livro (Querida, Sorria!)
O silêncio no Palio cinza era denso, mas não opressivo. Era o silêncio de quem havia acabado de testemunhar o fim de um ciclo. Vivi dirigia com o olhar focado na estrada de terra, enquanto Maraíra, no banco do passageiro, mantinha o rosto voltado para a janela. A imagem de Agenor e a luz se apagando de seus olhos ainda estavam vivas em sua mente. A morte, que ela buscara em diversos momentos de sua vida, não se revelou da maneira que imaginava. Diferente de tudo o que idealizara, a morte havia se mostrado calma, serena e amorosa, como uma porta que se abre vagarosamente. O perdão concedido foi a soleira que ela finalmente atravessou.
O rádio comunicador perdido no porta-luvas do carro de Vivi — uma ferramenta essencial para as áreas rurais sem sinal de celular — chiou de repente, quebrando a quietude.
— Vivi? Na escuta? Aqui é o Sargento Moraes — a voz metálica soou urgente.
Vivi pegou o rádio com uma das mãos, apertando o botão.
— Na escuta, Moraes. O que houve?
— Recebemos um chamado de emergência no bangalô novo, lá na encosta. Um granfino, que diz ser o marido da dona, acionou a viatura. A porta estava escancarada, a casa toda revirada, móveis quebrados. Ele deu queixa de sequestro.
Vivi suspirou pesado, trocando um olhar de soslaio com Maraíra, que franziu o cenho ao ouvir a história.
— Cancela a ocorrência, Moraes. Não tem sequestro nenhum — respondeu Vivi, com a paciência de quem lida com crianças. — A dona do bangalô está aqui no meu carro, vivinha da silva. Tivemos uma emergência na rota. O seu Agenor descansou. Estamos voltando para o bangalô agora. Chegamos em dez minutos.
— Entendido, Vivi. Meus sentimentos pelo seu Agenor. Vou avisar o granfino lá no bangalô para baixar a guarda. — O rádio ficou mudo.
Maraíra sentiu o estômago revirar. Pedro. A última pessoa que ela queria ver no mundo naquele momento. O universo de Pedro girava em torno de status, controle e aparências — exatamente o mundo que a havia adoecido.
— Parece que a sua onça interior deixou marcas grandes demais na casa e assustou a visita — comentou Vivi, quebrando o gelo, enquanto o carro vencia a última curva antes da propriedade.
Quando o bangalô surgiu no campo de visão, a cena era caótica. O SUV importado de Pedro Correia estava estacionado de qualquer jeito no gramado. Pedro aguardava na varanda, com as mãos enfiadas nos bolsos do terno caro; suas roupas de grife impecáveis destoavam completamente daquele cenário rural. Quem não o conhecesse, pensaria que ele estava calmo. Mas Maraíra sabia: quanto mais contido na superfície, mais furioso por dentro ele estaria.
Assim que o Palio amassado de Vivi parou, Pedro tirou as mãos dos bolsos e observou a esposa. Maraíra usava um vestido florido simples e os cabelos curtos. Ainda estava magra, mas a antiga apatia já não existia em seu rosto.
Maraíra abriu a porta e desceu lentamente. O cansaço físico e emocional pesava em seus ombros, pois o dia tinha sido longo e carregado de emoções intensas. Ela já aprendera a não esperar afeto ou demonstrações genuínas de preocupação do marido. E Pedro, fiel à sua natureza, não demonstrou nenhum sinal de alívio por ela estar viva.
O que veio foi uma avalanche.
— Maraíra! Entre! — ordenou Pedro de forma pausada, apontando em direção à porta aberta, a voz aguda cortando o ar pacífico da tarde.
Maraíra, no entanto, continuou parada no cascalho.
— Você perdeu o resto do juízo que tinha? — continuou ele. — Eu dirijo por horas até esse fim de mundo, encontro a sua casa destruída, roupas no chão, cacos de vidro! Achei que você tivesse sido roubada ou sequestrada!
Vivi saiu do carro, cruzando os braços e encostando na porta do Palio. Estava pronta para intervir se necessário, mas decidiu apenas observar o casal entrar na casa e fechar a porta atrás de si.
