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Carta para Karen Gonçalves: Vai em paz.

Tatianeturcatti

Conteúdo da publicação

Eu não sei exatamente onde você está agora.
E talvez seja essa a parte mais difícil de escrever esta carta: falar com alguém que, de repente, deixou de estar onde sempre esteve.

Mas eu queria que, de algum lugar, você alcançasse este sentimento.

No último sábado, eu estava no Sana.

Eu e duas amigas alugamos um chalé para aproveitar o feriado prolongado. Saímos de casa por volta das 13h, chegamos ao vilarejo às três da tarde, almoçamos, compramos um incenso e depois subimos para o nosso tão esperado refúgio.

Ligamos a hidro.
Colocamos uma música.
Abrimos um vinho.

Lá fora fazia um frio absurdo. O termômetro marcava 14°C, mas a sensação térmica era de 7°C. E nós estávamos ali, protegidas do frio, rindo de qualquer coisa, conversando sobre tudo e sobre nada, vivendo uma noite extremamente agradável.

Uma noite comum.

E talvez seja isso que mais me atravessa agora.

Porque enquanto eu estava vivendo uma noite qualquer, você estava vivendo as suas últimas horas.

No domingo de manhã, meu celular começou a receber muitas mensagens. Eu vi, mas não fui olhar imediatamente. Dormi mais um pouco.

Quando finalmente olhei, o mundo já tinha mudado.

Você havia sofrido um acidente de moto na noite anterior.

E não resistiu.

Existem notícias que a gente lê, mas o corpo se recusa a compreender.

Por alguns minutos, parece que o mundo inteiro fica em silêncio. A gente olha para as palavras, relê, procura algum erro, alguma possibilidade de aquilo não significar exatamente o que significa.

E o primeiro pensamento é quase infantil:

É impossível.
Isso não aconteceu.

Mas aconteceu.

E talvez eu nunca consiga entender completamente como uma pessoa pode existir tão intensamente num dia e, no seguinte, existir apenas nas lembranças de quem a amava.

Li uma frase há pouco tempo que dizia:

"Hoje é o último dia de alguém na Terra. Aproveita."

E no sábado foi o seu último dia.

Você não sabia.

Ninguém sabia.

Talvez essa seja uma das coisas mais cruéis da vida: a gente nunca recebe o aviso de que está vivendo um último momento.

Você não sabia que aquele abraço poderia ser o último.
Que aquela conversa poderia ser a última.
Que aquele sorriso poderia ser o último.

E nós também não sabíamos.

A memória, quando recebe uma notícia dessas, parece trabalhar contra a gente. Ela abre gavetas que estavam fechadas e começa a devolver pessoas, vozes, cenas, pequenos gestos que, até então, pareciam insignificantes.

E você voltou inteira.

Karen tinha riso fácil.

Coração generoso.

Era doce de um jeito que não precisava fazer esforço para ser percebido.

Você tinha apenas 15 anos quando entrou na minha vida.

Quando conheci o Leandro, ganhei muita gente de presente. E, entre tantos presentes que aquela história me deu, estava você.

Você era aventureira. Apaixonada pela vida. Trabalhadora. Dessas pessoas que não ficam esperando a vida acontecer.

Eu perdi a conta de quantas coisas você já fez para ganhar dinheiro, porque você estava sempre inventando um trabalho, um bico, alguma maneira de correr atrás, aumentar seus ganhos, conquistar suas coisas.

E quando me via, aquele sorriso aparecia antes mesmo das palavras.

“Cunhadaaaaa!”

Eu consigo ouvir.

E talvez seja isso que permaneça.

A voz.

O jeito.

O sorriso.

As pequenas coisas que a morte não consegue levar completamente.

Quando eu e seu irmão decidimos não continuar juntos, você não precisou escolher lado.

Você simplesmente ficou.

Foi apoio.

Foi carinho.

Foi presença.

E continuou me olhando daquele jeito bonito que você tinha de olhar para as pessoas. Você dizia que me admirava. Que me achava foda.

E eu queria que você soubesse que também era.

Muito.

É muito difícil escrever sobre alguém de 26 anos usando verbos no passado.

Era.

Como pode?

Vinte e seis anos.

Eu ainda tento colocar essa idade dentro da palavra “vida” e não consigo colocar dentro da palavra “fim”.

Porque 26 anos não parece uma história terminada.

Parece começo.

Parece estrada.

Parece uma quantidade absurda de coisas que ainda deveriam acontecer.

E talvez seja justamente por isso que dói tanto.

Porque existem mortes que parecem interromper uma história que já caminhava para o fim.

A sua não.

A sua parece ter arrancado uma página do meio do livro.

Sem conclusão.

Sem despedida.

Sem tempo para preparar ninguém.

E eu queria muito perguntar à vida por que ela faz isso.

Por que pessoas tão jovens precisam ir embora tão cedo?

Por que algumas pessoas recebem décadas e outras recebem apenas 26 anos?

Por que uma família precisa aprender, de uma hora para outra, a existir dentro de uma ausência que ninguém pediu?

