Ontem, enquanto passava pelo Instagram, encontrei o relato de uma mulher que recebeu uma ligação da mãe pedindo que ela fosse buscá-la no hospital.
A primeira coisa que perguntou foi:
— Cadê o papai?
E a mãe respondeu:
— Está em casa. Ele não gosta de hospital.
Quando chegou, de longe ela viu a mãe sentada em uma maca. E, antes de qualquer coisa, a mãe ainda se desculpava com a enfermeira por ter dado “trabalho”.
Na hora de assinar os documentos para liberá-la, a filha percebeu que seu nome estava registrado como contato de emergência.
E perguntou:
— Por que eu sou seu contato de emergência?
A mãe respondeu simplesmente:
— Porque você atende. Porque você responde.
E talvez tenha sido essa resposta tão pequena que tenha aberto uma porta enorme dentro daquela filha.
Ela percebeu que a mulher que sempre esteve disponível para resolver os problemas de todo mundo também precisava de alguém.
Que aquela mãe que parecia tão inteira, tão pronta, tão capaz de cuidar, também era uma pessoa.
Também tinha medo.
Também tinha problemas.
Também precisava de apoio.
E talvez a maternidade esconda justamente isso.
A gente cresce enxergando a mãe através da palavra “mãe” e, de tanto vê-la ocupando esse lugar, esquece que existe uma mulher ali dentro.
Uma mulher que existia antes de nós.
Que teve sonhos que talvez tenham mudado.
Que teve medos que talvez nunca tenha contado.
Que precisou aprender a ser adulta enquanto ainda descobria o que significava ser adulta.
Uma mulher que também se cansa.
Que também precisa ser lembrada de que não está sozinha.
Aquele relato me sensibilizou profundamente porque, enquanto eu lia, pensei na minha mãe.
Na mãe que eu tenho em casa.
Minha mãe é uma leoa.
Mas não dessas que precisam mostrar os dentes para provar que são fortes.
A força dela sempre esteve em outra coisa.
Na presença.
No fazer.
Na disposição quase inesgotável de nos dar o melhor que podia.
Ela nunca, absolutamente nunca, mediu esforços por nós.
Minha mãe veio de uma criação rígida. Estudou pouco — o suficiente para aprender a ler e escrever —, casou cedo e precisou aprender sozinha a se tornar adulta.
E, ainda assim, há algo curioso nela: minha mãe ama ler.
Talvez seja daí que tenha vindo uma das minhas paixões mais bonitas.
Talvez algumas coisas não sejam ensinadas.
Talvez sejam herdadas de maneiras que a ciência ainda não conseguiu explicar.
Minha mãe não teve muitos anos de escola, mas nunca deixou de estudar o mundo.
Ela é antenada.
Sabe das principais coisas que estão acontecendo, chega sempre com uma novidade, uma notícia, uma descoberta qualquer.
E agora, depois que aprendeu a comprar pela internet, descobriu também uma nova forma de movimentar a economia da casa.
Meu Deus.
É um pacotinho atrás do outro.
Toda hora chega alguma coisa.
E eu já nem sei se ela precisava daquilo ou se simplesmente descobriu que comprar pela internet era divertido demais para ser interrompido.
Minha mãe também é generosa.
Daquelas pessoas que não conseguem pensar em alguém sem pensar em alguma coisa que poderia dar para essa pessoa.
E ela está sempre lá.
Para tudo.
Inclusive para as coisas mais corriqueiras da vida.
Eu faço planos contando com ela.
Prometo coisas confiando nela.
Como se houvesse uma espécie de extensão invisível entre nós dizendo: se eu não souber fazer, minha mãe sabe.
Recentemente, por exemplo, assinei uma lista para uma festa da roça.
“Pudim.”
Eu nem sei fazer pudim.
Mas minha mãe sabe.
Minha mãe sempre sabe.
E lá estava ela, pronta para salvar mais uma vez a filha que, aparentemente, continua se metendo em compromissos culinários para os quais não possui qualquer qualificação técnica.
É engraçado pensar que talvez o amor também more nessas coisas.
Num pudim.
Num pacotinho chegando pelo correio.
Numa ligação depois das cinco da tarde.
No cardápio do jantar.
Na pergunta “está tudo bem?”.
Na preocupação que parece pequena porque se repete todos os dias, mas que, justamente por se repetir, vai construindo uma espécie de abrigo.
Nós moramos a quinze minutos uma da outra.
Quinze minutos.
Mas a vida adulta tem uma maneira curiosa de transformar quinze minutos em distância.
A rotina aperta.
O trabalho ocupa o dia.
As coisas se acumulam.
E, às vezes, mesmo morando tão perto, não conseguimos nos ver.
Então minha mãe me liga.
