Talvez uma das coisas mais difíceis de escrever seja sobre alguém que já conhece tantas versões nossas. Porque, quando existe história, não existe apenas uma pessoa para lembrar. Existem várias. A que éramos quando nos conhecemos, a que se perdeu pelo caminho, a que voltou diferente, a que aprendeu a rir de outras coisas, a que carregou silêncios que antes não existiam.
Quando penso em nós, não penso em uma linha reta.
Penso em uma dessas histórias que a vida parece escrever à margem, enquanto a gente está ocupado demais tentando entender o texto principal.
E talvez seja justamente por isso que ela tenha durado.
Nossa amizade nunca precisou obedecer a uma lógica muito convencional. Já fomos próximos de caber em qualquer lugar e distantes o suficiente para quase parecermos desconhecidos. Tivemos fases de riso fácil, churrasco, pagode e aquela liberdade boa de estar perto de alguém sem precisar cuidar da própria imagem.
Com você, eu nunca precisei transformar a vida em alguma coisa mais bonita do que ela era.
Podia ser simplesmente um dia comum.
E talvez exista uma intimidade muito maior nisso do que a gente costuma perceber.
Depois vieram os cafés demorados, as conversas que começavam em qualquer assunto e terminavam em algum lugar muito mais profundo. Vieram as confidências, os silêncios, as pausas e aquela sensação rara de que algumas pessoas conseguem nos compreender sem que seja necessário explicar cada detalhe.
Você sempre teve essa capacidade de tornar as coisas menos pesadas.
Há uma alegria muito particular em você. Não aquela felicidade barulhenta que precisa convencer os outros de que está tudo bem, mas uma espécie de disposição para encontrar graça no meio da bagunça. Você ainda consegue se encantar, brincar, acreditar, tentar.
E talvez uma das coisas mais bonitas em você seja justamente essa combinação improvável: a capacidade de ser menino sem deixar de ser homem; de carregar profundidade sem perder a leveza; de ter força sem precisar abandonar a doçura.
É impossível conviver com isso e não ser tocado de alguma maneira.
Talvez por isso você tenha me ensinado tanto sem nunca ter se colocado no lugar de quem ensina.
Você me mostrou que algumas das melhores coisas da vida acontecem sem planejamento. Que uma conversa pode ser mais importante do que um grande acontecimento. Que rir até perder o fôlego também pode ser uma forma de cuidado. E que existem pessoas diante das quais a gente simplesmente consegue descansar.
Nossa amizade também aprendeu a conviver com a distância.
Hoje existe um país entre nós.
Eu aqui, no Brasil. Você aí, na Finlândia, transformando um campo de futebol em território conhecido, desenhando com os pés aquilo que parece fazer parte de você desde sempre.
E, curiosamente, nunca achei que a distância tivesse conseguido realmente nos separar.
Ela apenas mudou a maneira como você existe na minha vida.
Antes, você estava nas conversas, nos encontros, nos cafés, nos programas improvisados.
Hoje, às vezes, você está em uma lembrança.
Em uma mensagem.
Em uma foto.
Em dezembro.
Porque dezembro tem você.
Talvez seja por isso que eu goste tanto dessa época. Existe alguma coisa especial em saber que, depois de tantos meses vivendo vidas completamente diferentes, existe uma pequena possibilidade de o mundo colocar nossas histórias novamente no mesmo lugar.
E quando isso acontece, é curioso.
Parece que algumas partes da conversa estavam apenas esperando.
Como se o tempo entre um encontro e outro não tivesse sido exatamente ausência. Apenas intervalo.
Você pode estar longe, vivendo sua vida, perseguindo seus sonhos, conhecendo lugares que eu talvez nunca conheça. E, ainda assim, existe algo muito bonito em saber que, em algum lugar desse mundo enorme, existe alguém que compartilha comigo uma coleção de histórias que ninguém mais poderia contar exatamente como nós contamos.
Isso é raro.
Muito raro.
