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Carta para Caio: Eu prefiro uma verdade bonita a uma fantasia conveniente.

Tatianeturcatti
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É uma carta. Então, vai ser grande.

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É uma carta. Então, vai ser grande.

Eu poderia lançar um filme, mas isso exigiria uma produção que eu não tenho dinheiro para bancar. Poderia também simplesmente desaparecer. Afinal, parece existir por aí uma espécie de consenso moderno de que não dizer nada é, de alguma maneira, dizer tudo. A moda é sumir. Deixar o outro sozinho com as perguntas, preenchendo os espaços vazios com as próprias teorias. Não explicar, não conversar, não se comprometer com palavra alguma. Apenas desaparecer e deixar que o silêncio faça o trabalho sujo.

Mas eu nasci em outra época.

Talvez eu seja um pouco antiga para algumas coisas. E, sinceramente, eu gosto disso.

Eu cresci observando o casamento dos meus pais, que tem praticamente a mesma idade que eu. E o que eu vi ali nunca foi a fotografia perfeita de um amor. Vi dias bonitos e dias difíceis. Vi desacertos, cansaço, recomeços. Vi duas pessoas que, em muitos momentos, precisaram se escolher novamente — não uma vez, mas incontáveis vezes.

Isso me ensinou uma coisa que talvez pareça muito simples hoje: nem todo amor é feito de flores. Alguns são feitos de raízes.

E talvez seja por isso que eu não saiba desaparecer depois de tantos dias de troca, de conversa, de intimidade, de curiosidade, de pequenas coisas que foram sendo deixadas pelo caminho.

Eu não conseguiria simplesmente sair pela porta dos fundos e fingir que nada aconteceu.

Prefiro deixar as cartas sobre a mesa.

E tudo bem se, depois de ler isso, você pensar: “Nossa, que nada a ver.”

Eu não ligo.

Não ligo mesmo.

Porque descobri que sou profunda demais para construir conexões baseadas apenas em tesão.

E não estou dizendo isso como quem condena o desejo. Pelo contrário. Eu gosto do desejo. Gosto da tensão, da provocação, do frio na barriga, daquilo que acontece quando duas pessoas percebem que existe alguma coisa elétrica circulando entre elas.

Mas, para mim, desejo é uma porta.

Não é a casa inteira.

Talvez por isso eu tenha criado, dentro de mim, uma espécie de mapa sobre as coisas que considero importantes quando duas pessoas começam a se aproximar.

E, no topo desse mapa, existe uma palavra que para mim vale ouro:

encanto.

Encanto, para mim, é o interesse genuíno em conhecer alguém.

Não apenas saber o que essa pessoa faz, onde mora ou se ela é bonita.

É querer descobrir quem existe por trás disso.

Quais são os sonhos que ela conta facilmente e quais são aqueles que ela ainda tem vergonha de dizer em voz alta. O que ela faria se tivesse certeza de que não poderia fracassar. Qual é o lugar do mundo que desperta alguma coisa dentro dela. Quais são seus hobbies, suas manias, seus pequenos rituais. Do que ela tem medo. O que a faz rir até perder o ar. Quais são as suas esquisitices. Qual foi o dia mais feliz da sua vida. E qual foi aquele que ela preferiria apagar do calendário.

É descobrir o que faz os olhos de alguém mudarem de expressão quando fala.

É prestar atenção.

É querer conhecer o território antes de decidir se quer morar nele.

E eu acho que isso está ficando raro.

Vivemos na era do fast food emocional.

Mensagens de texto no lugar de ligações. Conversas que começam e terminam com uma notificação. Pessoas avaliadas como produtos em uma prateleira: serviu, fica; não correspondeu à expectativa, troca-se. Relações que precisam entregar resultado rápido. Desejo sem curiosidade. Intimidade sem conhecimento. Corpos que chegam antes das histórias.

E eu sou meio careta.

Gosto de ser.

Tenho um certo orgulho da minha caretice.

Eu me amo o suficiente para passar vontade.

Isso significa que eu posso desejar alguém e, ainda assim, escolher não colocar meu corpo nas mãos — ou na cama — de qualquer pessoa.

Porque sexo, para mim, é coisa séria.

É bonito.

É mágico quando existe entrega de verdade.

Não estou falando de perfeição, nem de promessas eternas, nem de transformar toda atração em casamento. Estou falando de existir alguma coisa além da vontade do corpo. De haver confiança. Curiosidade. Presença. De, por alguns instantes, duas pessoas não estarem apenas se tocando, mas permitindo que alguma parte delas seja vista.

Eu sou romântica.

E gosto de viver romances.

Mas não sou ingênua.

Eu não acredito que um relacionamento apareça do absoluto nada, como se alguém acordasse numa terça-feira e decidisse: “Pronto. Agora somos um casal.”

As coisas não acontecem assim.

E também não sou tão careta a ponto de achar que uma pessoa precisa me pedir em namoro antes de me conhecer.

Não é disso que estou falando.

Primeiro porque eu não estou numa prateleira esperando ser escolhida.

Estou vivendo a minha vida.

Inteira.

E acreditando que, no tempo certo, as coisas encontram a gente.

Segundo porque conhecer alguém não é um contrato de intenção.

