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Carta para Samuel Santos - Depois, ele cresceu.

Tatianeturcatti
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Em 2000, a nossa família ganhou um menino.

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Em 2000, a nossa família ganhou um menino.

Samuel.

Eu tinha nove anos e, até então, recém-nascidos eram uma espécie de mistério para mim. Eu não sabia muito bem o que fazer diante de um ser tão pequeno, tão dependente, tão inteiro na sua pequenez. Mas lembro da sensação de que, depois que ele chegou, alguma coisa havia mudado na casa.

A vida passou a girar em torno daquele pequeno ser.

Havia mamadeira, banho, choro, sono, colo, fraldas. Havia sempre alguém perguntando onde ele estava, se já tinha comido, se estava dormindo. E, sem que eu percebesse, Samuel foi ocupando não apenas os cômodos da nossa casa, mas também um lugar muito específico dentro de mim.

O lugar do cuidado.

Quando meus pais decidiram deixar a Bahia e vir para Macaé, eu tinha doze anos. Eles vieram em busca de oportunidades, de uma vida um pouco mais possível, de um futuro que parecia existir em algum lugar distante daquela terra que conhecíamos.

E a mudança mudou tudo.

Minha mãe, que antes cuidava da casa, precisou trabalhar fora para ajudar meu pai com as despesas. E eu, ainda menina, fiquei com uma espécie de responsabilidade que ninguém precisou me explicar.

A casa precisava continuar funcionando.

Jaffer e Samuel precisavam continuar sendo cuidados.

Jaffer, por ter idade próxima da minha, não exigia tanto. Mas Samuel ainda era pequeno demais.

Então eu cresci cuidando dele.

Eu levava para a escola e buscava. Dava almoço. Dava banho. Ajudava nas tarefas. Ia às reuniões escolares. Levava para brincar na rua quando dava. Prestava atenção nas coisas que crianças pequenas exigem que alguém preste atenção.

E assim, sem perceber, eu fui atravessando a minha adolescência.

Enquanto outras meninas descobriam a própria juventude, eu descobria o peso e a delicadeza de ser responsável por alguém.

Talvez por isso eu diga que Samuel é meu irmão-quase-filho.

Não porque eu tenha sido mãe dele.

Eu não fui.

Mas porque existe uma parte da minha infância que terminou cedo demais porque alguém precisava crescer um pouco antes da hora.

E esse alguém fui eu.

Aos quinze anos, comecei a viajar para passar as férias no Rio de Janeiro. Mas havia uma condição silenciosa em todas aquelas viagens: Samuel ia comigo.

Não havia como deixá-lo.

Lembro de nós chegando à Rodoviária Novo Rio, descendo daquele ônibus depois de horas de viagem, e eu segurando a mão dele com uma força quase desproporcional.

Eu tinha medo de alguém roubá-lo.

Hoje penso que talvez aquele medo dissesse mais sobre mim do que sobre o mundo.

Eu ainda não sabia que algumas pessoas a gente não segura pela mão apenas para que não se percam.

Às vezes seguramos porque precisamos ter certeza de que elas continuam ali.

Quando comecei a namorar um rapaz que morava em outra cidade, e passei a ir para a casa dele nos fins de semana, Samuel também ia.

Sexta-feira a gente pegava o ônibus.

Segunda-feira de manhã, voltava.

E eu me lembro da pena que sentia de acordá-lo tão cedo para voltar para casa, porque precisávamos chegar a tempo de estudar.

Minha adolescência tinha ônibus, mochila, escola, namorado, responsabilidades e um menino pequeno que quase sempre estava comigo.

E, curiosamente, eu nunca senti que ele estivesse atrapalhando a minha vida.

Ele era parte dela.

Quando comecei a trabalhar e tive condições de comprar um celular para ele, comprei.

Ele usava um aparelho velho, herdado de alguém, e sofria com aquilo. Eu queria que ele tivesse um telefone melhor.

Hoje parece uma coisa pequena.

