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Capítulo 29: O Forasteiro

BELADIA
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livro (Querida, Sorria)

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Ovid

Uma pista de pouso asfaltada em vinte dias pra um jatinho, no meio da poeira vermelha, me lembra como nessa história o dinheiro sempre chega antes das pessoas: primeiro a obra, depois o vizinho. Aposto que a Vivi ainda vai se arrepender de ter passado aqu

Uma pista de pouso asfaltada em vinte dias pra um jatinho, no meio da poeira vermelha, me lembra como nessa história o dinheiro sempre chega antes das pessoas: primeiro a obra, depois o vizinho. Aposto que a Vivi ainda vai se arrepender de ter passado aquele número tão fácil. E o Léo com o hidratante labial me fez rir!

Conteúdo da publicação

livro (Querida, Sorria)

Dez dias já haviam se passado desde que Maraíra viajara para os Estados Unidos, e a rotina no interior assumira um ritmo peculiar. Vivi, fiel à sua promessa, visitava o bangalô branco dia sim, dia não. Abria as janelas para renovar o ar, regava as folhagens da varanda e inspecionava o perímetro para garantir que nenhum dos capangas de Igor estivesse rondando a propriedade. No entanto, sua intuição de enfermeira, treinada para notar os menores desvios de padrão em um ambiente, logo a alertou: ela estava sendo seguida.

Não era uma perseguição agressiva ou ostensiva como a dos homens de terno de Igor que Maraíra comentara outro dia. Era uma vigilância discreta, porém constante, operada do interior de uma caminhonete preta, reluzente e robusta, que parecia sempre estacionada a uma distância tática sempre que Vivi ia ao mercado, à farmácia ou ao bangalô de Maraíra.

Dentro da cabine, isolada do calor abafado da região por um ar-condicionado silencioso ajustado para exatos vinte graus, o responsável pela vigilância suspirava. Verificava o reflexo no retrovisor central enquanto o cheiro agradável de couro novo preenchia o ambiente.

O nome dele era Arthur. Aos vinte e seis anos, ostentava a precisão estética de quem crescera em uma cidade cosmopolita, e profissionalmente no epicentro corporativo de São Paulo. Era extremamente bonito, com feições angulares acentuadas por uma camada sutil e impecável de maquiagem masculina — um BB cream de alta cobertura que disfarçava qualquer sinal de fadiga, e sobrancelhas perfeitamente alinhadas. Os cabelos escuros possuíam um corte moderno, modelados com pomada fosca, e suas mãos, que agora tamborilavam impacientes sobre o volante de couro, exibiam unhas meticulosamente aparadas e revestidas com uma base transparente.

Vestindo uma camisa de linho egípcio com caimento sob medida e calças de alfaiataria, Arthur destoava de forma quase gritante do cenário rústico ao seu redor. Ele pertencia à selva de pedra, aos escritórios envidraçados da Avenida Faria Lima, e não à poeira vermelha das estradas daquele lugar.

O som estéreo da caminhonete reproduzia, em um volume elegante, um sucesso de K-pop que ele adorava, trazendo um pouco da sua atmosfera urbana para aquele exílio rural. Arthur trabalhava como secretário particular de Fábio há quatro anos e era seu homem de maior confiança. A missão atual, no entanto, testava os limites de sua polidez.

Ele achava que seu chefe havia enlouquecido com as mudanças motivadas por uma mulher do passado. Arthur investigara a vida do alvo: morava naquele interior há mais de um ano, sozinha. Pelos documentos médicos, havia enfrentado uma doença grave e estava recuperada. Segundo suas investigações, ela passava por um processo de divórcio com um homem rico que estava envolvido com a própria meia-irmã. Mulher chave de cadeia, pensou Arthur. Seu patrão era um dos homens mais ricos do país e poderia ter qualquer mulher. Além de rico, Fábio era bonito, solteiro e sem filhos. Que desperdício, refletia o secretário. Nas últimas semanas, a mulher sofrera um acidente com a irmã e ambas passaram por intervenções médicas, mas a família dela simplesmente comprara o hospital da cidade e as autoridades policiais; ninguém ousava falar sobre o assunto. E, agora, a mulher havia evaporado.