Duas pessoas podem começar a se conhecer, conversar, descobrir seus mundos, olhar uma para a outra com atenção e, no meio do caminho, perceberem que não têm nada a ver.

E tudo bem.

Talvez aquilo vire amizade.

Talvez vire uma lembrança bonita.

Talvez simplesmente termine.

Mas ninguém precisou defraudar emocionalmente ninguém para satisfazer um desejo pessoal.

Ninguém precisou fingir profundidade para conseguir acesso ao corpo do outro.

E acho isso muito mais honesto.

Uma vez eu te falei que estava construindo minha percepção sobre você.

Você perguntou o que faltava.

E eu não sei se tenho uma resposta pronta.

Você é um homem inteligente.

É um homem bonito.

Tem uma bagagem e uma experiência de vida que, com certeza, são muito maiores do que as minhas em alguns aspectos.

E eu gosto das nossas conversas.

Gosto da maneira como a nossa troca acontece.

Você sempre foi respeitoso comigo. E isso também precisa ser dito. Todas as vezes em que a conversa caminhou para um lugar mais quente, ela só caminhou porque eu também quis.

Eu não estou reescrevendo a nossa história para transformá-la em alguma coisa que ela não foi.

Mas tenho pensado muito.

Sobre você.

Sobre mim.

Sobre o que eu quero.

E, principalmente, sobre quem eu sou quando ninguém está tentando me convencer de nada.

Talvez exista uma diferença entre nós que eu ainda não consiga nomear.

Talvez nossos interesses sejam diferentes — até porque somos pessoas diferentes, com histórias diferentes, desejos diferentes e, para complicar tudo, biologicamente homens e mulheres também podem experimentar certas coisas de maneiras distintas.

Você me acha uma mulher bonita, inteligente, bem-humorada, gostosa.

E talvez você tenha imaginado um sexo comigo.

Talvez seja isso que esteja movimentando parte das suas ações.

E, honestamente?

Eu consigo compreender.

É muito difícil viver em um mundo e não carregar um pouco da lógica dele dentro da gente.

A gente aprende o comportamento da manada mesmo quando acredita estar caminhando sozinho.

Mas existe uma coisa que eu aprendi sobre mim:

eu não quero ser conduzida pelaquilo que todo mundo parece considerar normal.

Nem pelo desejo dos outros.

Nem pelo medo de perder alguém.

Nem pela ansiedade de saber onde uma história vai dar.

Nem pela minha própria vontade quando ela tenta atropelar aquilo que eu sei que é importante para mim.

Minha escolha, hoje, é me colocar em primeiro lugar.

Não no sentido egoísta da palavra.

No sentido de não me abandonar para ser escolhida.

De não fazer alguma coisa apenas porque tenho medo de que, se eu disser não, você vá embora.

De não transformar desejo em obrigação.

De não trocar aquilo que eu acredito por alguns minutos de euforia.

Eu quero continuar podendo olhar para mim depois de cada escolha e reconhecer a mulher que tomou aquela decisão.

E talvez seja justamente isso que eu esteja tentando te dizer com essa carta.

Não estou pedindo que você seja alguém que não é.

Não estou tentando colocar uma definição sobre nós.

Não estou dizendo que você me deve alguma coisa.

Muito menos que você precisa sentir o que eu sinto.

Estou apenas te mostrando o meu mapa.

Porque você me perguntou, um dia, o que faltava.

E talvez eu tenha demorado para entender que a resposta não estava exatamente em alguma coisa que faltava em você.

Estava naquilo que, para mim, precisa existir para que alguma coisa comece a fazer sentido.

O encanto.

A curiosidade.

A vontade de conhecer.

A delicadeza de não querer consumir rapidamente aquilo que poderia ser descoberto aos poucos.

Eu não tenho pressa de chegar ao último capítulo de uma história que ainda nem sei se quero terminar de ler.

Gosto de capítulos.

Gosto das entrelinhas.

Gosto da parte em que a gente ainda não sabe tudo.

Porque existe uma coisa muito bonita em descobrir alguém.

E talvez seja essa a parte que eu gostaria de preservar.

Se em algum momento você quiser me conhecer de verdade, eu vou gostar.

Não como quem espera ser escolhida.

Mas como quem abre uma porta e diz:

“Entra. Tem muita coisa aqui dentro que você ainda não conhece.”

E, se depois de conhecer, você descobrir que não era isso que procurava, tudo bem.

Eu prefiro uma verdade bonita a uma fantasia conveniente.

Só não quero mais participar de histórias em que meu corpo chega antes de mim.

Porque, para mim, antes do corpo existe uma mulher inteira.

E ela quer ser conhecida.

Thoughts

  • Ovid

    Encanto como interesse genuíno em conhecer alguém, no topo do mapa, é a ideia que eu levo daqui. Muita gente aqui escreve carta para quem já foi embora e esta é para alguém que ainda pode responder. Aposto que o Caio fica mais tempo na pergunta do que faltava do que no resto. Obrigado por partilhar, @Tatianeturcatti!

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  • rotaAntiga

    Nas cartas anteriores a pessoa já tinha um lugar certo na tua história quando escrevias. Esta é a primeira em que o destinatário ainda está à mesa, e nota-se, porque a meio deixas de contar e passas a explicar-lhe o mapa. Esta, calculo eu, ele lê antes de todas as outras.

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