CAPÍTULO 01: Murmúrios
Assim que a ambulância estacionou em frente ao bangalô isolado, uma mulher alta e esguia saiu do carro de luxo parado logo atrás. Era Júlia, e sua expressão transbordava um triunfo silencioso.
— Levem a paciente para o quarto — ordenou ela.
Logo em seguida, uma mulher magra, debilitada e sem cabelos foi acomodada na grande cama no interior da casa. Seu corpo esquelético parecia desaparecer em meio aos lençóis brancos.
— Querida, sorria. Você está onde sempre sonhou — murmurou Júlia, inclinando-se suavemente sobre o rosto da irmã acamada.
Maraíra ouvia tudo, mas o extremo cansaço a impedia de abrir os olhos. Apenas sentiu uma picada no dorso da mão quando um enfermeiro, com gestos ríspidos, inseriu um acesso venoso em seu braço. Ao fundo, o ambiente era preenchido por murmúrios indistintos, até que a voz de Júlia soou novamente, enérgica:
— Podem sair.
— Senhora... — interrompeu uma voz calma, chamando a atenção de Júlia. — Ela não pode ficar aqui. Sua irmã deveria estar em uma UTI recebendo cuidados paliativos. Este ambiente não é apropriado.
Presa em seu torpor, Maraíra lutava para focar a visão. Borrões de imagens dançavam à sua frente, enquanto ela tentava se concentrar naquela voz desconhecida e no lenço colorido que a mulher usava nos cabelos.
— Já disse que uma equipe médica chegará a qualquer momento para cuidar da minha irmã — rebateu Júlia, ignorando o aviso. Voltando-se para a cama, sua voz recuperou a doçura de antes: — Querida, você está feliz?
Com um sorriso satisfeito no rosto, Júlia caminhou sem pressa em direção à saída do bangalô. Lá fora, a ambulância que trouxera Maraíra já havia partido, mas a mulher do lenço — Vivi, uma enfermeira rural da região — seguia em seu encalço, insistindo nas reclamações.
Antes de entrar em seu carro importado, Júlia parou e olhou para o céu noturno:
— Que noite agradável, não acha? Deve ser porque aqui, longe de tudo, as estrelas ficam mais nítidas.
— Senhora, estou tentando avisá-la. Trabalho na região e afirmo que este não é o local adequado para a paciente que a senhora trouxe — insistiu Vivi, mantendo a firmeza.
— Já disse! — retrucou Júlia, agora com a voz ríspida e cortante, transbordando impaciência. — Nós, da família, sabemos o que é melhor para ela. — Respirou fundo, tentando retomar a compostura. — Logo a equipe médica que contratei irá aparecer. Pode ir embora. Esta é uma propriedade privada e não me lembro de tê-la convidado.
Júlia ergueu a mão, apontando com desdém para o velho Palio estacionado ali perto.
— Vá embora.
Vivi, cuja paciência já havia dado lugar a uma profunda irritação, não disse mais nada. Entrou em seu carro, deu a partida e arrancou. Pelo retrovisor, viu que Júlia fizera o mesmo e que o carro luxuoso também deixava o local.
O silêncio tomou conta da propriedade. No interior daquele bangalô isolado, a mulher acamada havia sido deixada completamente sozinha.