Fábio estava retido no escritório central na capital, administrando seu império do agronegócio e arquitetando sua mudança para o interior. Enquanto isso, Arthur estava ali construindo uma casa, supervisionando o nivelamento de terra para uma pista de pouso para um jatinho particular e com a missão de encontrar a mulher misteriosa que desaparecera. O objetivo do chefe era claro: tornar-se vizinho de Maraíra e ficar próximo, mas aparentando casualidade. Tudo isso por causa daquela ruiva e eu estou nesse fim de mundo empoeirado, pensou Arthur. Para isso, Fábio o incumbira daquela tarefa hercúlea, e descobrir o paradeiro da dona do bangalô era prioridade.

Arthur pausou a música quando viu, através do para-brisa, a figura de Vivi. De mãos dadas com um menino, a enfermeira caminhava a passos duros em direção à caminhonete, levantando uma fina poeira sob o sol forte. Ela não era mulher de se intimidar. Parou ao lado da porta do motorista e bateu no vidro escuro com os nós dos dedos.

Ele baixou o vidro elétrico com um movimento suave, permitindo que o calor da rua invadisse a cabine. Arthur manteve a postura ereta e a expressão profissionalmente plácida.

— Posso ajudá-la, senhora? — perguntou. A voz era polida, grave e desprovida de qualquer traço de sotaque ou informalidade, como se estivesse recepcionando uma cliente em um escritório de luxo.

Vivi apoiou a mão livre na cintura, varrendo-o com os olhos. Notou imediatamente a pele perfeita e as roupas caríssimas. Ele destoava de qualquer pessoa da região.

— Você está me seguindo há três dias, e não está sendo nada discreto. Na farmácia, no supermercado, até no posto de saúde você estava lá, me observando. Eu sei que sou uma mulher muito bonita, mas eu já tenho o meu par. Então, vamos encurtar o seu trabalho: o que você quer? O que você está procurando? Quer me namorar? Você está perdido? Você precisa de alguma coisa? — disparou Vivi, dando uma piscadela irônica para o rapaz, que a olhava tentando processar a metralhadora de perguntas e a franqueza desconcertante.

Arthur não piscou, ligeiramente desconcertado com o jeito aberto e descontraído da enfermeira. Mantendo o tom absolutamente formal, ele abriu a porta e desceu da caminhonete, oferecendo um leve aceno de cabeça acompanhado de um sorriso contido. Antes que ele pudesse formular uma desculpa corporativa, Vivi tomou a frente:

— Tem uma cafeteria ali na esquina. Podemos conversar lá. E o meu nome é Vivi, mas acho que você já sabe. Esse é o meu neto, Léo.

— Arthur. É um prazer, senhora — disse ele, sorrindo cortês.

— Vovó, você não tem medo? — perguntou Léo, olhando para cima.

— Eu? Medo? — Vivi olhou para Arthur e deu um sorriso largo. — Ele é quem deveria ter medo de mim. Vamos, eu adoro café em dias quentes.

— Eu quero sorvete, vovó! — comemorou o menino, animado.

Arthur trancou a caminhonete e os seguiu. Na cafeteria, o aroma encorpado e amadeirado de grãos torrados na hora dominava o ambiente, misturando-se ao zumbido dos ventiladores de teto. Pediram um sorvete para o menino e dois cafés expressos.

— Creio que haja um equívoco de sua parte, não quis assustá-la — iniciou Arthur, acomodando-se na cadeira de madeira com postura impecável. — Sou o responsável pela administração da propriedade em construção do outro lado da estrada, em frente ao bangalô branco. O tráfego de veículos pesados e a obra em andamento me obrigam a supervisionar a área, e a cidade é pequena. — Ele sorriu, acionando o seu charme profissional. — Não foi minha intenção deixá-la constrangida.

— Vó, ele usa batom? — perguntou Léo, observando o secretário.

— É hidratante labial — respondeu Arthur, divertindo-se com a audácia infantil.

Vivi estreitou os olhos, tentando decifrar o rapaz. A desculpa era perfeita, a execução era fria e ele não exalava perigo; exalava perfume importado e era extraordinariamente bonito. Concluiu, intimamente, que ele não representava uma ameaça.

