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Capítulo 12 : A Visita a Agenor

BELADIA
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livro (Querida, Sorria!)

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livro (Querida, Sorria!)

Manoel quis ficar brincando com os netos de dona Francisca, e Vivi prometera voltar para buscá-lo no final do dia. As duas mulheres entraram no carro e seguiram para a próxima visita.

— Afinal, por que você chama o cachorro de Tio Zé? — indagou Maraíra.

— Porque o meu tio tinha uma pinta na perna esquerda, e o cachorro tem a mesma pinta, só que na pata direita. Ele também tem a mesma expressão do Tio Zé quando estava com raiva — disse, rindo.

— Que expressão? — perguntou Maraíra, com curiosidade.

— Ele mostra os dentes! — Vivi gargalhou.

Maraíra riu. Vivi também riu... e juntas seguiram o caminho em uma conversa animada sobre as curiosidades que o cachorro e o Tio Zé tinham em comum.

— Para onde vamos agora? — perguntou Maraíra.

— Vamos à casa de um senhor. É um bom homem, um bom pai, um bom avô.

Maraíra se perdeu em seus pensamentos ao ouvir aquela frase: "um bom homem, um bom pai". O seu próprio pai já havia falecido há muito tempo, quando ela ainda era criança. Tentou lembrar-se do rosto dele, mas não conseguiu; eram lembranças que havia trancado bem no fundo da memória. Lembrar do homem que fora seu pai a fazia sentir-se triste e desamparada, motivo pelo qual evitava pensar nele. Havia escondido todas as fotos que possuía dele. Era um passado que preferia manter enterrado.

Quando chegaram ao destino, depararam-se com uma casa de fazenda branca, de janelas azuis e com uma varanda ao redor. Logo ao estacionar, Vivi avistou o senhor Agenor sentado em uma cadeira de balanço e, imediatamente, percebeu que ele não estava bem, os caseiros  estava preocupado, em pé a sua volta.

 A enfermeira puxou o freio de mão e saiu do carro, correndo em sua direção. Seu Agenor respirava com extrema dificuldade. O corpo magro, debilitado pela doença, o fazia parecer ainda menor encolhido naquela cadeira de balanço.

Vivi correu apressada para dentro da casa em busca do telefone via satélite, na esperança de chamar uma ambulância. Não havia muito o que fazer naquele momento, a não ser tentar garantir a ele o conforto de um hospital em seus últimos instantes.

Maraíra saiu do carro e caminhou com passos lentos em direção à varanda. A cada passo, parecia que o silêncio tomava conta do ambiente; podia ouvir nitidamente a respiração ruidosa e pesada do senhor na cadeira. Os olhos de Agenor se encontraram com os de Maraíra. Ela sentiu uma pontada no coração e segurou a respiração de forma involuntária, como se percebesse que a morte, naquele exato momento, estivesse ali, tocando-o.

— Querida, você veio... não queria partir sem te dizer... — a voz dele era baixa, pausada. — Não tenha medo, querida.

Ele ergueu levemente a mão esquerda, fazendo um gesto para que Maraíra se aproximasse.

— Querida... me desculpe.

Seus olhos estavam fixos em Maraíra. A expressão era de absoluta suavidade, embora a respiração se tornasse cada vez mais espaçada e pesada.

— Querida, você foi a minha primavera... me desculpe.

Com passos lentos, Maraíra se aproximou, agachou-se à frente dele e segurou a sua mão.

— Está tudo bem — falou com sinceridade. — Eu te perdoo.

Maraíra engoliu o choro e apertou com delicadeza as mãos do senhor que a chamava. Aos poucos, a luz dos olhos dele foi se apagando. Uma brisa fria balançou suavemente as folhas da planta pendurada em um vaso na varanda; o vento continuou farfalhando as folhagens, traçando um caminho invisível em direção às copas das árvores e, por fim, ao céu.

Maraíra levantou-se lentamente, com os olhos fixos no horizonte. O céu estava azul-celeste, pintado com algumas nuvens brancas. Seu coração se apertou, mas a sensação era a de que, de alguma forma, uma corrente que a prendia havia se rompido dentro dela. Seus olhos estavam marejados de lágrimas, mas ela não iria chorar.

O perdão que concedera ao velho senhor que acabara de falecer foi, também, um perdão ao passado que ela tanto tentou enterrar — um passado que a amarrava como uma âncora em alto-mar, puxando-a sempre para o fundo, para a escuridão de seu próprio interior.

 

 

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