Quase religiosamente depois das cinco.
Ela sabe que é mais ou menos nesse horário que chego em casa.
Pergunta se está tudo bem.
Conta como foi o dia.
Diz como ela está.
E, em algum momento, me conta o que teremos para jantar.
E quando ela não liga, eu ligo.
Minha frase já virou quase um ritual:
“Oi, mãe. Liguei só para saber se está tudo bem.”
E a conversa acontece.
Às vezes por cinco minutos.
Às vezes por muito mais.
Às vezes existe alguma coisa importante para contar.
Às vezes não existe absolutamente nada.
E talvez seja justamente esse nada que seja tão bonito.
Porque algumas pessoas não ligam porque têm algo para dizer.
Ligam porque querem saber que você está ali.
E eu tenho começado a entender que talvez minha mãe tenha feito isso a vida inteira.
Talvez todas aquelas perguntas fossem, na verdade, pequenas maneiras de dizer:
“Eu estou aqui.”
E talvez hoje eu esteja aprendendo a responder:
“Eu também.”
Porque existe uma coisa que o amor de mãe me ensinou sem nunca precisar dizer.
Amor, quando é realmente amor, não pergunta se vale a pena.
Não faz cálculo.
Não exige garantias.
Não precisa saber se vai receber de volta.
Minha mãe simplesmente ama.
E talvez por isso eu ache que não exista no mundo amor muito semelhante a esse.
Há alguma coisa de sublime no amor de uma mãe.
Uma espécie de despropósito bonito.
Uma disposição quase absurda para fazer tudo.
Para torcer.
Para vibrar.
Para defender.
Para aconselhar.
Para orar.
Minha mãe sempre diz:
“Tudo que vocês quiserem fazer, desde que não prejudique vocês ou os outros, eu assino embaixo.”
E ela assina mesmo.
Assina os sonhos.
Assina os recomeços.
Assina as escolhas.
Assina as tentativas.
Mesmo quando talvez tenha medo.
Ela vibra.
Ela torce.
Ela ora.
E eu penso que talvez a oração de uma mãe seja uma das formas mais antigas de amor.
Porque minha mãe tem uma oração que, para mim, parece quase um pacto com Deus:
“Quando eu não estiver presente, você cuida deles para mim.”
Eu demorei para compreender a profundidade disso.
Porque durante muito tempo ouvi essa frase pensando apenas na ausência que um dia virá.
Hoje eu penso diferente.
Penso que talvez, enquanto ela pede a Deus que cuide de nós quando ela não puder, esteja também me ensinando o que significa amar alguém a ponto de querer protegê-lo mesmo quando você não estiver por perto.
E talvez tenha sido isso que aquele relato do hospital me fez perceber.
Minha mãe também é alguém.
Não apenas minha mãe.
Alguém.
Uma mulher que um dia foi menina.
Que cresceu.
Que teve seus próprios medos.
Que aprendeu a viver.
Que continua descobrindo coisas.
Que compra pacotinhos pela internet.
Que lê.
Que sabe fazer pudim.
Que conta o cardápio do jantar.
Que tem dias bons e dias difíceis.
Que precisa de cuidado.
Que pode precisar de alguém para atender.
E talvez eu esteja entrando naquela fase bonita da vida em que a gente começa a devolver o olhar.
Quando éramos pequenos, elas olhavam para nós para saber se estávamos bem.
Agora somos nós que começamos a olhar para elas.
Não porque deixaram de ser nossas mães.
Mas porque finalmente conseguimos enxergar, por trás da palavra mãe, a mulher inteira que sempre esteve ali.
E talvez seja essa a minha nova maneira de dizer eu te amo.
Ligar sem precisar de motivo.
Perguntar sem que exista um problema.
Querer saber como foi o dia.
Perguntar o que tem para o jantar.
Ouvir uma história que eu já ouvi.
Receber mais um pacotinho que ela comprou.
E, de vez em quando, perguntar apenas:
“Oi, mãe. Liguei só para saber se está tudo bem.”
Porque ela passou a vida inteira sendo meu contato de emergência.
E eu quero que ela saiba que pode ser o meu também.
Que ela pode ligar.
Que eu atendo.
Que eu respondo.
Que eu estou aqui.
E se um dia Deus ouvir a oração dela e eu precisar ficar longe, talvez eu também faça a minha.
Não para pedir que Ele cuide dela por mim.
Mas para agradecer porque, enquanto eu pude, tive o privilégio de cuidar dela um pouquinho também.
Porque algumas mães passam a vida dizendo:
“Quando eu não estiver presente, Deus cuida deles para mim.”
E talvez amar uma mãe seja responder, ainda em vida:
“Enquanto você estiver aqui, mãe, deixa que eu cuido de você também.”