Mas talvez o amor seja feito dessas coisas que parecem pequenas quando vistas de fora.

Um celular comprado com o primeiro dinheiro do trabalho.

Uma mão segurada com força numa rodoviária.

Um prato de comida colocado na mesa.

Uma reunião de escola.

Um banho.

Uma tarefa ajudada.

Um despertador cedo demais.

Uma passagem de ônibus.

Uma criança levada junto porque não havia outra possibilidade.

E talvez tenha sido assim que o meu instinto maternal nasceu: não de uma decisão, mas da repetição cotidiana do cuidado.

Eu cuidava dele.

E, enquanto cuidava, alguma coisa em mim também era construída.

Depois, ele cresceu.

E essa talvez seja uma das coisas mais estranhas de amar alguém profundamente: você passa tantos anos tentando protegê-lo do mundo que, um dia, percebe que ele já sabe caminhar sozinho.

Samuel hoje tem vinte e seis anos.

E eu olho para ele e vejo o menino que atravessava a rua segurando a minha mão.

Mas também vejo o homem que aprendeu a cuidar de si e dos outros.

Ele é doce.

Gentil.

Simpático.

Educado.

Tem uma bondade que não parece esforço.

Samuel é daquelas pessoas que percebem quando alguém está precisando de alguma coisa antes mesmo de serem chamadas.

Ele está sempre preocupado com quem está ao redor.

Às vezes, até demais.

Às vezes, parece esquecer que ele também precisa ser cuidado.

Ele vive em modo de serviço.

Como se tivesse recebido, em algum momento da vida, a missão silenciosa de tornar as coisas um pouco melhores para quem estiver por perto.

E eu me preocupo com isso.

Porque o mundo nem sempre sabe o que fazer com pessoas boas.

Nem sempre devolve cuidado na mesma medida em que recebe.

Mas talvez exista uma parte dele que nunca tenha aprendido a ser diferente.

E eu gosto disso nele.

Gosto da forma como ele trata as pessoas.

Gosto da responsabilidade com que lida com o próprio dinheiro.

Gosto da maneira como pensa no futuro.

Gosto de vê-lo trabalhando, estudando, construindo planos.

Seu primeiro emprego foi como jovem aprendiz.

E, de algum modo, até nisso eu estava por perto.

Fui eu quem conseguiu a oportunidade na empresa em que trabalhava. Revisei seu currículo. Orientei sobre a entrevista. Expliquei o que ele deveria fazer, como deveria se apresentar, o que esperar.

Talvez porque, para mim, cuidar dele nunca tenha significado apenas protegê-lo daquilo que poderia dar errado.

Sempre significou também prepará-lo para aquilo que poderia dar certo.

E ele fez.

No primeiro emprego, criou uma empresa.

Um delivery de cachorro-quente.

Uma ideia simples que, por algum tempo, ajudou a sustentar a família da nossa irmã mais velha.

Isso diz muito sobre quem ele é.

Ele não espera a vida ficar pronta.

Ele tenta construir alguma coisa com aquilo que tem.

Hoje trabalha, faz faculdade de Sistemas e se prepara para lançar uma nova empresa, dessa vez voltada para soluções sustentáveis.

Ele olha para o futuro.

E talvez essa seja uma das coisas que mais me emocionam.

Porque durante muito tempo eu olhei para ele pensando em como protegê-lo do mundo.

Hoje eu olho para ele pensando em tudo o que ele ainda pode construir nele.

E há uma espécie de orgulho silencioso nisso.

Um orgulho que não cabe muito bem em palavras.

Porque existe uma coisa curiosa sobre os irmãos que a vida transforma em quase filhos:

a gente passa tanto tempo ensinando que, um dia, percebe que também aprendeu.

Samuel me ensinou sobre ternura.

Sobre responsabilidade.

Sobre presença.

Sobre a possibilidade de amar alguém sem precisar que esse amor seja anunciado.

Ele me ensinou que cuidado não é necessariamente uma grande declaração.

Às vezes é só lembrar.

É levar.

