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Carta para Jaffer Santos: Antes de tudo, meu primeiro amigo.

Tatianeturcatti
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Antes de a vida nos ensinar a dar nome às coisas, nós já tínhamos inventado um mundo.

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Antes de a vida nos ensinar a dar nome às coisas, nós já tínhamos inventado um mundo.

Ele cabia num quintal.

Tinha o tamanho de duas crianças, algumas ideias perigosas, joelhos machucados, brigas que duravam pouco e gargalhadas que pareciam não ter fim. Era um mundo pequeno, mas, para nós, era quase infinito. Ali, qualquer pedaço de chão podia virar aventura, qualquer tarde podia durar uma eternidade e qualquer problema parecia menor quando havia alguém correndo ao nosso lado.

Talvez a infância seja isso: um tempo em que a gente ainda não sabe que está vivendo aquilo que, um dia, vai chamar de memória.

E eu tive a sorte de viver a minha ao lado de você.

Jaffer.

Dois anos depois de mim, você chegou ao mundo e, sem que nenhum de nós soubesse, a vida estava colocando ao meu lado a primeira pessoa com quem eu aprenderia a dividir quase tudo.

Primeiro, o espaço.

Depois, os brinquedos.

As broncas.

Os segredos.

Os medos.

As descobertas.

As pequenas vitórias.

E, muito antes de entendermos o que significava amizade, nós já éramos amigos.

Eu era a mais velha — e, durante muito tempo, isso significou também ser a mais alta.

Hoje prefiro não entrar em detalhes sobre essa parte, porque a vida tem dessas ironias: o irmão que eu protegia porque era menor acabou crescendo e me deixando olhando para cima.

Mas, na infância, tamanho nunca foi exatamente uma questão para você.

Você podia ser pequeno.

Mas era meu guardião.

E eu nunca entendi muito bem de onde vinha tanta coragem.

Era o tipo de menino que parecia não ter recebido da vida o aviso de que algumas pessoas eram maiores do que ele. Se alguém mexesse comigo, você estava pronto.

Não importava o tamanho do adversário.

Talvez porque algumas pessoas não protejam pelo tamanho que têm.

Protejam pelo tamanho do amor.

Nossa mãe não gostava que ficássemos na rua.

Então nós inventávamos o mundo dentro de casa.

E, quando digo “dentro de casa”, não pense em tranquilidade.

A infância raramente tem compromisso com a segurança.

O quintal virava campo de batalha, parque de diversões, esconderijo, pista de corrida, lugar de quedas, machucados, gargalhadas e algumas ideias que, vistas hoje, fariam qualquer adulto perguntar onde estavam os responsáveis.

Mas nós estávamos ali.

Um com o outro.

E talvez seja isso que eu mais gosto de lembrar.

Não necessariamente das brincadeiras.

Mas da presença.

Onde eu estava, você estava.

Onde você estava, eu estava.

Nós éramos duas crianças tentando descobrir o mundo com os recursos que tínhamos.

E os recursos não eram muitos.

Nossa infância não foi cercada de excessos.

Nossa família conheceu de perto as limitações que o dinheiro impõe. Houve coisas que não tivemos. Houve vontades que precisaram esperar. Houve sonhos que pareciam grandes demais para a realidade que nos cercava.

Mas existe uma diferença enorme entre crescer sem ter tudo e crescer sem ter o essencial.

E o essencial nós tivemos.

Tivemos valores.

Tivemos princípios.

Tivemos amor.

Tivemos uma família que, mesmo sem poder nos dar todas as coisas, nos ensinou a não precisar de todas elas para sermos inteiros.

Por isso, às vezes, eu digo que nós fomos forjados no fogo.

Não porque a nossa história tenha sido extraordinária por ter sido difícil.

Mas porque a dificuldade nos ensinou cedo uma coisa que talvez algumas pessoas levem uma vida inteira para descobrir:

ninguém atravessa certas batalhas sozinho.

Nós aprendemos a dividir o pouco.

A dividir os medos.

A dividir as alegrias.

