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Capítulo 32: Os Cavalos

BELADIA
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livro (Querida, Sorria!)

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livro (Querida, Sorria!)

Com o número de telefone internacional em mãos, Arthur não perdeu tempo. Precisava estabelecer a rede de proteção ao redor do bangalô branco antes que qualquer retaliação provocasse danos físicos à dona da propriedade. Ele não permitiria que a ruiva sofresse nenhum revide, mas enfrentava um dilema estratégico: como protegê-la sem ultrapassar os limites e sem que ela percebesse? Uma ideia começou a surgir em sua mente. Recursos financeiros não eram problema, e matéria-prima também não faltava, visto que estava supervisionando a gigantesca construção de uma mansão, um haras e uma pista de pouso para jatos particulares logo do outro lado da estrada. Precisaria apenas alocar os recursos humanos adequados e, claro, conseguir o mais difícil: a autorização da dona do bangalô.

Do conforto de sua caminhonete climatizada, o secretário executivo discou. Chamou até cair na caixa postal. Ciente de que uma mulher cautelosa como ela jamais atenderia um número não salvo no exterior, Arthur recorreu ao plano alternativo. Ligou para Vivi.

Quando Maraíra finalmente atendeu ao telefone em Nova York, a voz era a da enfermeira, demonstrando uma urgência forjada.

— O Arthurzinho está tentando te ligar e você não atende! — exclamou Vivi. — Ele precisa de um favor e quer pagar bem por isso. O maquinário da obra está estressando os animais dele. Ele quer usar aquele seu pasto murado da entrada sul para abrigar dois cavalos por algumas semanas.

Maraíra, concentrada em liquidar o império do marido em Wall Street e ciente de que o pasto estava ocioso, não viu motivos para recusar. O dinheiro extra era irrelevante, mas manter uma boa relação com a vizinhança parecia prudente. Por um breve instante, a imagem do homem de ombros largos que lhe dera carona na estrada cruzou seus pensamentos. Se nos tivéssemos conhecido em outra ocasião, sem todos os problemas que me cercam..., refletiu, afastando a distração. Ela autorizou a entrada dos animais e incumbiu Vivi de supervisionar.

Na manhã seguinte, o plano foi executado com precisão militar.

Vivi aguardava na varanda, impressionada. Como Arthur havia pré-fabricado toda a estrutura de madeira na fazenda de Fábio do outro lado da estrada, a montagem do galpão no terreno de Maraíra levou apenas algumas horas. Em seguida, um trailer de transporte equino de última geração estacionou suavemente, escoltado pela caminhonete preta. O secretário desceu impecável, vestindo uma camisa polo e óculos escuros de grife, contrastando de forma gritante com a rusticidade da operação.

De dentro do veículo de apoio desceram sete homens. Três deles imediatamente se dirigiram aos cavalos com a delicadeza e a perícia técnica de tratadores experientes, acalmando os animais após a viagem. Os outros quatro assumiram exclusivamente o trabalho braçal: carregavam fardos pesados de feno, descarregavam ferramentas e inspecionavam as cercas.

Aos olhos comuns, formavam uma equipe rural completa, mas Vivi notou uma postura atípica naqueles quatro ajudantes de serviço pesado. Os músculos sob as camisas xadrez eram densos, forjados em treinamentos táticos, não na enxada, e seus olhos varriam constantemente o perímetro.

Arthur coordenou a descida dos dois majestosos cavalos de pelagem tordilha. Enquanto os homens finalizavam a instalação do galpão, Vivi e Arthur caminharam até a divisa da propriedade para inspecionar a porteira de ferro que havia sido recém-colocada pelos trabalhadores, substituindo o antigo acesso livre.

— Deixarei estes sete rapazes responsáveis pelo local, dona Vivi — explicou Arthur, baixando o tom de voz. — Três são profissionais especialistas para cuidar exclusivamente da rotina dos animais. Os outros quatro ficarão responsáveis pela manutenção pesada do galpão e das cercas.