Porque o tempo muda as pessoas.
Muda os interesses, os planos, os lugares, os horários, as prioridades. A vida vai criando novas responsabilidades e empurrando cada um para um lado. Algumas amizades não sobrevivem a isso.
A nossa sobreviveu.
Talvez não porque tenha permanecido igual.
Mas justamente porque soube mudar sem perder a essência.
Você podia desaparecer por meses.
Eu também.
E então, sem grandes explicações, a vida encontrava uma fresta e você reaparecia.
Uma mensagem.
Uma pergunta.
Alguma piada.
E pronto.
A conversa continuava quase do mesmo lugar em que havia parado.
Isso sempre me impressionou.
Porque existem amizades que precisam de presença constante para permanecerem vivas.
A nossa nunca precisou.
Talvez porque algumas pessoas deixem de fazer parte da rotina e passem a fazer parte daquilo que somos.
E você fez isso comigo.
Você conhece versões minhas que já não existem.
Conhece histórias que ficaram para trás, manias que mudaram, sonhos que morreram, outros que nasceram. Conhece uma parte da minha vida que não poderia ser reconstruída hoje porque pertence à mulher que eu era naquela época.
E existe algo muito bonito em ser lembrada por alguém que conheceu quem fomos antes de nos tornarmos quem somos agora.
Talvez seja por isso que eu tenha tanto carinho pela nossa amizade.
Ela não depende de perfeição.
Nunca dependeu.
Ela sobreviveu às mudanças, aos silêncios, às distâncias e à vida acontecendo no meio.
E, no fim, talvez seja isso que torna algumas relações verdadeiras: elas não precisam estar presentes o tempo inteiro para continuar significando.
Você continua sendo alguém que eu quero bem.
Alguém cuja felicidade me importa.
Alguém que eu gosto de saber que existe no mundo, mesmo quando estamos em lugares completamente diferentes.
E espero que você saiba disso.
Espero que saiba que, independentemente dos quilômetros, dos anos ou das fases que ainda vamos atravessar, existe um lugar muito bonito da minha memória onde você continua chegando com a mesma leveza.
O lugar das coisas que foram boas.
Dos risos que não precisaram de motivo.
Dos encontros que pareciam simples enquanto aconteciam e que hoje percebo terem sido muito maiores do que eu imaginava.
Você ocupa um lugar muito particular na minha história, Neemias.
Não por causa de uma grande cena.
Não por uma única lembrança.
Mas por tudo que foi se acumulando silenciosamente ao longo dos anos.
Pelo conjunto.
Pela permanência.
Pela maneira como a nossa amizade conseguiu atravessar tantas versões da vida sem deixar de ser reconhecível.
E talvez eu nunca tenha dito isso com a clareza que deveria:
eu sou muito feliz por ter você na minha história.
Feliz pelas pessoas que fomos quando nos conhecemos.
Pelas pessoas que nos tornamos.
Pelo que ainda conseguimos reconhecer um no outro depois de tanto tempo.
E, principalmente, feliz porque algumas amizades não precisam ser explicadas.
A gente simplesmente olha para trás e percebe que, entre tantas pessoas que passaram pela nossa vida, algumas ficaram de um jeito diferente.
Você ficou.
Mesmo longe.
Mesmo com os intervalos.
Mesmo com a vida acontecendo.
Você ficou.
E talvez seja essa a maneira mais bonita que encontrei de dizer o quanto você é importante para mim:
há pessoas que fazem parte de determinados capítulos da nossa vida. E há aquelas que, de alguma maneira, acabam fazendo parte do livro inteiro.
Você é uma delas.
E eu espero que a vida ainda nos dê muitos dezembros, muitos cafés, muitas conversas e muitas histórias que, daqui a alguns anos, ainda façam a gente rir como se nada tivesse mudado.
Porque talvez tenha mudado tudo.
Mas, quando é verdadeiro, alguma coisa essencial permanece.
E a nossa amizade é uma dessas coisas.