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Carta para Cleton Nascimento: O homem que pedalou comigo naquela estrada de barro.

Tatianeturcatti
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Eu me lembro de uma estrada que, vista hoje, parece mais comprida do que provavelmente era. Talvez porque criança tenha uma maneira muito particular de medir distâncias: não em quilômetros, mas na…

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Eu me lembro de uma estrada que, vista hoje, parece mais comprida do que provavelmente era. Talvez porque criança tenha uma maneira muito particular de medir distâncias: não em quilômetros, mas na duração do medo, no tamanho da fome, na quantidade de vezes que se pergunta se já está chegando. A estrada era de barro e, quando chovia, perdia qualquer pretensão de caminho. Virava sulco, poça, armadilha. E era justamente por ali que Cleton passava comigo na bicicleta.

Eu ia sentada no quadro, apertando-me como podia, enquanto ele pedalava. Não sei exatamente como aquilo era possível. Uma bicicleta já parece pequena para um homem; para um homem e uma criança, em uma estrada de chão, parecia uma espécie de disparate que só a infância é capaz de considerar perfeitamente razoável. Mas Cleton não parecia consultar a razão antes de fazer as coisas. Colocava-me ali e seguia. Quando a subida ficava íngreme demais, descíamos. Ele empurrava a bicicleta, eu acompanhava, e os dois escorregávamos no barro. Às vezes caíamos. Às vezes chegávamos imundos. E, ainda assim, havia uma lógica muito simples naquele trajeto: precisávamos chegar até nossos pais, e ele tinha decidido que eu chegaria com ele.

Naquele tempo, eu ainda não sabia que algumas pessoas começam a vida adultas antes que alguém lhes dê esse nome.

Cleton já trabalhava quando outros meninos ainda tinham como principal preocupação descobrir onde jogar bola depois da escola. Saía cedo para o trabalho no campo, antes que o dia tivesse se decidido entre amanhecer e manhã, e passava horas colhendo mamão. Depois voltava para casa, tomava banho, trocava de roupa e ia estudar. Mais tarde, houve também o trabalho na fábrica de barro, os horários difíceis, a bicicleta cortando a noite, o corpo obedecendo porque a vida não parecia particularmente interessada em saber se ele estava cansado.

Meu pai trabalhava fora durante a semana, e havia coisas que simplesmente precisavam ser feitas. Buscar comida para os animais, buscar água para a gente beber, resolver aquilo que aparecesse. Não havia uma grande reunião familiar para distribuir responsabilidades, nem alguém entregando uma lista de tarefas com assinatura e protocolo. A necessidade tem esse defeito: não costuma pedir licença. Quando alguma coisa precisa ser feita, ela apenas fica ali, esperando que alguém faça. E Cleton fazia.

É curioso pensar nisso agora porque, quando somos crianças, temos uma tendência injusta de imaginar que os adultos nasceram adultos. Não enxergamos o esforço por trás daquilo que parece natural. Para mim, ele era apenas meu irmão mais velho. O irmão que sabia desenhar melhor, que entendia certas coisas antes de mim, que parecia saber se virar. Eu deixava meus trabalhos da escola em cima da cama dele com um bilhete que, na minha cabeça, resolvia qualquer questão moral: “É pra amanhã”.

E funcionava.

Ele podia chegar em casa perto das dez da noite, depois de trabalhar e estudar, e ainda assim, quando eu acordava, o trabalho estava feito. Uma história em quadrinhos, um desenho, uma atividade qualquer que eu havia decidido ser urgente porque a professora certamente não compreenderia a profundidade da minha procrastinação infantil. Eu dormia tranquila. Cleton resolvia o problema.

Hoje penso que havia uma espécie de injustiça poética nisso. Eu entregava a ele o meu dever de casa como quem entrega uma batata quente; ele recebia como quem já tinha as mãos acostumadas ao fogo.