— Você é realmente impressionante — elogiou Vivi, avaliando a robustez da nova estrutura. — Fez tudo isso em tão pouco tempo.

— E a senhora pensando que eu era apenas um rosto bonito? — retrucou Arthur, dando uma discreta piscadela para a enfermeira. — Não sou apenas um terno bem cortado.

Três tratadores reais para os cavalos de meio milhão, e quatro operadores táticos disfarçados de peões braçais para a segurança pessoal da ruiva, pensou o secretário, calculista, antes de retomar a postura estritamente profissional:

— Eles ficarão alojados estritamente nos fundos. Instalarão microcâmeras nas árvores perto da porteira para monitorar a entrada através de telas, sem precisarem circular pela frente da casa. A dona Maraíra não será incomodada. Na verdade, ela mal notará que eles existem.

Antes que Vivi pudesse processar o nível de vigilância tecnológica embutido no discurso polido de Arthur, o som agressivo de pneus freando na estrada de terra rasgou o silêncio da manhã.

Uma SUV prata, coberta de poeira e com os vidros escurecidos, atravessou-se em frente à divisa, encarando a recém-instalada porteira de ferro com interfone e câmera. Quatro homens desceram do veículo. Três deles eram capangas robustos de terno barato. O quarto homem era Igor.

Após passar as últimas duas semanas apagando incêndios na mídia e contendo a fúria dos acionistas devido ao vazamento do escândalo de Júlia — que ainda estava com o rosto machucado —, o padrasto finalmente tivera fôlego para caçar a arquiteta da desgraça de sua filha. Enfrentando o caos no casamento com Marta, Igor viera pessoalmente para arrastar Maraíra de volta à capital. Ele pretendia trancafiá-la em um manicômio e dar-lhe o fim que merecia.

O líder do trio de capangas caminhou até o portão, forçando o trinco de ferro, enquanto Igor se posicionava logo atrás.

— Onde está a Maraíra? — exigiu Igor, a voz carregada de autoridade e impaciência. Ele tinha certeza de que a encontraria sozinha e vulnerável naquela propriedade rural.

Vivi colocou-se à frente, bloqueando a visão.

— Ela está dormindo — mentiu Vivi, sustentando o olhar. — Eu não vou deixar ninguém passar. O senhor pode ir embora. Ela tomou remédios e está descansando.

— Abram essa porcaria! — gritou o líder dos capangas, agressivo.

— Vim buscar a mulher que mora aqui. Eu sou da família! — vociferou Igor, sacudindo a grade.

Vivi sentiu o estômago despencar e deu um passo para trás, instintivamente agarrando a porteira de ferro.

— Ela é uma mulher adulta e capaz. Não vou acordá-la. Volte outro dia — disse a enfermeira, tentando manter a firmeza enquanto mentia.

Arthur, que estava próximo a Vivi, não alterou a expressão plácida. Ele apenas fez um aceno quase imperceptível com a cabeça aos quatro homens que haviam caminhado em direção à SUV quando ela estacionou.

A transformação foi instantânea. Enquanto os três tratadores permaneceram no estábulo recém-construído para garantir que os cavalos não se assustassem, os quatro falsos ajudantes braçais moveram-se com uma sincronia assustadora. Em menos de cinco segundos, formaram uma barreira humana impenetrável entre a porteira e a rua. Não sacaram armas de fogo, pois isso quebraria o disfarce rural, mas a ameaça física que projetaram foi esmagadora.

Um deles, um homem de quase dois metros de altura e ombros largos como uma porta, segurava um ancinho de metal longo. Ele não o empunhava como um fazendeiro, mas atravessado na diagonal, como um fuzil de assalto em posição de prontidão.

— Vocês estão assustando os animais — disse o homem alto, a voz soando como um trovão baixo e controlado. — A senhora aqui disse para voltarem outro dia. Afastem-se. Agora.

O capanga de Igor riu com escárnio e levou a mão por baixo do paletó em um claro gesto de intimidação, sinalizando que estava armado.

