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Dia 14/09/2026, às 12h20.

Tatianeturcatti
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Meu amor,

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Meu amor,

A última carta que escrevi para você foi na sexta-feira. Depois fechei o computador e fui viver o meu fim de semana, porque, afinal, existe entre nós um acordo que você ainda nem sabe que existe: enquanto a vida não tratar de nos colocar um diante do outro, nós temos a obrigação de vivê-la inteiramente. Não quero chegar até você tendo passado meses olhando pela janela, esperando algum sinal de que era hora. Quero chegar com histórias. Muitas. Algumas boas, outras nem tanto, e provavelmente algumas que vou contar rindo e outras que vou preferir contar só depois do jantar.

Na sexta-feira, por exemplo, não aconteceu nada que merecesse virar notícia. Saí do trabalho e fui ao salão cuidar do cabelo. Na verdade, “cuidar” talvez seja uma palavra delicada demais para o que faço com ele. Era dia de retocar o botox da raiz, porque eu tenho uma relação muito particular com a praticidade e, como não vim de fábrica com o cabelo liso, não tenho nenhuma intenção de deixar que a minha raiz descubra que possui personalidade própria. Quando ela começa a crescer, eu simplesmente tomo providências. Há coisas na vida que podemos negociar; com a minha raiz, não.

Fiquei mais tempo no salão dessa vez e saí de lá com aquela sensação pequena e boa de quem resolveu uma pendência que nem era exatamente uma pendência, mas que agora deixou o mundo ligeiramente mais organizado. Você ainda vai descobrir que eu gosto dessas pequenas coisas. Cabelo arrumado, sobrancelha feita, cílios no lugar, uma roupa de que eu goste. Tenho uma rotina bastante sólida de cuidados pessoais. Não sei se é vaidade. Talvez seja. Mas gosto da sensação de me sentir bonita para o mundo. Não necessariamente para ser olhada. É mais como abrir as janelas de uma casa pela manhã: ninguém precisa estar vindo visitar para que a casa mereça ar fresco.

No sábado acordei às oito, mas só saí da cama às nove. E quero deixar registrado que são duas coisas completamente diferentes. Acordar é um fenômeno biológico. Levantar é uma decisão moral.

Eu tinha marcado manutenção dos cílios e das sobrancelhas e fui cumprir meu pequeno compromisso com a feminilidade. Às vezes penso que passei boa parte da vida aprendendo a fazer essas coisas que, no fundo, parecem bobas, mas que são uma espécie de conversa silenciosa que a gente mantém com o próprio corpo. “Eu ainda estou aqui”, talvez seja isso. E gosto de estar aqui. Gosto de me olhar e reconhecer a mulher que está olhando de volta.

À tarde encontrei uma amiga. Fizemos churrasco, conversamos fiado e rimos bastante. Gosto de conversar sem finalidade. Há uma espécie de luxo em não precisar chegar a lugar nenhum durante uma conversa. Algumas pessoas entram na nossa vida e parecem imediatamente entender que nem tudo precisa ser produtivo. A gente pode simplesmente sentar, comer, falar besteira, lembrar de coisas antigas, comentar a vida alheia com a seriedade de duas senhoras aposentadas e rir até perder o fio da conversa.

Voltei para casa e dormi.

Acordei por volta das nove da noite.

E aqui preciso fazer uma pequena pausa para lhe contar uma coisa que, quando você ler esta carta, talvez pareça engraçada. Não considere isso uma traição.

Primeiro porque você ainda não tinha chegado. Segundo porque, se formos trabalhar com a hipótese de que você era aquela pessoa, talvez eu esteja escrevendo para você sobre você sem saber. E isso seria uma dessas ironias que a vida gosta de guardar para nos contar depois.

Eu vinha conversando com uma pessoa pelas redes sociais e, depois de tanto tempo sem encontrar ninguém, resolvi vê-la. Não propriamente sair. O combinado era apenas que ele passaria na minha casa para me dar um abraço. Ele vinha de um jantar de família e passou por aqui perto das onze da noite.

Eu desci.

Entrei no carro.

E foi curioso porque, apesar de ser o nosso primeiro contato pessoal, havia uma familiaridade estranha, como se algumas pessoas chegassem à nossa vida sem precisar bater muito na porta. Conversamos. Foi agradável. As coisas esquentaram um pouco, é verdade, mas não passaram de alguns beijos.

Foi só isso.

E, ao mesmo tempo, não foi só isso.

Porque fazia bastante tempo que eu não beijava alguém. E foi bom lembrar que ainda estou viva desse jeito também. Que existe em mim uma mulher que não é apenas trabalho, responsabilidade, contas, compromissos, academia, livros, família, listas e todas essas coisas que ocupam a vida adulta. Existe uma parte de mim que ainda pode simplesmente entrar num carro às onze da noite, beijar alguém e voltar para casa sem precisar transformar aquilo em uma história de amor.

Talvez seja importante você saber disso sobre mim.

