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CAPÍTULO 09:  A Onça e a Sopa

BELADIA
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livro (Querida, Sorria!)

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livro (Querida, Sorria!)

Uma hora depois, a fúria havia dado lugar à exaustão. Maraíra estava sentada na varanda, calada, com o olhar vazio, o corpo dolorido e os olhos vermelhos do choro. O som de passos se aproximando quebrou o silêncio, fazendo-a mover a cabeça lentamente em direção à voz que a chamava.

— Você quer uma carona? Parece que você está com algum problema.

Maraíra piscou, tentando focar a visão. A dona da voz era Vivi, a mulher que estivera ao seu lado durante todos aqueles meses, com suas roupas coloridas, seu sorriso sincero e sua tagarelice. As feições eram serenas, marcadas por linhas de expressão típicas de quem tem o riso fácil. Por trás dos grandes óculos de grau redondos, olhos castanhos profundos a analisavam com curiosidade. A mulher abriu um sorriso leve, revelando dentes brancos e um pouco desgastados pelo tempo.

Maraíra não percebeu que a estava encarando por tempo demais, até que a mulher se aproximou.

— Oi, você está bem? — Vivi deu alguns passos à frente e ergueu as mãos, fazendo menção de tocar seu rosto. — Está me ouvindo?

— Estou te ouvindo... — rebateu Maraíra, esquivando-se do toque com impaciência e recuando um passo. — Eu surtei. Qual o problema? — falou, dando de ombros com desdém.

Sempre que as lembranças de sua vida passada vinham à tona, Maraíra era tomada por uma raiva profunda de si mesma. Sentia-se culpada por ter sido tão submissa e omissa em tudo o que viveu.

— Meu nome é Vivi, e esse menino lindo aqui é o Manuel, meu neto — respondeu ela, com uma calma inabalável. Rindo, divertida com a situação, a enfermeira a cumprimentou como se fosse a primeira vez que se viam, caminhando despreocupadamente em direção à porta de entrada. — Pelo visto, você lutou a noite inteira contra uma onça, não é? — completou, em tom de humor.

— Ei! — protestou Maraíra, forçando as pernas bambas a segui-la para dentro. — Você não pode entrar assim na minha casa! — reclamou, secretamente envergonhada por deixar a amiga ver como havia destruído o lugar em seu ataque de fúria.

Ignorando os protestos, Vivi, que carregava uma sacola, foi até a bancada da cozinha e começou a tirar alguns recipientes lá de dentro, empurrando a bagunça ao redor para abrir espaço.

— Eu te trouxe sopa hoje. A sopa da minha mãe. Foi essa receita que a fez levantar da cama quando estava doente. Você já está mais corada e com mais forças, agora pode tomar. Você não parece que bebeu... Está sóbria? — perguntou. — A vida da gente, quando estamos lúcidas, é mesmo uma bosta! — Vivi gargalhou alto. — Quando eu fico com raiva... eu não quebro nada. Quando estou com raiva, eu como. Como muito, tenho muita fome. Cada pessoa tem o seu jeito de se expressar, é assim mesmo — completou, rindo novamente.

Maraíra também sorriu.

— É, eu tenho que adquirir esse hábito: comer e não quebrar.

As duas riram juntas.

Assim que Vivi abriu os potes, um aroma rico e temperado invadiu o ar. O estômago de Maraíra roncou de forma quase audível. Estava sem comer nada desde a noite anterior. A madrugada havia sido longa e violenta, sugando todas as suas energias. Agora, isolada, sem carro e com o orgulho engolido pela fome, ela olhou com genuíno interesse para os recipientes que Vivi empurrava gentilmente em sua direção.

Só uma colherada não fará mal, ponderou Maraíra, sentando-se no banco, derrotada por suas próprias necessidades físicas. Já que até o caldo do Tio Zé era bom, não custa experimentar a sopa da mãe.

 — Bom, assim que você terminar, podemos ir — decretou Vivi, satisfeita.

Nesse momento, o menino Manuel entrou na casa. Com os olhos arregalados, varreu o ambiente com a visão e falou em voz alta:

— Nossa, vó, que casa bagunçada! Acho que teve uma briga aqui. Olha, tem muita coisa quebrada.

— Cuidado para não se cortar, Manuel. Vamos esperar lá fora — repreendeu Vivi, suavemente. Antes de cruzar a porta de volta para a varanda, ela olhou por cima do ombro para Maraíra. — Tenho alguns assuntos para resolver. Depois, posso te levar para que você resolva os seus. Pode comer sem pressa, estaremos te esperando.

Maraíra a observou sair e pensou consigo mesma: no meio de todo aquele caos, como era bom ter uma pessoa como Vivi por perto.