livro ( Querida, Sorria!)
O trajeto não seguiu em direção ao asfalto como Maraíra imaginava. O velho Palio cinza de Vivi sacolejava violentamente pelas estradas de terra batida da zona rural, levantando uma nuvem de poeira por onde passava. No banco do carona, Maraíra segurava-se na alça do teto com uma mão e, com a outra, repousava um lenço nas narinas, sentindo cada solavanco reverberar em seu corpo dolorido. Enquanto isso, o pequeno Manuel estava sentado tranquilamente no banco de trás, imune ao balanço.
— Para onde estamos indo? A cidade fica para o outro lado — questionou Maraíra, a voz áspera, ainda sentindo o gosto reconfortante da sopa da mãe de Vivi.
— Eu disse que te levaria à cidade depois de resolver os meus assuntos — respondeu Vivi, sem tirar os olhos dos buracos na estrada. — Sou a enfermeira do posto da comunidade. Agente de saúde rural. Tenho uma rota de pacientes que não podem ir até o posto, e sexta-feira é dia de entregar os remédios controlados.
Maraíra franziu o cenho, olhando para a mulher ao volante. Ela nunca havia andado de carro popular na vida, nunca tinha andado em uma estrada de terra batida, muito menos feito visitas a pessoas doentes.
— Você vai me obrigar a visitar doentes com você?
Vivi freou bruscamente o carro. Uma nuvem de terra invadiu o veículo de imediato. Maraíra tossiu, inalando o ar grosso e cheio de poeira que entrou pelas frestas.
— Se você quiser, te deixo aqui. Quando passar outro carro, você pode pedir carona — falou a enfermeira, calmamente.
Diante do silêncio e da absoluta falta de opções, Maraíra cedeu.
— Ok, então vamos fazer o que precisamos fazer — disse ela, abanando com as mãos a densa poeira que teimava em pairar no ar.
Percebendo que Maraíra não estava disposta a ficar ali no meio do nada, Vivi deu partida novamente no carro, com um sorriso vitorioso no rosto.
— Você não deve ter mais nada de urgente para fazer mesmo, então não tem por que se preocupar com horários. Existe um mundo além do seu. Você precisa ver como a vida aqui é — Vivi respondeu, com uma franqueza que não abria espaço para debates.
O carro diminuiu a marcha ao se aproximar de uma pequena propriedade. O lugar era modesto, mas extremamente bem cuidado. Havia um pomar ao fundo e algumas galinhas ciscando perto de uma cerca de madeira. Vivi puxou o freio de mão e alcançou uma bolsa térmica no banco de trás.
— Fique aqui, se quiser. Vou ver a família da dona Francisca. — O tom de Vivi mudou, tornando-se mais brando e um tanto afetuoso. — É um casal de idosos que faz acompanhamento no posto.
Maraíra olhou pela janela empoeirada. Na varanda da casa simples, sentada em uma cadeira de balanço, estava uma senhora tricotando. Duas crianças apareceram na janela sorrindo, e um senhor vestido de calça social e chapéu de palha surgiu na porta.
Era uma bela imagem, um retrato perfeito da fragilidade e da resistência. Os ombros curvados do senhor carregavam o peso da idade, mas seu rosto exibia um sorriso largo e receptivo. A pele trazia as marcas de sol e do tempo; as mãos, grandes e calejadas, contavam a história de uma vida de lida na lavoura. Quando ele viu o carro de Vivi, levantou-se prontamente para recebê-la.
De dentro do carro, Maraíra assistia à cena em silêncio. Uma fisgada aguda em seu próprio peito a lembrou do surto de fúria e destruição que tivera na noite passada, e ela se sentiu pequena, quase infantil. A vida e o afeto pulsavam de forma genuína naquela varanda. Parecia uma cena de novela rural: os avós, a casa modesta e acolhedora, os dois netos correndo.
A visita transcorreu bem. Vivi fez todos os procedimentos que deveria: mediu a pressão e a glicose dos idosos, deu orientações sobre os medicamentos e agendou os dias dos próximos exames.
O sítio de dona Francisca emanava um acolhimento ímpar. As crianças brincavam sorridentes ao redor, e a conversa animada entre a senhora e a enfermeira evocava um profundo sentimento de pertencimento. Observar aquela atmosfera tão simples, mas tão rica em amor e união, trouxe à mente de Maraíra lembranças dolorosas de um passado distante, de uma família que ela nunca teve a chance de viver daquela maneira.