— Saiam da frente, roceiros. O assunto não é com vocês. Nós vamos entrar.

A resposta foi silenciosa e letal. Os quatro seguranças de Fábio avançaram dois passos simultâneos em direção à grade, as expressões vazias de qualquer emoção. O líder deles fixou os olhos no capanga armado com uma frieza predatória.

— O senhor está ameaçando uma propriedade privada e colocando em risco cavalos de meio milhão de dólares — o segurança informou, em tom clínico. — Dê mais um passo e nós quebraremos todos os ossos da sua mão antes que consiga puxar o gatilho dessa arma. Entrem no carro e desapareçam.

A tensão tornou-se palpável, densa o suficiente para ser cortada. Os homens de Igor hesitaram. Eram capangas acostumados a intimidar pessoas indefesas, mas perceberam imediatamente que a desvantagem tática ali era fatal. Aqueles quatro homens não eram fazendeiros; eram profissionais treinados para matar.

Igor, percebendo que seus próprios homens haviam recuado diante da barreira, ferveu de ódio. O dinheiro superava a força bruta, e ele sabia o valor de um cavalo puro-sangue.

— Isso não acabou! — esbravejou Igor, com os dentes cerrados, antes de virar as costas.

Os quatro entraram na SUV, arrancando de forma brusca e deixando para trás apenas uma nuvem espessa de poeira avermelhada.

Atrás da grade, os seguranças relaxaram a postura militar instantaneamente. Puxaram as abas dos chapéus de palha para esconder os rostos e voltaram às suas funções de limpeza do terreno, como se nada houvesse acontecido.

Vivi respirava de forma ofegante, o coração batendo na garganta. Arthur caminhou até ela, retirando um lenço de linho do bolso para limpar um vestígio invisível de poeira da própria roupa.

— A senhora está bem, Vivi? — perguntou ele, o tom perfeitamente equilibrado. — Peço desculpas pelo transtorno. Algumas pessoas simplesmente não sabem ouvir um "não". Fique tranquila, meus rapazes são muito zelosos com o perímetro. Ninguém ultrapassará este portão sem a sua autorização.

Vivi olhou de Arthur para os homens robustos trabalhando silenciosamente. A intuição da enfermeira apitava com força total. Ela tinha inúmeras perguntas para o secretário, mas aquele não seria o momento apropriado.

Ela deu um sorriso cúmplice, recuperando o fôlego, e selou um pacto não verbal com Arthur. Quando Maraíra chegasse, as duas iriam conversar e descobrir quais eram as verdadeiras intenções de Fábio. Por ora, ele havia protegido a amiga. Vivi deixaria que a ruiva acreditasse que eram apenas peões tímidos e dedicados, garantindo assim a segurança que ela teimava em não pedir.

O bangalô branco acabara de se tornar a fortaleza mais impenetrável da região.

 

 

Thoughts

  • LeandroPocas

    O Arthur a piscar o olho à enfermeira no meio da montagem do galpão! Este secretário ainda vai dar que falar.

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  • GasparRibeiro

    Com a câmara do interfone já montada, a matrícula da SUV prata ficou gravada logo na primeira manhã. Se o Arthur é tão calculista como parece, amanhã já sabe em nome de quem está o carro.

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  • Ovid

    O ancinho atravessado na diagonal como um fuzil me fez pensar em como essa série esconde a força em coisa comum: o secretário de camisa polo, os seguranças de camisa xadrez, agora um galpão de cavalos virando fortaleza. Aposto que o Igor volta com mais gente e descobre tarde demais de quem é aquele pasto. Obrigado por seguir com ela!

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  • BiaCastelo

    Dois tordilhos num pasto murado e sete homens pra cuidar deles, quem trabalha em fazenda sabe que essa conta não fecha. Três tratadores até vai, mas quatro só pra feno e cerca não. A Vivi percebeu na hora, e aposto que a Maraíra percebe no primeiro dia de volta de Nova York. Mulher que desmontou o império do marido não vai engolir peão tímido.

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