— Eu estou bem, Pedro. Sei que não perguntou... Apenas... saí para espairecer — respondeu Maraíra, a voz rouca, tentando manter a calma no interior destruído da sala.
— Você está bem? Olha para você! — Pedro apontou o dedo, o rosto vermelho de indignação, lutando para controlar a voz e a raiva diante da constatação de que ela parecia bem melhor do que na última vez em que a vira no hospital. — Cheirando a poeira, andando no carro dessa... dessa gente! — Ele lançou um olhar de puro nojo em direção à janela, referindo-se a Vivi. — Você está doente, Maraíra! Eu deveria ter te internado em um hospício! Foge para o meio do mato para encher a cara e me faz passar por esse vexame! Você não tem consideração por ninguém? Sabe o escândalo que seria se isso vazasse na imprensa? A grande louca vivendo no meio do nada... Seria melhor se você já estivesse morta, mas ainda está aqui!
A cada palavra cruel, Maraíra o lia com clareza. Pedro era mestre em distorcer a verdade. Ali, encarando-o, ela teve a absoluta certeza de que ele fora conivente com sua meia-irmã, largando-a naquele bangalô para que morresse de inanição ou overdose.
Maraíra lembrou-se das mãos calejadas de Agenor. Lembrou-se de dona Francisca sorrindo na varanda. Lembrou-se do peso da morte e da fragilidade da vida. Foi então que uma epifania a atingiu: é você quem dá às pessoas o tamanho e o peso que elas terão na sua vida. Sempre será você quem decidirá quem é importante e quem não é.
Todo o drama de Pedro pareceu subitamente patético. Minúsculo. Irrelevante.
A corrente que havia se rompido dentro de Maraíra horas atrás não deixou espaço para a submissão de sempre. Ela não abaixou a cabeça. Não engoliu as lágrimas e não pediu desculpas, como fizera a vida inteira.
— Chega — a voz de Maraíra saiu baixa, mas firme.
— Como é que é? — Pedro zombou, cruzando os braços. — Você faz esse circo todo e diz "chega"? Sua ingrata, vagabunda! — gritou ele, caminhando em direção a ela com fúria.
— EU DISSE CHEGA!
O grito rasgou a garganta de Maraíra com uma ferocidade que atravessou as paredes e ecoou pelas montanhas ao redor. Até Manuel, que dormia no banco de trás do carro lá fora, mexeu-se assustado. O som carregava meses de angústia, luto e raiva reprimida.
Pedro deu um sobressalto, arregalando os olhos, paralisado pelo choque. A esposa moribunda, submissa e deprimida havia sumido. No lugar dela, havia uma mulher com os olhos em chamas.
— Vá embora, Pedro — ordenou Maraíra, o tom agora frio e cortante como gelo. — Eu não pedi a sua visita. Não pedi o seu resgate e muito menos os seus julgamentos. Você não sabe nada sobre mim. Não sabe nada sobre a vida! Pegue o seu carro e suma da minha propriedade. Agora!
O silêncio que se seguiu foi absoluto. Pedro abriu a boca para rebater, mas a firmeza assassina no olhar de Maraíra o impediu. O homem de grife engoliu em seco, sentindo a brusca mudança de poder. Sem dizer mais nenhuma palavra, virou as costas, abriu a porta e caminhou a passos duros até o seu SUV. Bateu a porta do veículo com força e arrancou, levantando a mesma poeira que antes desprezava.
Maraíra ficou ali, parada no umbral, observando o carro desaparecer na estrada de terra. Seu peito subia e descia rapidamente, mas a mente estava perfeitamente clara. Pela primeira vez em muito tempo, a casa estava destruída, mas ela se sentia inteira.
Vivi desencostou do Palio, um sorriso discreto e orgulhoso brincando no canto dos lábios.
— É... — murmurou a enfermeira, caminhando até a caçamba para pegar sua bolsa térmica. — Parece que a sopa da minha mãe fez efeito mesmo. Mas não vou oferecer ajuda para varrer os cacos lá dentro. Foi você quem quebrou, então, você que limpe.
Vivi piscou, sorrindo, e entrou em seu velho Palio.