livro (Querida, Sorria!)
Quando o pacote de Luíza chegou, alguns dias após a ligação, o bangalô deixou de ser apenas um refúgio e tornou-se uma verdadeira base de operações.
Maraíra sentou-se à mesa de madeira rústica, abriu o laptop e conectou o disco rígido. A tela iluminou seu rosto, refletindo linhas intermináveis de planilhas de fluxo de caixa, balancetes de verificação e os relatórios de auditoria que o Dr. Assis havia enviado em anexo.
Seus olhos correram pelas colunas com a precisão de um cirurgião. Ela conhecia a fundo os princípios da controladoria financeira. Sabia que mentiras contadas em jantares de gala desapareciam no ar, mas fraudes financeiras sempre deixavam um rastro matemático. A matemática não sofre, não sente pena e não tem moral.
Ela filtrou as contas de despesas operacionais da holding familiar, cruzou os dados de provisões e analisou as movimentações atípicas nos últimos dezoito meses. O que Marta e Pedro chamavam de "reestruturação de ativos", os olhos treinados de Maraíra rapidamente traduziram para o termo real: evasão estruturada e caixa dois. Havia notas fiscais superfaturadas de consultorias fantasmas e desvios mascarados como adiantamento de lucros.
Documentos estratégicos não eram apenas papéis; eram armas carregadas. E, sentada no meio do silêncio das montanhas, com a DRE (Demonstração do Resultado do Exercício) aberta na tela, Maraíra finalmente encontrou o calcanhar de Aquiles do marido e da mãe.
A vingança não precisava de gritos. Precisava apenas da quebra de sigilo bancário certa. O dinheiro constrói e destrói uma vida. Tudo de que ela precisava era rastrear o seu destino e assumir o controle; assim, ninguém mais ousaria querer machucá-la.
Os documentos não expunham apenas as empresas de Pedro, mas também as de sua mãe, do seu padrasto e toda a movimentação financeira de sua meia-irmã. Maraíra descobrira verdadeiros tesouros ilícitos. Havia uma conta nas Ilhas Cayman e diversas holdings financeiras abertas de forma obscura.
Para mascarar os desvios da empresa principal, Pedro havia criado essas holdings — que nada mais eram do que empresas "casca", shell companies, criadas não para vender produtos, mas exclusivamente para administrar o patrimônio e ocultar a identidade dos verdadeiros donos do dinheiro. E, de forma ainda mais ardilosa, ele havia registrado essas empresas em paraísos fiscais: países com leis rígidas de sigilo bancário e isenção de impostos, onde o dinheiro sujo entra e desaparece do radar do governo.
O detalhe mais cruel, no entanto, estava nos contratos. No passado, Pedro a havia feito assinar diversas procurações, dando-lhe plenos poderes para administrar todos os bens imóveis e financeiros. Sem que ela soubesse, ele a usou como "laranja" em todas essas holdings fantasmas. Caso a Receita Federal ou a Polícia descobrissem a sonegação e o desvio de capitais, não seria Pedro quem iria para a cadeia. Seria Maraíra.
Uma calma profunda tomou conta dela ao absorver mentalmente toda aquela informação.