— Administrador, é? — ela retrucou, mexendo o café escuro e fumegante com uma colherinha. — E quem é o seu chefe?

Sem saída elegante que não envolvesse a verdade parcial, Arthur mencionou o nome de Fábio. Imediatamente, a expressão de Vivi mudou. Ela descobriu que o chefe dele era o neto do falecido Seu Agenor. A enfermeira relatou que havia cuidado do idoso até o último momento e mencionou, de forma casual, que Maraíra também estava lá no dia da partida. As peças começavam a se encaixar para ambos.

— Bom, já que agora estamos nos conhecendo — disse Arthur, aproveitando a deixa —, eu gostaria de falar com a dona do bangalô branco.

— Ela está viajando fora do país.

— Ah, que pena. Teria o número do celular dela? Queria muito pedir um favor pessoal até a construção ficar pronta, como somos vizinhos.

Confiando na integridade associada ao neto de Seu Agenor, Vivi não hesitou. Ela ditou o número do telefone de Maraíra sem fazer novas perguntas.

O que se seguiu foram quase duas horas de intensa tagarelice. Um interrogatório velado, de ambos os lados, disfarçado de conversa fiada. Vivi perguntou sobre a vida de Arthur, suas origens, seus pais e onde ele havia estudado. Sondou sobre Fábio, questionando se ele era casado e o que realmente motivara sua vinda para o interior. Em contrapartida, Arthur manobrava as respostas com habilidade diplomática, enquanto extraía os detalhes que precisava sobre a rotina da ruiva.

Mais tarde, Arthur observou a enfermeira se afastar pela calçada com o neto. Ele retornou para o conforto climatizado da caminhonete e, com um leve sorriso de canto de boca, pegou o tablet no banco do passageiro para abrir o aplicativo de mensagens corporativas.

Senhor, tenho novas informações. Ela viajou para fora do Brasil, mas a enfermeira mantém o local intacto para o retorno. A pista de pouso estará asfaltada em vinte dias, a documentação aeronáutica está sendo finalizada e o cronograma da construção segue dentro do esperado, sem atrasos. Segue o número do celular de Maraíra. Aguardamos suas ordens. Posso rastrear o número e verificar onde ela está nesse momento.

A resposta de Fábio apareceu na tela segundos depois:

Não precisa rastrear. Deixe o local seguro para ela, sem que perceba. Não ultrapasse os limites.

Ele leu a mensagem, aumentou o volume da música e engatou a marcha. Tinha toneladas de cimento para inspecionar, e odiava quando seus sapatos acumulavam poeira.

 

Thoughts

  • anogueira52

    O Léo perguntando se o moço usa batom me fez rir alto, criança fala o que o adulto só pensa. Meu neto fez igualzinho com um vendedor de loja uma vez, e a mãe dele quis sumir. E a Vivi, que cuidou do Seu Agenor até o último dia, vai contar pra Maraíra que entregou o número dela?

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  • NunoParreira

    Ao reler reparei que a Vivi deu o número da Maraíra só por o rapaz ser neto do Seu Agenor. Tinha ficado com a ideia de que ela desconfiava dele até ao fim, e bastou um apelido de família.

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  • Oliviamar

    Fui logo à mensagem do fim, como faço sempre. O Fábio a mandar não rastrear sossegou-me mais do que o capítulo todo.

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  • Ovid

    Uma pista de pouso asfaltada em vinte dias pra um jatinho, no meio da poeira vermelha, me lembra como nessa história o dinheiro sempre chega antes das pessoas: primeiro a obra, depois o vizinho. Aposto que a Vivi ainda vai se arrepender de ter passado aquele número tão fácil. E o Léo com o hidratante labial me fez rir!

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  • GasparRibeiro

    Afinal as obras do outro lado da estrada eram mesmo do Fábio, e agora com pista de pouso. Uma pista asfaltada em vinte dias, com a papelada aeronáutica a correr ao mesmo tempo, só se faz com muito dinheiro ou com alguém na prefeitura. Com a família dela a comprar hospital e polícia, aquela terra já tem donos a mais.

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