Como explicar
que a gente não nasceu com medo?
Ensinaram.
Ensinaram toda vez que uma viatura passou
e o coração apertou.
Toda vez que um segurança seguiu nossos passos.
Toda vez que uma mão negra dentro de uma bolsa
pareceu mais suspeita
do que deveria.
Toda vez que precisamos pensar
em como parecer inocentes
sem sequer termos sido acusados.
O racismo não termina
quando ninguém diz a palavra.
Às vezes ele está justamente nisso:
no cuidado excessivo,
na vergonha que ninguém deveria sentir,
no medo de um olhar,
na necessidade de provar
que você não é aquilo
que alguém decidiu enxergar.
E talvez a pior parte
seja chegar em casa
e perceber que passou o dia inteiro
tentando convencer o mundo
de que você não era perigoso.
Quando, na verdade,
você só queria
ser deixado em paz.
Só queria andar.
Entrar.
Olhar.
Tocar.
Voltar para casa.
Sem precisar sobreviver
ao julgamento de quem nunca precisou
ter medo de parecer negro demais.
Porque há uma violência
que não deixa marca na pele.
Ela deixa a pessoa
com medo da própria pele.
Porque ainda há quem chore um negro morto
e quem apenas conte mais um.