livro (Querida, Sorria!)
Aos oitenta anos, o corpo de Agenor operava como um relógio cujas engrenagens falhavam, corroídas por um câncer em estágio avançado. A medicina já havia lavado as mãos, recomendando o conforto sedado de uma casa de repouso, mas ele se recusava. Ficar na sua fazenda, ditando o próprio ritmo em meio aos animais e à terra, era a única morfina que sua mente aceitava.
A dor era uma companheira velha. Naquela manhã, ele a ignorou com a mesma teimosia de sempre enquanto acomodava no porta-malas do carro caixas de ovos frescos, frutas do pomar, o leite recém-ordenhado e os pães quentes que a esposa do caseiro preparara. O trajeto até o centro da cidade era longo, mas inevitável. Era a sua penitência diária.
Antes de fechar o porta-malas, seus olhos cansados recaíram sobre uma velha fotografia presa no painel de ferramentas da garagem. Nela, um jovem Fábio sorria montado em um cavalo. O neto era a única ponte viva que restara do seu primeiro casamento. Após a morte da primeira esposa e as segundas núpcias de Agenor, o filho mais velho havia recolhido suas coisas e partido, criando uma distância quase intransponível. Apenas o neto, Fábio, na infância e na adolescência, rompia aquele silêncio, trazendo algum movimento à fazenda durante as férias escolares.
Mas a viagem diária de Agenor para a cidade tinha outro destino vital: a casa da sua caçula, fruto do seu último casamento. Ela nascera quando ele já passara dos quarenta e se tornara a primavera tardia de uma vida inteira de invernos rigorosos.
Ao estacionar em frente à casa na cidade, a rotina se repetiu com exatidão cirúrgica. A empregada abriu a porta e o cumprimentou, e a filha logo apareceu, saudando-o com certa relutância. O cumprimento entre os dois foi cordial, mas mantido a uma distância de segurança. Não houve abraços, não houve toques demorados. A criação brutal que Agenor tivera no campo fora a mesma que ele, infelizmente, replicara dentro de casa: ele sustentou, protegeu, mas nunca soube ser afetuoso. Colhia agora o respeito frio e a mágoa silenciosa que havia plantado durante décadas de desculpas não pedidas.
Contudo, a pesada barreira de gelo se quebrava assim que a porta da sala se escancarava e duas jovens de vinte anos — gêmeas idênticas — corriam pela sala com sorrisos largos.
— Vovô!
O peso dos oitenta anos e as pontadas do câncer desapareciam por alguns segundos quando ele as via. Agenor não era um homem de pedir perdão com palavras. O seu vocabulário emocional era limitado. Para os de fora, era apenas um velho carrancudo que via o afeto como fraqueza, mas ali, diante das netas, ele demonstrava o seu arrependimento da única forma que conhecia: levantando-se de madrugada, ignorando a doença letal que o consumia por dentro, apenas para colocar o suor do seu trabalho na mesa de suas meninas.
Ele sabia que a filha poderia comprar todos aqueles mantimentos no mercado da esquina, pois tinha uma vida financeira muito robusta. Mas no mercado não haveria o sacrifício dele. E o sacrifício era o seu único idioma para dizer que as amava, que a sua filha sempre foi a sua maior alegria.