É buscar.

É esperar.

É comprar.

É acordar.

É acompanhar.

É segurar a mão.

É estar.

E talvez seja por isso que, quando penso nele, ainda penso em casa.

Samuel é meu caçulinha.

Meu irmão-quase-filho.

Aquele pequeno menino que chegou quando eu tinha nove anos e, sem saber, ocupou uma parte enorme da minha vida.

Mas ele cresceu.

E hoje eu já não preciso segurá-lo pela mão para atravessar a rua.

Ele sabe atravessar.

Não preciso acompanhá-lo até a escola.

Ele encontrou outros caminhos.

Não preciso escolher por ele.

Ele aprendeu a escolher.

Não preciso carregá-lo.

Ele aprendeu a caminhar.

E talvez amar alguém também seja aprender a soltar a mão sem soltar o amor.

É olhar para quem você passou anos protegendo e perceber:

ele está pronto.

E então, pela primeira vez, o cuidado muda de lugar.

Você já não precisa cuidar para que ele sobreviva.

Você cuida porque ama.

E isso é diferente.

Muito diferente.

É pacífico.

É alguém que dificilmente mede esforços quando se trata de quem ama.

E existe uma beleza quase perigosa nessa bondade.

Porque o mundo é duro.

E pessoas como ele parecem carregar uma espécie de luz que não combina com certas esquinas da vida.

Às vezes tenho medo de que o mundo o machuque.

Mas, quando olho para tudo o que ele já construiu, percebo que talvez eu esteja cometendo o mesmo erro de sempre:

subestimando a capacidade dele de caminhar.

Samuel cresceu.

E talvez eu precise aprender isso.

Ele não é mais o menino que eu precisava proteger.

É o homem que eu tenho orgulho de conhecer.

E, ainda assim, existe alguma coisa nele que permanece exatamente igual.

A ternura.

A delicadeza.

A capacidade de chegar perto sem invadir.

De ajudar sem fazer barulho.

De amar sem transformar amor em dívida.

De estar sem precisar ser chamado.

Por isso, quando penso em Samuel, ainda penso em inverno.

Não porque inverno seja frio.

Mas porque algumas pessoas são exatamente o contrário do frio.

São cobertores.

São luz acesa na janela.

São café quente nas mãos.

São silêncio que não constrange.

São a sensação de finalmente poder descansar depois de passar o dia inteiro tentando ser forte.

Samuel é esse lugar.

Ele é o aconchego que existe quando o mundo lá fora parece difícil demais.

É aquele abraço que chega sem avisar e, por alguns segundos, faz a vida parecer menos pesada.

É o olhar que não julga.

O cuidado que não pesa.

A presença que não exige.

A ternura que descansa o peito.

Samuel é casa.

Casa de verdade.

Daquelas em que você entra, fecha a porta, tira os sapatos e percebe que não precisa mais se defender de nada.

E talvez seja essa a maior ironia da nossa história:

eu passei tantos anos cuidando dele para que ele estivesse seguro no mundo, sem perceber que, de alguma maneira, era ele quem estava tornando o meu mundo mais seguro.

Ele chegou à nossa casa como um bebê.

E, sem saber, virou uma das minhas formas mais bonitas de acreditar que ainda existe pureza.

Hoje ele tem vinte e seis anos.

Eu tenho trinta e cinco.

E, embora o tempo tenha levado embora a criança que eu carregava pela mão, ele não levou aquilo que aquela criança deixou em mim.

Porque algumas pessoas crescem diante dos nossos olhos.

Outras crescem dentro deles.

Samuel fez os dois.

E eu acho que, em algum lugar muito profundo de mim, ele sempre será aquele menino pequeno que eu precisava proteger.

Mas agora existe uma diferença.

Hoje, quando seguro a mão dele, não é mais para impedir que o mundo o leve.

É só para lembrá-lo de uma coisa que ele talvez nunca precise esquecer:

onde quer que a vida o leve, ele nunca vai precisar voltar sozinho para casa.

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