livro (Querida, Sorria!)
Era uma manhã de segunda-feira. Vivi estava na casa de janelas grandes, em estilo bangalô. Há algumas semanas, o telefone do posto de saúde da comunidade tocara e uma forasteira informara que havia chegado uma mulher doente ao recém-construído bangalô na zona rural.
Vivi tornou-se responsável por fornecer alimentação e assistência à estranha recém-chegada. Com a hidratação à base de soro e vitaminas, a paciente havia apresentado melhora. O médico da região fizera uma visita e, diante do quadro favorável, prescreveu um tratamento conservador, focado na hidratação contínua, até que o responsável enviasse o histórico clínico ou houvesse alguma piora que justificasse a remoção para um hospital. Assim, resolveram deixá-la no bangalô, sob os cuidados da enfermeira.
Algumas semanas se passaram. A saúde da estranha havia melhorado o suficiente para que conseguisse levantar e caminhar sozinha, mas agora ela passava as madrugadas se embebedando. Sempre que Vivi entrava na casa, encontrava a mulher jogada em algum canto, desmaiada de tanto ingerir bebida alcoólica. "Ela melhorou o suficiente para sair da cama apenas para beber até apagar", pensava Vivi, desanimada. Alguns dias antes, os documentos enviados ao posto de saúde alegavam que a mulher estava com câncer terminal, mas, pelo visto, ela morreria primeiro de tanto beber.
Vivi observava a mulher deitada no sofá: estava extremamente magra e tinha os cabelos muito curtos, possivelmente por causa dos remédios agressivos da quimioterapia, mas possuía um rosto muito bonito. Era alta, esguia... mesmo debilitada, continuava sendo uma mulher atraente.
— Ei — chamou-a —, você está bem? Está viva? Consegue me ouvir, me entender? Recebi o seu histórico médico. Você tem câncer? Os remédios chegaram e estão aqui, mas você não está tomando. Você quer ir ao hospital? Está sentindo dor? Você é adulta, está aqui sozinha, você está bem?
— O quê? — balbuciou Maraíra. — Quem? Sim, estou bem. Não, não quero ir ao hospital — falou, esfregando o dorso da mão no rosto.
— Ah, você está acordada. Ó, vou deixar o caldo aqui. Já tem uns dois dias que trago e vejo que está tomando... Eu fiz muito esse caldo para o Tio Zé. Foi o que o salvou. Ele era como você, estava com os dois pés na cova. Mas esse caldo o salvou.
O caldo era um alimento cozido com várias verduras, legumes e carnes por várias horas; tinha muito sabor e vitaminas. Vivi falava sem pausas.
Maraíra abriu os olhos, tentando encontrar a dona da voz que falava sem parar... Piscou várias vezes. A luz do dia entrava pelas janelas grandes da casa, deixando tudo muito claro. Ela se inclinou e tentou levantar do sofá onde estava deitada, mas perdeu o equilíbrio e caiu no tapete macio que ficava no chão.
— Ai... — sussurrou Maraíra, com pouca paciência.
— A sua secretária disse que você está com câncer, mas, do jeito que bebe, vai morrer primeiro de cirrose... Bebe mais que o homem da cobra! Seu sangue deve ser só álcool. Mas o caldo que eu faço vai deixá-la mais forte.
— Você não para de falar... — reclamou Maraíra, sentando-se no sofá. Tinha a sensação de que tudo estava rodando.
Uma voz de criança soou fora do bangalô:
— Vó, vamos embora!
— Já vou! Não grite, menino! — respondeu Vivi, gritando de dentro da casa. — Cuidado com o Tio Zé, não quero que ele entre.
Maraíra olhou pelas janelas e viu um menino de uns oito anos, vestido de short e camiseta. Havia um cachorro sem raça definida sentado ao seu lado, olhando para dentro da casa. Procurou com mais atenção o senhor que era chamado de Tio Zé, mas não viu ninguém além do menino com o animal.
— Eu já vou indo. O caldo está em cima da mesa. Amanhã volto e trago mais alguma coisa para você comer. E veja se não morre de tanto beber!... Tenho que deixar o Tio Zé em casa. Ele não pode ficar andando por aí na idade em que está, mas é tão teimoso — falava Vivi, aproximando-se da porta para ir embora.
— Quem é Tio Zé? — murmurou Maraíra, deitando-se novamente no sofá para dormir.
— É o meu cachorro — falou Vivi, fechando a porta atrás de si.
Maraíra viu apenas as costas de Vivi, que passou e encostou a porta. Vivi era morena, uma mulher de pequena estatura, mas corpulenta — deveria ter um metro e cinquenta de altura —, tinha costas largas, usava uma camiseta colorida, saia na altura dos joelhos e um lenço de cetim no cabelo.
Um pensamento veio à mente de Maraíra: Essa sopa que ela traz é a mesma que ela faz para o cachorro dela?