livro (Querida, Sorria!)
Com uma habilidade natural e silenciosa, Fábio moveu-se. Ele se posicionou exatamente em frente à mesa, usando a própria estrutura larga para criar um bloqueio visual perfeito, impedindo que os homens a vissem lá embaixo. Sem encontrar quem procuravam, os capangas saíram rapidamente em seu encalço.
Fábio esperou até que desaparecessem na rua e, então, puxou a cadeira, sentando-se à mesa de frente para ela. Maraíra emergiu, segurando a bolsa contra o peito, e o fuzilou com um olhar desconfiado.
— A chuva ainda continua — disse ele, o tom baixo para não chamar atenção. — Se você aceitar, posso te dar uma carona até onde você precisar ir.
Ela pensou por um momento, a respiração ainda acelerada. Pela vitrine, ainda dava para ver as costas dos seguranças entrando e saindo das lojas vizinhas.
— Aceito. Vamos! — disse Maraíra de supetão, levantando-se.
Fábio levantou rápido e a acompanhou até o carro estacionado mais à frente. Já dentro do veículo, protegida pela lataria e pelo motor que roncava baixo, ela indicou a direção do bangalô. Percebendo a tensão aguda e o nervosismo que enrijeciam a postura dela, Fábio decidiu intervir com a única arma que tinha: a normalidade.
Começou a falar de forma descontraída. Comentou que havia comprado algumas propriedades ali perto, que estavam em fase de construção, e brincou sobre como era complicado achar um arquiteto que quisesse subir até aquela região da serra. Descreveu os tons do pôr do sol no vale e a tranquilidade da paisagem.
Durante os primeiros quilômetros, Maraíra entrava na conversa apenas para dar respostas curtas e pontuais. Fábio não foi invasivo; deu espaço e silêncio sempre que ela parecia se retrair, permitindo que ela relaxasse no próprio tempo. Funcionou. No meio do trajeto, a barreira de gelo havia derretido consideravelmente. Sem perceber, Maraíra já havia esquecido a perseguição e os acontecimentos tensos no hospital. Envolvida pela conversa sobre obras e paisagens na serra, ela até se permitiu opinar sobre o tema e logo já conversava animada com ele sobre as belezas escondidas daquele local, a afetuosidade das pessoas e como, surpreendentemente, havia feito bons amigos por ali, ressaltando como aquela região possuía um inegável fator de cura.
Quando a robusta caminhonete RAM de Fábio parou em frente ao bangalô branco — o refúgio seguro que ela mesma havia projetado e reformado para ser o seu santuário —, o som da chuva já havia se transformado em uma garoa fina.
Maraíra destravou o cinto de segurança e já levava a mão à maçaneta para abrir a porta, quando a voz grave dele quebrou o silêncio confortável que havia se instalado na cabine.
— Meu nome é Fábio.
Ela virou-se para trás, olhando-o por cima do ombro. Ele a observava com um sorriso leve, mas inegavelmente sedutor. Foi um gesto tão simples e direto que fez o coração de Maraíra errar uma batida traiçoeira. A máscara de frieza e controle absoluto, que ela usara como armadura para enfrentar a mãe e o padrasto o dia inteiro, escorregou por uma fração de segundo. Em seu rosto, formou-se uma expressão de genuína surpresa, com os lábios levemente entreabertos e os olhos ligeiramente arregalados, revelando uma vulnerabilidade que poucos conheciam.
Dando-se conta de que, em meio a fugas, chuvas e seguranças, eles haviam cruzado a cidade juntos sem sequer se apresentarem formalmente, a guarda dela baixou de vez. Ela soltou a maçaneta da porta e virou o corpo de frente para ele, os lábios se curvando em um sorriso tímido e verdadeiro.
— Maraíra — respondeu ela, a voz saindo mais suave do que o habitual. — O meu nome é Maraíra.
O sorriso dele se alargou, os olhos castanhos brilhando com uma diversão contida e um brilho de admiração indisfarçável.
— Que coincidência, Maraíra. Parece que serei o seu vizinho. — Ele apontou pelo para-brisa. — A minha propriedade fica bem ali, do outro lado da estrada.