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Carta para Leandro Gonçalves: O amor que sobrevive depois do fim.

Tatianeturcatti
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Dizem que amor de carnaval não vinga.

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Dizem que amor de carnaval não vinga.

O nosso, contrariando a sabedoria popular, vingou.

E talvez tenha vingado justamente porque não pediu licença.

Leandro entrou na minha vida em 2016, no carnaval, quando eu tinha decidido não me envolver com ninguém. Eu morava em Macaé e aceitei o convite de uma amiga para passar alguns dias em Visconde de Imbé. Ele, que também era macaense, estava por ali passando uma temporada na casa da avó e não tinha planos de voltar a morar em Macaé tão cedo.

A vida, que nunca foi muito obediente aos nossos planos, resolveu nos colocar no mesmo lugar.

E colocou.

Ele atropelou a minha decisão de não me envolver, atropelou a distância, atropelou a ideia de que aquilo seria apenas uma história de carnaval.

E, de repente, aquilo que deveria durar alguns dias começou a durar anos.

Começamos a namorar.

Depois nos casamos.

E, sem perceber exatamente em que momento isso aconteceu, deixamos de ser duas pessoas que tinham se encontrado por acaso e nos tornamos uma vida compartilhada.

Foram dez anos.

Dez anos são tempo suficiente para uma pessoa deixar de ocupar apenas um lugar na nossa história e passar a ocupar pequenos espaços dentro de quem somos.

Ele esteve nos meus dias comuns.

E talvez seja isso que mais pese quando uma relação termina: não são apenas as grandes lembranças que desaparecem. São as pequenas.

É o hábito de contar uma coisa assim que ela acontece.

É saber como o outro toma café.

É uma piada que só vocês dois entendem.

É o animal que vocês escolheram juntos.

É a viagem que vocês fizeram.

É o almoço de domingo, ora com a minha família, ora com a dele.

É o amigo que passou a ser dos dois.

É a rotina que, de tão repetida, deixou de parecer rotina e passou a parecer simplesmente vida.

Nós adotamos uma cachorra.

Depois um gato.

Viajamos.

Conhecemos lugares.

Construímos amizades.

Misturamos famílias.

Dividimos contas, planos, preguiças, preocupações, alegrias.

Tivemos nossos picos de paixão e nossos períodos de silêncio.

Rimos.

Choramos.

Nos irritamos.

Nos perdoamos.

Nos amamos da maneira bonita e imperfeita como duas pessoas conseguem amar quando deixam de viver apenas o romance e começam a viver a vida.

Porque uma relação longa não é feita apenas de grandes declarações.

Ela é feita, sobretudo, daquilo que ninguém fotografa.

E talvez seja por isso que seja tão difícil explicar o fim de algumas histórias.

Porque nem sempre existe um culpado.

Nem sempre existe uma traição.

Nem sempre existe uma grande tragédia que justifique a partida.

Às vezes, existe apenas o tempo.

E o tempo vai revelando coisas que o amor, sozinho, não consegue resolver.

Chegou um momento em que percebemos que já não caminhávamos na mesma direção.

Não queríamos exatamente as mesmas coisas.

Não sonhávamos os mesmos sonhos.

Nossas ambições começaram a apontar para lugares diferentes.

E aquele amor que um dia tinha chegado como incêndio, aos poucos, tinha se transformado.

Não desaparecido.

Transformado.

Talvez essa seja uma das coisas mais difíceis de aceitar sobre o amor: ele não precisa acabar para que uma relação termine.

Às vezes, o amor apenas muda de lugar.

O nosso deixou de ser aquele amor que precisava possuir o futuro do outro para se sentir seguro.

Tornou-se um amor mais silencioso.

Mais adulto.

Mais generoso.

Um amor que conseguia olhar para o outro e pensar: "Eu quero que você seja feliz, mesmo que a sua felicidade não aconteça mais ao meu lado."

E há uma crueldade delicada nisso.

Porque entender que é preciso partir não faz partir doer menos.

Eu escolhi seguir sozinha.

E doeu.

Doía não apenas perder um marido, mas perder a forma como eu conhecia a minha própria vida.

Durante muito tempo, eu tinha aprendido a dizer "nós" antes de dizer "eu".

E, de repente, era preciso reaprender o singular.

É estranho.

Porque hoje já não dói como doeu.

Mas ainda existe uma certa estranheza em pensar que alguém que durante tantos anos fez parte da minha vida agora vive uma outra vida.

Ele tem outros dias.

Outros planos.

Outros sonhos.

Outro amor.

E eu também.

É uma sensação curiosa perceber que alguém que conheceu tantos capítulos nossos agora está escrevendo capítulos nos quais eu não apareço.

E talvez o mais bonito seja justamente compreender que isso não diminui o que fomos.

A vida dele seguir não apaga a vida que tivemos.

O amor que ele vive hoje não torna menor o amor que vivemos.

Assim como o meu futuro não precisa negar o nosso passado para ser verdadeiro.

Há histórias que não terminam em "felizes para sempre".

Algumas terminam em "felizes, apesar de não ser mais juntos".

E acho que essa é uma das formas mais maduras de amor que conheço.

Hoje, Leandro não é mais meu marido.

Mas continua sendo alguém que eu amo.

E talvez eu o ame até o fim da minha vida, embora esse amor já não peça nada dele.

Não pede presença.

Não pede exclusividade.

Não pede retorno.

É um amor que simplesmente existe.

Um amor que torce.

Que vibra.

Que deseja o bem.

Que, quando pode, oferece a mão.

