E hoje alguém me mostrou
uma mensagem sua.
Eu li sem saber
que algumas palavras
podiam machucar tanto.
“Amiga,
a pessoa já deve ter te contado,
mas nós terminamos.”
A pessoa.
Eu parei ali.
Porque, de repente,
eu não era mais eu.
Não era o homem
que te esperava.
Não era quem perguntava
se você tinha chegado bem.
Não era quem conhecia
o som da sua voz,
o seu silêncio,
o seu jeito de sorrir.
Não era quem esteve ao seu lado.
Eu era…
a pessoa.
E talvez você nem tenha percebido
o peso dessas duas palavras.
Mas eu percebi.
Porque eu ainda lembro
de quando meu nome
tinha lugar na sua boca.
E agora ele coube
em duas palavras tão pequenas
que quase parecem
não carregar história nenhuma.
A pessoa.
Talvez tenha sido mais fácil
me chamar assim.
Afinal, nomes carregam lembranças.
E talvez lembrar
fosse mais difícil.
Depois você disse
que o que sentia por mim
não era amor.
Que talvez tivesse confundido
o carinho e a admiração
que sentia pelo homem
que eu era com minha filha,
pela maneira como eu cuidava,
como eu amava,
como eu protegia.
E talvez seja verdade.
Talvez você tenha amado
a forma como eu amava.
Enquanto eu amava
você.
E é aí que tudo dói.
Porque enquanto você descobria
que aquilo não era amor,
eu estava construindo
minha vida em cima dele.
E ainda tem uma coisa
que eu não consigo entender:
você ficou chateada
porque eu não quis continuar
sendo seu amigo.
Mas como?
Como eu poderia ser seu amigo
se ainda sou o homem
que queria ser seu amor?
Você queria continuar
com a minha presença.
Eu precisei escolher
a minha ausência.
Não porque eu não me importo.
Mas porque me importo demais.
Talvez um dia
eu consiga ser seu amigo.
Talvez um dia
eu consiga ouvir seu nome
sem procurar você dentro dele.
Talvez um dia
“a pessoa”
seja só uma palavra.
Mas hoje não.
Hoje ela ainda dói.
Porque você pode me chamar
de a pessoa.
Mas eu ainda lembro
de quando eu era
alguém para você.
E talvez seja isso
que mais machuca:
não ter deixado de amar você,
mas perceber
que, enquanto eu ainda tento
entender o fim da nossa história,
você já encontrou
uma maneira de contar
que ela acabou.
Eu gostaria muito
que um dia você levasse isso com você.
Que, quando o tempo passar
e tudo isso já não doer mais,
você conseguisse olhar para trás
e enxergar que aquela pessoa
um dia foi a sua pessoa.
Talvez, quando enxergar,
já seja tarde.
Então vou me despedir
pela vigésima vez.
Mas dessa vez,
pela última.
Adeus,
Valéria Fonseca.
P.S.: “A pessoa.”