livro (Querida, Sorria!)
O amanhecer no bangalô trouxe uma calmaria que Maraíra não se permitiu desfrutar por muito tempo. O encontro com Fábio na tarde anterior e a revelação de que seriam vizinhos foram cuidadosamente guardados em uma gaveta isolada de sua mente. Havia uma guerra em andamento, e o flerte, por mais instigante que fosse, não poderia ofuscar o seu cronograma.
A primeira fase do plano — desestabilizar a matriarca e impedir a internação compulsória — fora concluída com sucesso. No entanto, ela não se daria ao luxo de esperar pela benevolência da mãe ou de Pedro; se houvesse uma próxima vez, não teria a mesma sorte. Maraíra agora tinha a certeza de que os inimigos sabiam de sua lucidez e do fingimento com os laudos do câncer. Aquilo era um trunfo nas mãos deles. Era o momento de construir sua armadura definitiva e neutralizá-los.
O carro de Vivi estacionou em frente ao bangalô. A enfermeira desceu com um sorriso, cumprimentando a amiga. Maraíra, que a aguardava na varanda, ofereceu-lhe um café. Enquanto a água fervia no fogão, foi direto ao ponto.
— Eu vou viajar por alguns dias — iniciou Maraíra. — Já havia planejado essa viagem para daqui a alguns meses, mas, por tudo o que aconteceu, terei que ir agora.
— Para onde você vai? — perguntou Vivi, encostando-se no balcão.
— Para os Estados Unidos. Não quero que ninguém saiba e preciso que me dê cobertura, caso apareça alguém aqui me procurando. Venha ao bangalô algumas vezes para regar as plantas, abrir as janelas e, se por acaso alguém vier me procurar, por favor despiste.
Vivi olhou para Maraíra com seriedade, a postura relaxada desaparecendo.
— Você está com medo?
— Não, não estou com medo — respondeu Maraíra, suspirando de forma controlada. — Pensei que poderia viver aqui e esquecer o passado, mas ele veio bater à minha porta. Certas dívidas nós temos que pagar, e outras, temos que cobrar. — Ela fez uma pausa, o olhar endurecendo. — E eu também estou ficando sem recursos financeiros. O meu digníssimo marido bloqueou todos os cartões e as contas bancárias que ele administra. Ainda tenho algumas reservas que estão no meu nome, e preciso resolver esses assuntos pessoalmente.
— É... — Vivi concordou, respirando fundo. — Uma mulher com dinheiro pode tudo; uma mulher sem dinheiro é só uma mulher. Eu te dou cobertura. Afinal, você ainda está com essas mãos machucadas. O que uma mulher machucada faria de tão perigoso? — Ela gargalhou, enquanto Maraíra lhe servia o café fresco.
Três dias depois, Maraíra estava sentada na poltrona da primeira classe de um voo noturno rumo aos Estados Unidos. A viagem, adiantada à força, ocorreu em absoluto sigilo. O trajeto até o aeroporto, os trâmites de embarque e a travessia sobre o oceano foram apenas um borrão funcional em sua mente, um meio necessário para um fim inegociável.