A Lucia a estender a mão e não chegar, isso ficou-me na cabeça. Aposto que a Hadria vai deixar o assassino escapar para tirar o príncipe daquela mão. E os lobos do tridente não vieram por acaso, alguém de fora os mandou.
Capítulo 03 : Encontre a Morte
Pensamento
A Lucia a estender a mão e não chegar, isso ficou-me na cabeça. Aposto que a Hadria vai deixar o assassino escapar para tirar o príncipe daquela mão. E os lobos do tridente não vieram por acaso, alguém de fora os mandou.
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livro (trinta dias para a última lua)
O mundo demoníaco era tão vasto que poderia demorar séculos para mapear todos os reinos que existiam ali. E, mesmo que se terminasse de catalogá-lo, o trabalho teria de ser refeito; seria preciso recomeçar. Guerras extinguiam espécies enquanto outras nasciam. Era um mundo construído pelo caos e pela morte, onde sempre havia uma espécie querendo subjugar a outra. A força e a magia eram os únicos meios de garantir a segurança e a soberania de um povo.
Do lado de fora do castelo, Hadria observava os lobisomens saltando o muro com agilidade. Eles não pertenciam a nenhuma alcateia da região — e ela conhecia todas. Aqueles invasores vinham de longe e carregavam uma marca sinistra: uma insígnia em forma de tridente queimada na pata esquerda.
Apesar da origem desconhecida, lobos sempre seguiam as mesmas regras. Viviam em bando e obedeciam a um líder. Mate o Alfa, e o bando se dispersará, pensou ela.
Preocupada, Hadria tomou a decisão de proteger sua amiga Lucia antes de ir ao portal. Para isso, resolveu primeiro observar quem estava ganhando a luta no pátio e encontrar uma brecha.
O cenário lá embaixo era um banho de sangue. Surpreendentemente, os vampiros estavam perdendo a batalha. A ferocidade dos lobisomens do tridente era avassaladora; eles atacavam em fúria cega, arremessando os guardas do castelo contra as paredes de pedra e rompendo as defesas vampíricas. No meio do caos absoluto, os humanos escravizados corriam em desespero, mas não havia piedade para eles. Lobos gigantescos saltavam sobre os servos, rasgando sua carne e despedaçando-os impiedosamente no chão do pátio, em meio a gritos de terror.
Sem aguentar mais assistir àquilo, Hadria escalou a pedra e pulou o muro alto, aterrissando com leveza no pátio mergulhado em carnificina. Seus olhos varreram o caos, desviando de corpos e presas, até encontrarem o que procurava.
Lucia.
A humana corria aos prantos, desviando de um corpo caído. Quando viu Hadria, seus olhos se arregalaram de alívio e ela estendeu a mão, correndo na direção da amiga.
Mas ela nunca chegou.
Em uma fração de segundo, o ar zumbiu. Um vulto negro cortou a distância e um vampiro de primeira classe apareceu de repente na frente da humana. Sem hesitar, com um movimento letal e preciso, ele cravou a mão nua no peito de Lucia. O som de ossos quebrando ecoou acima do rugido da batalha. Quando o vampiro puxou o braço de volta, o corpo de Lucia caiu inerte no chão.
Na mão do vampiro, o coração da garota ainda batia, pulsando e escorrendo sangue por entre os dedos pálidos dele.
O choque durou apenas um milésimo de segundo antes que uma fúria incandescente e cega tomasse conta de Hadria. Seus olhos brilharam. O vampiro esmagou o coração, jogou-o de lado e disparou em direção às portas do castelo, movendo-se em uma supervelocidade que o tornava um borrão imperceptível para olhos comuns.
Mas Hadria não era comum. Impulsionada pelo ódio de ter perdido a amiga, ela disparou atrás dele. A garota igualou a velocidade absurda da criatura, quebrando a barreira do vento enquanto atravessavam os corredores sombrios do castelo, lado a lado com a morte.
O vampiro entrou abruptamente em uma ampla sala medieval de teto abobadado, cujos arcos pontiagudos eram sustentados por pilastras grossas de pedra negra que se erguiam como imensos ossos ancestrais. Hadria derrapou no piso de mármore escuro, cujos veios prateados refletiam a parca luz dos enormes candelabros de ferro fundido, e entrou logo atrás dele, pronta para despedaçá-lo.
O salão majestoso era um monumento à própria vaidade e ao poder daquela linhagem. As paredes de pedra estavam cobertas por quadros colossais e pinturas detalhadas que retratavam a história da família do Rei Vampiro. Ancestrais de pele pálida, vestes de veludo carmesim e olhares frios pareciam observar a invasão. Cada pintura imortalizava séculos de soberania, com figuras aristocráticas de presas à mostra e semblantes severos, julgando silenciosamente qualquer um que ousasse pisar ali.
No fundo do recinto, ofuscando qualquer outra obra do lugar, repousava um espelho colossal — o portal.
Sua moldura não era feita de pedras preciosas, mas de uma madeira escura e quase petrificada, proveniente de uma árvore extinta nas Terras Negras. Os detalhes entalhados formavam raízes retorcidas, gárgulas e símbolos arcanos que se entrelaçavam perfeitamente. Aquela obra-prima não havia sido feita por marceneiros, mas esculpida à mão e imbuída de poder por um antigo mestre feiticeiro, séculos atrás. A relíquia milenar pulsava viva; as runas da madeira giravam em magia pura, emitindo uma tênue luminescência violeta que distorcia o próprio ar ao seu redor.
Porém, a cena diante dela a fez travar no lugar. O vampiro assassino havia parado e feito uma mesura. No centro da sala, de pé em frente ao portal, estava outro vampiro de primeira classe. E, erguido no ar por uma única mão que apertava brutalmente sua garganta, estava o jovem príncipe. Com seus aparentes quinze anos, o filho do Rei Vampiro tinha os pés balançando no vazio. Ele agarrava o pulso do seu agressor, tentando se desvencilhar do estrangulamento sem conseguir respirar, lutando uma batalha já perdida.
Thoughts
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PermalinkAquele espelho de madeira petrificada no fundo do salão, com as runas a girar em violeta, me fez pensar nos jogos antigos em que a saída fica sempre atrás do chefe final. Aposto que a Hadria vai ter de escolher entre o assassino da Lucia e o príncipe pendurado, e o portal fica para depois. Obrigado por continuar a série!
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PermalinkA Lucia a estender a mão e não chegar, isso ficou-me na cabeça. Aposto que a Hadria vai deixar o assassino escapar para tirar o príncipe daquela mão. E os lobos do tridente não vieram por acaso, alguém de fora os mandou.
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