Eu não quero chegar até você como alguém que ficou intacta, congelada, esperando a pessoa certa. Quero chegar como alguém que viveu. Que experimentou. Que se confundiu algumas vezes. Que descobriu algumas coisas sobre si mesma justamente porque outras pessoas passaram por ela.

E vai que essa pessoa seja você.

Não temos spoiler.

A vida, felizmente, não trabalha com sinopse.

No domingo acordei e passei algumas horas em uma chamada de vídeo com Cleton. Depois Larissa entrou na conversa e, ninguém sabe exatamente em que momento uma conversa virou um almoço, mas de repente estávamos todos decidindo sair para comer.

Queríamos costela no bafo.

Existe um lugar aqui que é simples, sem grandes pretensões, mas que faz uma comida que parece ter sido preparada por alguém que entende profundamente a necessidade humana de ser feliz por algumas horas. Fomos almoçar, conversamos, rimos, depois estendemos o domingo para um sorvete com as crianças.

Foi um daqueles dias que não parecem importantes enquanto estão acontecendo.

Talvez sejam justamente esses os que mais mereçam ser guardados.

Voltei para casa no fim do dia, cozinhei alguma coisa, assisti a uma série e li um pouco de Mulheres que Correm com os Lobos. Esse livro me traduz em alguns lugares com uma precisão que chega a ser incômoda. Há livros que a gente lê e termina. Outros ficam um pouco dentro da gente, mexendo nas gavetas sem pedir licença. Esse tem sido assim.

E então chegou hoje.

Segunda-feira.

Acordei feliz.

Estava chovendo.

Faz tempo que não temos um sol de qualidade por aqui, desses que parecem querer compensar todos os dias nublados de uma vez. Mas não me incomodei com a chuva. Tenho pensado que talvez a chuva só seja ruim quando a gente também está chovendo por dentro. Quando estamos bem, ela é quase uma forma diferente de luz. Acordar com chuva ou com sol passa a ser apenas uma questão de cenário.

E hoje eu descobri uma música.

Nunca tinha escutado. Conheci por acaso, rolando o Instagram, quando encontrei um vídeo da cantora contando como ela nasceu. Eu gosto dessas coisas. Às vezes me interessa mais saber de onde uma música veio do que simplesmente ouvi-la. Há alguma coisa bonita em descobrir que uma canção que parece ter sido escrita especialmente para a nossa vida nasceu, na verdade, da vida completamente particular de outra pessoa.

Eu guardei a referência.

Hoje ouvi.

E gostei muito.

É uma dessas músicas que dão vontade de colocar como trilha sonora de uma fotografia que ainda não existe. Você sabe aquelas fotografias em que duas pessoas finalmente assumem que estão juntas? Pois é. Essa tem essa cara.

Talvez eu use na nossa.

Olha a minha ousadia.

Nem sei quem você é e já estou escolhendo trilha sonora.

Mas não se preocupe. Ainda não escolhi o lugar da fotografia, nem a roupa, nem quem vai tirar. Não estou tão desocupada assim.

A música diz:

“O mundo é tão grande que assusta olhar de cima
Mas nem por um instante você me perdeu de vista
Me ensinou a ter coragem, tem que ter coragem
Pra amar, coragem
Pra te devolver, coragem, quero te dizer.”

Achei lindo isso de precisar de coragem para amar. Talvez porque amar seja mesmo uma dessas coisas que parecem simples até a gente perceber que está colocando alguma coisa realmente importante nas mãos de outra pessoa.

E gostei especialmente de “pra te devolver, coragem”.

Porque receber amor também exige coragem.

Talvez um dia você me diga que essa música não tem nada a ver com a nossa história. Talvez você ache outra muito melhor. Talvez nós dois sejamos tão diferentes das pessoas que imagino agora que essa carta inteira pareça uma espécie de documento arqueológico de uma mulher que ainda não sabia quase nada sobre o homem que amaria.

Eu espero que sim.

Espero que, quando você ler, algumas das minhas certezas lhe deem vontade de rir.

Espero que você conheça a mulher que eu era sem precisar julgá-la pela mulher que ela ainda não sabia que seria.

Hoje, por exemplo, sou uma mulher que acordou feliz numa segunda-feira chuvosa, que passou o fim de semana entre salão, churrasco, amigas, um beijo inesperado, costela no bafo, sorvete, crianças, cozinha, série e um livro que parece saber demais sobre ela.

E você ainda não está aqui.

Tudo bem.

Nós combinamos de viver até que a vida nos encontre.

Então é isso que estou fazendo.

Vivendo.

E escrevendo para você de vez em quando, só para que, quando finalmente chegar, você possa conhecer não apenas a mulher que encontrou, mas também todas aquelas que precisei ser antes dela.

Até a próxima.

Thoughts

  • fora_da_lei_certinho

    Você escreve muito bem! Parece que estamos conversando pessoalmente. Muitos trechos me deram vontade de comentar, mas como foram muitos, não dou conta de lembrá-los todos voltando pra casa no metrô. Mas me tocou muito a sua reflexão sobre canções que nasceram da vida de outras pessoas para se encaixar na nossa.

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