Mas é só agora, muitos anos depois, que consigo perceber o que havia por trás daquele gesto. Não era apenas bondade. Bondade é uma palavra pequena demais para certas coisas. Havia nele uma disposição quase instintiva para assumir o peso que estava ao alcance das suas mãos. Ele não fazia discursos sobre responsabilidade. Não precisava. Havia aprendido cedo que algumas pessoas amam exatamente assim: pegando o que está pesado e dizendo, sem dizer, “deixa que eu levo”.

Talvez por isso eu reconheça Cleton muito mais pelas coisas que ele faz do que pelas coisas que diz.

Há nele uma espécie de generosidade sem cerimônia. Ele gosta de gente perto. Gosta de casa cheia, conversa atravessada e barulho de família. Se houver comida, então, temos um homem particularmente feliz. As nossas conversas por vídeo podem durar horas e atravessar assuntos que não levariam cinco minutos para serem explicados, mas esse nunca foi o propósito. A conversa é apenas a desculpa; o que importa é a companhia.

Aos sábados, tínhamos também o ritual do torresmo e do caldo de cana na feira. E eu gosto de pensar que certas intimidades não precisam de grandes acontecimentos para existir. Às vezes, o amor familiar é uma mesa simples, uma comida qualquer, as pessoas falando besteira e a sensação quase imperceptível de que, por algumas horas, o mundo não está cobrando nada de ninguém.

Cleton cresceu com algumas ausências que não escolheu. Foi criado longe da mãe, conheceu cedo a parte da vida que não pergunta se estamos preparados e aprendeu a ocupar espaços que talvez devessem ter sido ocupados por outros. Não digo isso para transformar sua história numa tragédia, porque ele próprio jamais coube nesse papel. Há pessoas que carregam suas faltas como quem carrega uma cicatriz: ela existe, mas não determina o movimento do corpo.

E talvez seja justamente aí que esteja uma das coisas mais bonitas nele.

Porque seria fácil imaginar que um menino que precisou trabalhar cedo, que conheceu a dureza antes da hora e aprendeu a resolver a vida com as próprias mãos se tornaria um homem duro. Mas Cleton não ficou duro. Ficou forte. E há uma diferença enorme entre as duas coisas.

A dureza fecha a porta. A força abre espaço para mais alguém entrar.

Ele continua sendo esse homem que chega. Que quer saber. Que presta atenção. Que aparece. Que protege sem transformar proteção em espetáculo. Não é o tipo de pessoa que precisa anunciar que está cuidando; quando se percebe, ele já resolveu alguma coisa, já perguntou se você chegou, já está por perto. Seu amor não tem muita vocação para a teoria. Ele prefere a prática, que é uma língua menos elegante, porém muito mais convincente.

Quando éramos pequenos, eu talvez não entendesse por que ele me colocava naquela bicicleta e enfrentava a estrada para me levar até nossos pais. Para mim, aquilo era apenas o fim de semana. Hoje entendo que havia uma escolha ali. Entre chegar sozinho ou levar alguém junto, ele levava alguém junto.

E isso, olhando para trás, explica uma quantidade impressionante de coisas.

Explica o irmão que fazia meu trabalho da escola mesmo depois de um dia inteiro de trabalho. Explica o rapaz que atravessava estradas ruins de bicicleta. Explica o homem que gosta de casa cheia, que se alegra com comida na mesa, que conversa por horas, que permanece atento aos seus. Explica essa maneira quase automática de cuidar sem fazer disso uma medalha.

Cleton tem essa coisa rara de não deixar que a dureza da vida seja a última palavra.

A vida lhe deu barro, ele aprendeu a atravessá-lo. Deu-lhe distância, ele aprendeu a pedalar. Deu-lhe responsabilidade antes do tempo, ele carregou. E, quando poderia ter aprendido apenas a sobreviver, aprendeu também a celebrar.

Por isso ainda acho que “verão” é uma boa maneira de chamá-lo.

Não porque ele seja sempre fácil, leve ou ensolarado; ninguém é, e seria até uma ofensa à inteligência de um homem transformá-lo numa estação do ano sem tempestades. Mas porque Cleton tem calor. Um calor que junta as pessoas. Que ocupa a casa. Que faz barulho. Que oferece comida. Que ri. Que pergunta. Que permanece.