Eu não tenho respostas.

E, sinceramente, não quero inventar nenhuma.

Não quero dizer que “Deus precisava de você”, porque talvez a gente nunca saiba.

Não quero dizer que “foi melhor assim”, porque não foi.

Não quero transformar a sua morte em uma frase bonita só para que ela fique mais suportável.

Às vezes, a morte é simplesmente cruel.

E perder você é cruel.

Mas existe uma coisa que eu quero te dizer.

Você foi amada.

Você foi lembrada.

Você deixou marcas.

Você passou pela vida de pessoas e não passou despercebida.

E eu espero que, de algum lugar, você consiga sentir isso.

Espero que consiga sentir o tamanho da dor que ficou porque isso também é uma prova do tamanho do amor que existia.

E me dói muito perder você.

Mas me dói talvez ainda mais olhar para a sua família e imaginar o tamanho do buraco que essa ausência abriu.

Porque eu conheço o amor daquela família.

Eu também fui abraçada por ela.

E existe uma dor particular em assistir pessoas que um dia nos acolheram precisando agora aprender a respirar depois de perder uma filha, uma irmã, uma sobrinha, uma pessoa tão jovem.

Eu queria poder diminuir essa dor.

Queria poder pegar um pouco dela para mim.

Queria poder voltar no tempo e, de algum jeito absurdo, impedir que aquela noite terminasse assim.

Mas não posso.

Então fico com o que posso fazer:

lembrar.

Contar quem você foi.

Repetir seu nome.

Falar do seu sorriso.

Contar que você era doce.

Que era esforçada.

Que era aventureira.

Que amava a vida.

Que me chamava de “Cunhadaaaaa!” com aquele sorriso enorme.

Porque talvez morrer seja também isso: continuar existindo na boca de quem se lembra.

E você vai existir.

Nas fotografias.

Nas histórias.

Nas lembranças que vão surgir inesperadamente no meio de um domingo qualquer.

Nas pessoas que vão dizer “lembra da Karen?”

E alguém vai responder:

“Lembro.”

E, por alguns segundos, você estará aqui novamente.

Talvez seja assim que a gente consiga vencer um pouco a morte.

Não impedindo que alguém vá.

Mas não permitindo que vá embora completamente.

Karen, eu espero que onde quer que você esteja, você esteja em paz.

E espero, principalmente, que você saiba que foi muito querida.

Que foi muito admirada.

Que foi muito amada.

E que, mesmo tendo vivido apenas 26 anos, você deixou uma história grande o suficiente para continuar sendo contada.

Eu ainda não sei como terminar esta carta.

Talvez porque algumas despedidas não deveriam ter um ponto final.

Então, por enquanto, eu só vou dizer:

Vai em paz, Karen.

E, se existir algum lugar onde as pessoas que partiram conseguem olhar para nós, olha para a sua família.

Olha para quem ficou.

E, de algum jeito que eu não consigo explicar, fica perto.

Porque eles vão precisar muito de você agora.

E nós também.

Com amor,

Thoughts

  • tcardoso59

    Ando em casa de gente todos os dias e ouve-se muito isto do aviso que nunca chega. Gostei da parte de não quereres inventar resposta.

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  • dcamargo58

    Minha mulher morreu em 2016 e eu ainda falo o nome dela alto dentro de casa as vezes. isso de continuar existindo na boca de quem lembra eu entendi bem

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  • domingoSemPressa

    Ninguém falou ainda do incenso. Vocês compraram um incenso no vilarejo antes de subir, e é dessas coisas miúdas que a memória só guarda depois que alguma coisa acontece. Eu fiquei um tempo parado nesse pedaço, pensando no sábado inteiro de vocês.

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  • LuziaAndrade

    Minha filha, você escreveu essa carta pra ela mas quem vai precisar de ler é a mãe dela. Acho que você já sabia disso quando sentou pra escrever, por isso repetiu o nome tanta vez.

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  • Kellyanne

    Gostei muito de voce escrever que não quer dizer que foi melhor assim. aqui em casa quando morre alguem é só essa frase, cansa

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  • silzinha

    Ai meu deus! 💔

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  • LariCavalcanti

    Eu perdi uma prima com 19 e foi assim também, mensagem no celular de manhã e eu achando que era outra coisa. essa parte de reler procurando erro no texto eu fiz igualzinho, umas quatro vezes

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  • BeatrizSanto

    Quando a minha avó morreu eu estava em Vevey, a meio de um turno da tarde, e só soube à noite. Passei anos a fazer a conta do que estava a fazer àquela hora. É o mesmo que tu fazes com o sábado no Sana. Não serve de nada saber, e a cabeça vai lá buscar na mesma.

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  • Marlene

    Aqui não me rio, pá. O que escreveste é dos pesados mesmo. A família dela já leu isto?

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  • AndreiaPontes

    Vim para dizer alguma coisa e não me sai nada. Só te digo que a parte de ela não ter escolhido lado quando vocês acabaram ficou-me a doer.

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