Que consegue olhar para a conquista do outro e sentir alegria sem precisar estar dentro dela.

Existe uma relação que nasceu depois do fim.

E talvez isso seja uma das coisas mais bonitas que o nosso casamento deixou.

Porque algumas pessoas nos ensinam que amar é permanecer.

Ele me ensinou também que amar pode ser deixar ir.

E que, às vezes, o maior gesto de amor não é segurar alguém quando tudo está escapando das mãos.

É abrir as mãos.

Eu carrego comigo muita coisa que veio dele.

Algumas são lembranças.

Outras são aprendizados.

Algumas são hábitos que provavelmente nem percebo mais que nasceram naquela convivência.

E há partes de mim que só existem porque, durante dez anos, existiu um "nós".

Tenho certeza de que também deixei alguma coisa nele.

Talvez uma mania.

Uma frase.

Uma lembrança.

Um jeito diferente de olhar para alguma coisa.

Alguma música que, por alguns segundos, ainda o leve para algum lugar que já não existe.

Porque é isso que fazemos uns nos outros.

Entramos.

Moramos.

Transformamos.

E depois, mesmo quando partimos, alguma coisa nossa continua vivendo no outro.

Talvez seja essa a verdadeira medida de uma história de amor:

não quanto tempo conseguimos permanecer juntos,

mas quanto de nós permanece bonito depois que deixamos de ser um casal.

Nós terminamos.

Mas a nossa história não virou um erro.

Não virou tempo perdido.

Não virou uma coisa que eu precise apagar para conseguir seguir em frente.

Foram dez anos da minha vida.

E eu não quero apagar dez anos da mulher que sou.

Eu quero honrá-los.

Com tudo o que foi bonito.

Com tudo o que foi difícil.

Com tudo o que não soubemos fazer.

Com tudo o que aprendemos tarde.

Com tudo o que um dia fomos.

Leandro foi meu marido.

Foi meu companheiro.

Foi minha casa durante um pedaço enorme da vida.

Hoje, ele é outra coisa.

Talvez uma das mais raras:

alguém que um dia esteve no centro da minha vida e que, mesmo depois de sair de lá, não deixou de ser importante.

E talvez crescer seja justamente aprender isso:

que nem todo amor precisa continuar sendo vivido para continuar sendo verdadeiro.

Alguns amores simplesmente mudam de forma.

E alguns, quando mudam, deixam de ser uma casa compartilhada para se tornarem uma parte da paisagem.

A gente segue.

Constrói outras casas.

Ama outras pessoas.

Sonha outros sonhos.

Mas, de vez em quando, olha para trás e reconhece a estrada.

E pensa:

eu fui feliz ali.

Eu amei ali.

Eu vivi ali.

E isso ninguém tira de mim.

Leandro

E, se algum dia você ler isso, quero que saiba que existe uma parte dessa história que sempre será somente nossa.

Obrigada pela estrada que dividimos.

Obrigada pelos dez anos, pelos dias fáceis e pelos difíceis, pelas viagens, pelos domingos, pelos animais que adotamos, pelas famílias que misturamos, pelos amigos que passaram a ser nossos, pelas risadas que talvez só nós dois saibamos explicar e também pelas lágrimas que atravessamos juntos.

Obrigada por ter sido casa em uma época em que eu ainda estava aprendendo o que significava construir uma.

Eu não sei exatamente onde a vida vai nos levar daqui para frente. Na verdade, acho bonito não saber. Hoje temos caminhos diferentes, outros sonhos, outras pessoas, outras versões de nós mesmos para descobrir.

Mas existe uma coisa que eu espero que nunca mude:

eu quero que você seja feliz.

De verdade.

Não aquela felicidade que se deseja por educação quando uma história termina, mas aquela que faz o coração descansar. Quero que você encontre tudo aquilo que procura, que seus sonhos encontrem espaço para existir, que a vida seja generosa com você e que você encontre alguém que consiga enxergar a pessoa que você se tornou e amá-la com inteireza.

E espero que, quando olhar para trás, você também consiga lembrar de nós sem ressentimento.

Que se lembre que fomos felizes.

Que fomos jovens.

Que fomos aprendizes.

Que erramos.

Que acertamos.

Que, dentro das nossas possibilidades e limitações, tentamos.

E que, por dez anos, duas pessoas escolheram caminhar lado a lado.

Talvez não tenhamos chegado ao mesmo destino.

Mas isso não torna menor a estrada que percorremos.

Eu sigo a minha vida carregando comigo muito do que aprendi ao seu lado. E espero que você também leve alguma coisa minha — qualquer coisa. Uma lembrança, uma mania, uma frase, uma forma diferente de olhar para o mundo. Algum pequeno pedaço que faça você pensar, de vez em quando, que um dia existiu uma mulher que dividiu uma década inteira da vida com você e que, apesar de tudo ter mudado, continua genuinamente desejando o seu bem.

Eu não quero que a nossa história seja lembrada pelo dia em que terminou.

Quero que ela seja lembrada por tudo o que existiu antes dele.

E, sobretudo, quero agradecer.

Por ter vindo naquele carnaval.

Por ter atropelado os meus planos.

Por ter ficado.

Por ter caminhado comigo.

E por, mesmo depois de tudo, ter me ensinado que alguns amores não precisam permanecer juntos para continuarem sendo bonitos.

Obrigada pela estrada, Leandro.

Foi uma parte enorme da minha vida.

E eu tive sorte de vivê-la com você.

Agora siga.

Seja feliz.

Eu também vou.

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