É assim que eu me lembro de Cleton. Não como o menino que precisou crescer depressa, nem como o irmão que fazia coisas por mim quando eu ainda não sabia agradecer. E talvez seja essa a parte que mais me comove quando penso nele: apesar de tudo que a vida lhe pediu tão cedo, Cleton nunca perdeu a vontade de repartir a vida. Ao contrário. Parece ter saído dela com uma disposição quase teimosa para colocar mais uma cadeira à mesa.

Meu irmão é assim.

E hoje, Cleton, quando olho para a vida que você construiu, existe uma coisa que me emociona de um jeito que talvez eu não soubesse explicar quando éramos crianças: você conseguiu fazer daquilo que um dia foi falta uma espécie de abundância. Você formou sua família, encontrou uma esposa excelente para caminhar ao seu lado, colocou no mundo dois filhos lindos e, com muito trabalho, esforço e insistência, construiu também o seu próprio negócio. Não foi uma estrada asfaltada que apareceu de repente diante dos seus pés. Você foi fazendo o caminho com o que tinha, como sempre fez.

Ainda não chegamos ao topo daquela montanha que eu tenho certeza de que você vai alcançar. E digo “vamos” porque, sendo sua irmã, já me sinto de algum modo incluída na paisagem. Há coisas que a gente deseja para quem ama como se fossem nossas. Eu ainda quero ver você crescer, prosperar, conquistar mais, olhar para trás e ter aquela sensação rara de quem finalmente percebe que nenhuma madrugada foi desperdiçada.

Mas existe uma beleza particular no ponto em que você está agora. A chuva cessou.

A estrada ainda existe, porque estrada nenhuma deixa de ser estrada só porque o tempo melhorou.

E uma das cenas mais bonitas da sua vida é: você proporcionando aos seus filhos uma infância que o menino que você foi não conheceu.

Ver seus filhos tendo acesso ao que você precisou conquistar tão cedo deve ser, de alguma maneira, uma das maiores vitórias da sua história. Não porque eles recebam aquilo que você não recebeu, mas porque você não permitiu que a falta fosse uma herança. Você recebeu algumas ausências e decidiu entregar presença. Recebeu estrada de barro e está oferecendo caminhos mais firmes. Precisou aprender cedo a carregar peso e hoje pode ensinar seus filhos que, antes de carregar o mundo, eles têm o direito de simplesmente ser crianças.

E isso vale muito.

Porque vencer não é apenas chegar a um lugar alto. Às vezes, é conseguir olhar para trás sem transformar aquilo que doeu em destino para quem vem depois.

Eu tenho orgulho do homem que você se tornou. Não apenas pelo que conquistou, mas pelo que não perdeu no caminho.

Talvez um dia a gente ainda olhe para tudo o que existe hoje e perceba que aquilo que chamávamos de chegada era apenas outra curva da estrada. Porque eu ainda acredito que há muito caminho pela frente para você. E, conhecendo o homem que pedalou comigo naquela estrada de barro, não tenho muita dúvida de que, quando a subida apertar, você vai descer da bicicleta, pôr os pés no chão e continuar empurrando.

Você sempre soube chegar.

Só que agora, felizmente, não precisa mais chegar sozinho.

Thoughts

  • oquefaltadizer

    Ele foi criado longe da mãe e isso ocupa uma linha só no texto inteiro. Fico com a impressão de que essa parte ele carregou sem contar para ninguém.

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  • Ovid

    Cleton desce da bicicleta na subida e empurra, e você escorrega no barro do lado dele. No fim você devolve a mesma cena, com ele já adulto e com os filhos dele. Fiquei parado nessa volta. E essa ideia de não deixar a falta virar herança fica comigo. Obrigado por publicar isso aqui!

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  • rotaAntiga

    A estrada aqui tem barro e tem subida a sério. Um homem, uma criança no quadro da bicicleta, e um caminho que se desfaz quando chove. Metade daquilo fazia-se a empurrar, e é por aí que se percebe o irmão.

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