A dividir as responsabilidades.

E, sem perceber, aprendemos também a lutar a batalha um do outro.

Talvez seja por isso que hoje eu não consiga olhar para as conquistas do Jaffer sem enxergar também tudo aquilo que veio antes delas.

Porque quem olha apenas para a chegada pode achar que algumas pessoas tiveram sorte.

Eu conheço o caminho.

Conheço os sufocos.

Conheço as noites difíceis.

Conheço as tentativas.

Conheço as vezes em que foi preciso continuar sem nenhuma garantia de que daria certo.

E talvez seja por isso que exista um dia da minha vida que eu guardo com uma nitidez quase injusta.

O dia da posse dele na Polícia Civil de São Paulo.

Eu lembro de me arrumando.

Lembro da música que tocava.

Lembro de detalhes que provavelmente não significariam nada para outra pessoa.

Mas, para mim, aquele dia tinha uma espécie de peso invisível.

Porque eu não estava apenas vendo meu irmão tomar posse.

Eu estava vendo um menino chegar a um lugar que a vida, durante muito tempo, não parecia ter reservado para ele.

E enquanto todo mundo olhava para aquele homem diante de uma conquista, dentro de mim passavam imagens de uma criança.

O menino do quintal.

O menino que brigava por mim.

O menino que não tinha ideia de quantas coisas ainda teria que enfrentar.

O menino que cresceu.

E venceu.

Talvez por isso eu considere aquele um dos dias mais felizes da minha vida.

Não porque a vitória fosse somente dele.

Mas porque algumas conquistas carregam mais de uma história.

Naquele dia, havia o esforço dele.

Mas havia também a nossa infância.

Havia a nossa família.

Havia tudo aquilo que não tivemos.

Havia tudo aquilo que tivemos.

Havia as vezes em que parecia difícil demais.

E havia, finalmente, a prova de que difícil nunca significou impossível.

Eu olhei para ele e pensei em tudo.

E talvez ele nunca saiba o tamanho exato daquele momento dentro de mim.

Porque existem orgulhos que a gente não consegue dizer sem diminuir.

Jaffer, eu tenho orgulho de você.

Mas não apenas pelo homem que você se tornou.

Tenho orgulho do menino que você foi para conseguir chegar até aqui.

Tenho orgulho da maneira como você atravessou as coisas.

Daquilo que você precisou aprender sozinho.

Daquilo que precisou suportar.

Daquilo que poderia ter te endurecido, mas não conseguiu tirar de você aquilo que realmente importa.

Porque crescer também é correr o risco de perder a delicadeza.

E você, de algum modo, conseguiu continuar sendo inteiro.

Você sempre foi mais quieto do que eu.

Eu sempre tive mais palavras.

Você sempre pareceu precisar de menos.

Mas talvez esse seja um dos maiores enganos sobre pessoas silenciosas: elas não sentem menos.

Elas apenas aprenderam a carregar muita coisa sem anunciar.

Eu sei disso porque conheço o seu silêncio.

Sei quando ele é tranquilidade.

Sei quando é preocupação.

Sei quando você está pensando.

E sei quando existe alguma coisa que você ainda não conseguiu colocar em palavras.

Talvez porque eu tenha passado a vida aprendendo a ler você.

E você tenha passado a sua aprendendo a me ler também.

Nós sabemos onde o outro quebra.

E talvez essa seja uma das formas mais bonitas de intimidade que existem.

Não precisar perguntar tudo.

Não precisar explicar tudo.

Não precisar apresentar versões editadas de nós mesmos.

Com você, eu posso simplesmente ser.

E você pode simplesmente ser.

Não precisamos impressionar.

Não precisamos parecer fortes.

Não precisamos esconder as partes que doem.

A vida já nos conheceu antes da gente aprender a fazer pose para ela.

E talvez seja por isso que eu nunca precisei ser outra pessoa perto de você.

Você me conheceu quando eu ainda não sabia quem era.

E eu conheci você quando você ainda estava descobrindo quem seria.

