livro (trinta dias para a última lua)
O silêncio dentro da cabana era ensurdecedor. As árvores gigantes cobriam o céu, projetando uma sombra densa e escura sobre o telhado rústico. Hadria andava de um lado para o outro, os passos abafados pelo chão de madeira velha. Em um canto escuro, Luiz continuava mergulhado em um sono profundo e um pouco febril, alheio a tudo.
Miriah havia sido clara: não coloque os pés para fora. Mas a obediência nunca fora o ponto forte de Hadria. Sua mente estava a mil. Ela sabia que precisava encontrar o colar azul para salvar Rowan antes que a última lua chegasse. Segundo as antigas lendas de lobisomens que ouvira nas aldeias próximas à Montanha Branca, seu amigo não conseguiria se transformar porque as cordas mágicas de bloqueio que Hadria carregava desde o nascimento haviam sido anexadas ao corpo dele, por culpa dela, já que insistira em entrar naquela caverna. A primeira transformação de um lobisomem acontece próximo aos quinze anos. Rowan já havia completado a idade e o ciclo lunar decisivo se aproximava rapidamente; faltavam menos de vinte e três dias. A Grande Biblioteca do Ninho — o único lugar que poderia conter o pergaminho com a localização exata do artefato — não ficava muito longe dali, mas sua jornada não estava saindo como o planejado; tudo dava errado e levava mais tempo do que o previsto.
Ela olhou pela fresta da janela. A densa floresta negra parecia tranquila, mergulhada nas sombras das folhas colossais.
— Volto antes que ela perceba. Rowan não tem todo esse tempo. Aguenta firme, Luiz, volto logo — sussurrou Hadria para si mesma, ou para o corpo desacordado de Luiz.
Com a agilidade furtiva de quem passou a vida fugindo, ela abriu a porta rangente e esgueirou-se para fora. O cheiro de terra úmida e enxofre invadiu seus pulmões. Guiada pelo instinto, pelo mapa do Ninho que trouxera da Montanha Branca e pela magia que formigava intensamente no ar, ela caminhou por quase uma hora entre os troncos gigantescos.
À medida que se aproximava, o ardor mágico no ambiente se tornou quase palpável. O ar cheirava a eletricidade estática, a feitiços seculares e ao peso do poder cru encravado na terra. Foi então que a imponente estrutura da biblioteca surgiu em seu campo de visão.
A rocha escarlate contrastava violentamente com a paleta sombria das árvores negras que a circulavam, erguendo-se imponente a partir da base de um desfiladeiro profundo que separava Hadria da porta entalhada na pedra. Por fora, ao longe, parecia uma montanha de pedras vermelhas, com uma pequena porta escura entalhada como a boca de um abismo guardando os segredos mais antigos do mundo. Como não havia uma ponte, ela teria que pular. A fachada da montanha estava coberta por entalhes ancestrais — glifos de proteção complexos e figuras cravadas de dragões alçando voo, esculpidas com tamanha perfeição que pareciam respirar junto com a pedra. Cravada bem no centro dessa estrutura em rocha escarlate, a porta da biblioteca aguardava Hadria.
Hadria sorriu, vitoriosa. Deu um passo para trás para ganhar impulso e pular, mas parou abruptamente.
O ar ao seu redor de repente ficou insuportavelmente quente e denso. Um zumbido baixo e vibrante fez o chão sob suas botas tremer, sacudindo as pedras da montanha. Antes que ela pudesse olhar para cima, uma sombra engoliu a clareira.
O bater de asas foi como o estouro de um trovão. Um dragão de escamas cor de chumbo, eriçadas como lâminas afiadas e marcadas por cicatrizes de batalhas antigas, pousou pesadamente entre ela e a entrada da biblioteca. Ele era gigante e lindo — pensou Hadria, hipnotizada com a proximidade em que estava daquele dragão e alheia ao perigo iminente. As copas das árvores ao redor balançavam com o vento produzido pelas asas da fera; alguns galhos cederam e estalaram sob a força da ventania. O cheiro de enxofre e morte exalava de suas narinas a cada respiração pesada.
Hadria instintivamente se preparou para a fera reconhecê-la; afinal, ela era uma bruxa negra. Deu dois pequenos passos para a frente e estendeu a mão para alcançar o dragão, aguardando o grunhido de submissão.
Mas a submissão não veio. A fera abaixou a cabeça maciça, curiosa, as narinas dilatando violentamente enquanto farejava o ar de forma frenética. O colar de pedra branca brilhava fraco sob o casaco da garota. O feitiço de camuflagem estava funcionando perfeitamente e, somado às cruéis amarras mágicas que circulavam sob a sua pele, anulava por completo a sua essência. Ela parecia apenas um ser demoníaco comum e insignificante.
O dragão não sentiu o cheiro da herdeira do trono. Ele sentiu apenas o cheiro de um animal demoníaco fraco.
Os olhos reptilianos, de um amarelo-ouro envelhecido e faminto, fixaram-se nela com malícia predatória. O monstro abriu a bocarra, revelando fileiras duplas de dentes escuros do tamanho de espadas, e soltou um rugido estrondoso que gelou a espinha de Hadria. Ela ficou paralisada com o eco do som do dragão, que abrira a boca e grunhira estrondosamente à sua frente, a poucos centímetros de sua mão estendida. O brilho de um fogo avermelhado e letal começou a irradiar no fundo da garganta da fera, iluminando as escamas do pescoço com um tom vermelho e alaranjado intenso.
Os olhos de Hadria se arregalaram e um pensamento lhe veio: Eu sou a presa. O coração de Hadria falhou uma batida.