livro (Querida, Sorria!)
O silêncio reinou na sala iluminada após a saída intempestiva de Igor. A matriarca cruzou as mãos sobre a mesa, inabalável.
— Então, minha "querida" filha, você quer negociar comigo. O que você tem a oferecer?
Maraíra abriu a bolsa, tirou um envelope pardo e o jogou sobre a mesa.
— Você comprou este hospital? — perguntou Maraíra.
— Sim — respondeu Marta, impassível. — Está em fase final de aquisição.
— Eu não serei internada hoje. E, neste momento, só você, Marta, pode rasgar aquele papel — explicou Maraíra com frieza, apontando para o laudo psiquiátrico.
Marta abriu o envelope e começou a folhear o dossiê. Eram provas irrefutáveis da vida extraconjugal de Igor: fotos nítidas, comprovantes financeiros, faturas de hotéis de luxo. Maraíra abriu o seu melhor sorriso envenenado.
— A sua filha querida, que está logo ali no quarto se recuperando, sempre soube da segunda família do pai. Ela frequenta a casa da amante. Que fofo, não é? Pura lealdade, amor verdadeiro... Só que não com você.
Marta estremeceu de leve, visivelmente abalada com a revelação de estar sendo traída duplamente pelo marido e pela enteada, mas lutou bravamente para manter a compostura.
— Você acha que me mostrar que sou traída vai te salvar do manicômio? — forçou um sorriso, embora seus olhos queimassem de fúria contida.
— A vergonha de ser exposta para toda a alta sociedade, sim — rebateu Maraíra. — Imagina a fofoca do seu círculo social... A filha internada como louca e o marido sustentando uma amante de anos. Apartamentos, carros, cartões de crédito, almoços de família. Imagine suas amigas no clube lendo sobre isso no café da manhã?
Maraíra sentiu uma pontada no peito, mas o alívio a preencheu quando percebeu que a mãe já estava calculando o peso da humilhação pública se tudo fosse revelado. Num rompante de fúria, Marta varreu os papéis para fora da mesa.
— Você acha que pode me ameaçar com isso?! Você finge ter câncer, suborna médicos por laudos falsos e agora vem aqui jogar esse lixo na minha cara?! Acha mesmo que alguém vai acreditar em uma mulher louca e delirante como você?! Teria sido bem mais fácil se você realmente estivesse com um câncer terminal!
Maraíra soltou uma gargalhada fria, desprovida de qualquer emoção.
— Não estou te ameaçando. Estou negociando. Você é inteligente, Marta. Acha mesmo que eu inventaria ou forjaria tudo isso?
Ela levou a mão à bolsa novamente, tirou o segundo envelope e o deslizou lentamente sobre o tampo de madeira.
— Ele está te roubando. E eu tenho o caminho do dinheiro. Ele está dilapidando o seu patrimônio corporativo. Quando você não tiver mais um centavo, sabe o que ele vai fazer com você?
Marta puxou o segundo envelope de forma abrupta. Seus olhos corriam apressados, repletos de ódio, lendo as planilhas financeiras, as transferências para a holding offshore em paraísos fiscais, as contas nas Ilhas Cayman e as escrituras de imóveis no nome da outra mulher.
— Eu não vou para um hospício, e você lida com esse assunto em segredo. Ambas saímos ganhando. Não é um ótimo acordo? Se recusar e mandar me internar, uma pessoa de minha extrema confiança vai espalhar todas essas informações na imprensa e nos sites de fofocas, e a estabilidade da sua economia pode ser abalado, com queda das ações. Com fotos e extratos bancários vazados, será o escândalo corporativo do ano e o seu fim social... acho que você não terá mais coragem de colocar os pés no clube.
Marta respirava com dificuldade. A máscara de controle impecável rachara. E, através daquela rachadura, ela olhou para Maraíra. Pela primeira vez em décadas, ela conseguiu, de fato, ver a filha.
— Aliás, o Pedro não veio visitar a amante toda quebrada? — debochou Maraíra.
— Quem é você? — Marta sussurrou, os olhos cravados nos dela. A mulher sentada à sua frente, decidida e calculista, definitivamente não era a menina fraca e chorona que pedia desculpas por tudo.
— Você sabia que a sua enteada preferida me dopava há anos, trocando meus remédios? — Maraíra inclinou-se para a frente, diminuindo o espaço entre as duas. — Aquela zumbi submissa de quem você lembra nunca fui eu. A mulher que está sentada na sua frente é a verdadeira Maraíra. Temos um acordo ou não? — falou decidida. — Pois eu não estou brincando. Não tenho nada a perder. E você, Marta? Tem?
Marta ficou ali por uns instantes, olhando para a filha, perguntando-se silenciosamente quem era aquela mulher. Para onde fora a menina chorona e medrosa que criara? Ela voltou a olhar para o dossiê e para as comprovações de que estava sendo roubada. Levantou-se da poltrona executiva e caminhou em direção às fotos que estavam jogadas no chão. Abaixou-se e pegou uma imagem onde os três — Júlia, a amante e o marido — apareciam sorridentes em um jantar luxuoso.
O sangue subiu ao seu rosto em uma onda de calor. Como ele ousa me expor assim em público, pensou Marta, amassando a foto com violência em seu punho cerrado.
A matriarca engoliu em seco, como se estivesse processando e calculando o peso de cada ação que tomaria dali para a frente. Olhou novamente para o dossiê das fraudes financeiras, encarou Maraíra e, então, puxou o laudo que atestava a insanidade da filha.
Lentamente, Marta o dobrou ao meio e o rasgou em vários pedaços, deixando-os cair sobre a mesa.
Maraíra entendeu pelo gesto que o acordo estava selado. Ela se levantou da cadeira e caminhou em direção à porta. Quando sua mão, ainda machucada, tocou a maçaneta gelada, ela parou. Olhou por cima do ombro e encarou a mulher, que já voltara a folhear os extratos do roubo com afinco.
— Mãe — chamou Maraíra.
Marta estava tão imersa no ódio do próprio dossiê que não fez sequer menção de ter ouvido a palavra.
— Marta — chamou Maraíra, alterando para um tom de voz firme e imperativo.
Desta vez, a matriarca ergueu levemente a cabeça.
— Não se envolva no meu divórcio. Abstenha-se. Eu irei resolver o meu lado.
Marta deu um meio sorriso, frio e cínico.
— Você parece estar em plenas condições de resolver seus próprios problemas.
Maraíra abriu a porta. Os dois seguranças bloquearam a sua passagem imediatamente, mas apenas um gesto de mão da matriarca fez os homens recuarem. Ela cruzou o corredor, deixando para trás a figura que por uma vida inteira chamou de mãe.
A sensação de libertação foi absoluta. Não havia mais dor, rejeição, culpa ou senso de abandono. A mulher trancada naquela sala, devorando as planilhas com sede de vingança, era apenas Marta. Uma estranha.
— O inimigo do meu inimigo é meu amigo — murmurou Maraíra baixinho para si mesma enquanto caminhava pelo longo corredor do hospital. — Ou algo parecido com isso — completou com um sorriso triunfante.