Nós testemunhamos um ao outro.

E existe alguma coisa quase sagrada em ser testemunha da vida de alguém.

Porque você conhece não apenas quem aquela pessoa se tornou.

Você conhece também quem ela precisou ser para chegar até ali.

Eu sei quem você era antes das fardas.

Antes das responsabilidades.

Antes das conquistas.

Antes de o mundo começar a te chamar de adulto.

Eu conheço o menino.

E talvez seja por isso que, para mim, nenhuma conquista sua será apenas uma conquista.

Sempre haverá um quintal dentro dela.

Uma infância.

Uma dificuldade.

Uma gargalhada.

Um tombo.

Uma bronca.

Uma pequena vitória.

E aquele menino bravo que, mesmo sendo menor, achava que podia enfrentar o mundo inteiro se fosse para me proteger.

Hoje você cresceu.

A vida cresceu.

Nós crescemos.

E eu já não consigo proteger você de tudo, como talvez quisesse.

Mas existe uma coisa que o tempo não conseguiu mudar:

eu ainda estou aqui.

E você também.

Talvez essa seja a nossa maior conquista.

Não o dinheiro que conseguimos.

Não os lugares onde chegamos.

Não os títulos que a vida nos deu.

Mas o fato de que, depois de tudo, continuamos reconhecendo um ao outro.

Continuamos sabendo onde o outro mora por dentro.

Continuamos sendo casa.

E talvez seja isso que significa ter um irmão que também foi seu primeiro amigo.

É ter alguém que conhece a sua história antes mesmo de ela virar história.

Alguém que estava lá quando tudo ainda era começo.

Alguém que sabe de onde você veio.

E que, por isso, nunca precisa perguntar o quanto custou chegar.

Jaffer, se algum dia você duvidar de si mesmo, espero que se lembre de uma coisa:

eu vi você chegar até aqui.

Eu vi o menino.

Eu vi o homem.

E vi todas as versões entre os dois.

Vi você cair.

Vi você levantar.

Vi você insistir.

Vi você vencer coisas que ninguém viu.

E talvez seja por isso que eu nunca tenha conseguido enxergar suas conquistas como acaso.

Você foi construindo cada uma delas com aquilo que a nossa infância nos ensinou:

com pouco recurso, mas muita coragem.

Com dificuldades, mas sem abandonar os princípios.

Com medo, mas sem deixar que ele decidisse tudo.

Com as mãos cheias de nada algumas vezes, mas com a capacidade de transformar esforço em caminho.

Nós nunca tivemos uma vida fácil.

Mas tivemos uma vida nossa.

E, entre todas as coisas que ela poderia ter me dado, talvez a mais bonita tenha sido você.

Meu irmão.

Meu primeiro amigo.

Meu menino bravo.

Meu guardião pequeno.

Meu companheiro de quintal.

Meu parceiro de sobrevivência.

E uma das poucas pessoas diante de quem eu nunca precisei explicar de onde vim.

Porque você estava lá.

Desde o começo.

E talvez seja isso que eu mais ame em nós:

antes de sermos adultos, antes de sermos profissionais, antes de sermos qualquer coisa que o mundo pudesse reconhecer, nós já éramos dois irmãos tentando descobrir a vida juntos.

E conseguimos.

Não sem cicatrizes.

Não sem perdas.

Não sem medo.

Mas juntos.

E, no fim, talvez seja isso que significa ter alguém para a vida inteira:

não é alguém que promete nunca ir embora.

É alguém que, quando você olha para trás, percebe que esteve ali em quase todos os lugares que realmente importaram.

Você esteve.

E eu estive.

Desde o quintal.

Desde o começo.

E se a vida me perguntasse hoje qual foi uma das maiores sortes que ela me deu, eu não precisaria pensar muito.

Eu responderia seu nome.

Jaffer.

Porque antes de o mundo nos ensinar tantas coisas, nós aprendemos um com o outro a mais importante delas:

que algumas batalhas ficam menos difíceis quando existe alguém lutando ao nosso lado.