fui eu quem levou conselhos até ela. Ontem, porém, ela me devolveu pelo menos dois deles — e com uma precisão quase inconveniente.

O primeiro foi quando contei que, desde que recebi a notícia do falecimento da Karen, não tenho dormido bem. Ela me ouviu e, depois, disse: “Você precisa fazer uma oração antes de dormir, entregar seus sentimentos para Deus. Isso faz bem. Eu tenho feito isso e tenho me sentido muito melhor.”

Era justamente o que eu costumava dizer a ela.

Depois contei que conheci alguém que despertou em mim uma vontade de continuar conhecendo. Uma curiosidade diferente, daquelas que eu não sentia havia muito tempo. E, enquanto eu falava, pensei que essa pessoa pudesse até ser você — embora nenhum de nós saiba disso ainda.

Ela então me disse: “Você precisa se permitir. Não dá para ficar se privando de alguma coisa por medo de não ser feliz.”

Outra frase que, durante muito tempo, era minha.

Eu respondi: “Pronto. Criei um monstro.”

Mas a verdade é que ela foi pontual. Talvez porque, de vez em quando, a vida faça essas pequenas inversões de papel: quem ensinou também precisa aprender; quem aconselhou também precisa escutar o próprio conselho vindo da boca de outra pessoa.

E foi bom.

Foi bom perceber que eu não estou parada. Estou vivendo. Mesmo nos dias em que parece que nada extraordinário aconteceu, existe alguma coisa se movimentando em mim.

É isso, meu amor.

Hoje é sexta-feira, meu dia favorito da semana. Provavelmente a próxima carta será escrita na segunda, mas vou guardar cada pequeno acontecimento desses dias para te contar depois. Você ainda não chegou, mas eu gosto da ideia de que, de alguma maneira, estou deixando registrado o caminho que percorri até você.

Falta menos um dia na contagem regressiva que é te encontrar.

Thoughts

  • Zuleica

    Churrasco combinado de um dia pro outro, coisa de garota mesmo. Essa parte eu li sorrindo, é aí que a vida vai acontecendo sem avisar.

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  • rotaAntiga

    Depois do pente da carta anterior, agora o Alejandro Sanz com drama no trabalho. Fico com música nos ouvidos o tempo inteiro e nunca me atrevi a tanto 😄

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  • Ovid

    A Alessandra te devolvendo os conselhos que eram seus, e você respondendo que criou um monstro: gosto muito dessa parte. Me lembra que conselho só entra de verdade quando volta pela boca de outra pessoa, com a voz trocada. Adoro a ideia de ir guardando os dias comuns pra contar depois pra alguém que ainda nem chegou!

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  • uemerson

    Seu texto é bem envolvente.Demostrando como proprios acontecimentos da sua vida.

    Em forma de carta,para uma pessoa que voce espera,o seu amor.

    Me diz ai,isto é voce mesma esperando alguem ou um personagem que voce criou?

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