livro (trinta dias para a última lua)
O corpo de Luiz acordou e tentou se levantar. Ele estava sozinho em uma cabana velha. Onde estava Hadria? Seu corpo doía por estar se transformando em pedra; a dor era dilacerante e a velocidade da transformação havia diminuído, mas algo estava muito errado desde que mordera Hadria e sugara seu sangue. Eram visões de um passado ou era um sonho? — pensou Luiz. O seu corpo estava reagindo de maneira nada convencional para um vampiro.
Sob a pele pálida, sentia as mudanças se alastrando: suas mãos formigavam e repuxavam, e as escamas de pedra começavam a se fundir de um jeito novo. Seria efeito colateral por estar se transformando em pedra ou é pelo sangue de Hadria? — pensou. Algo não estava certo; ele nunca sentira aquilo antes, como se um calor brutal e abrasador estivesse redesenhando sua carne. Sendo as bruxas feitas da mesma escuridão primordial dos dragões, o sangue dela agia como brasa viva em suas veias. O sangue de Hadria é um veneno para mim? — questionava-se Luiz em sua mente...
O seu coração, que costumava ser frio, começou a bater violentamente no peito, trazendo uma sensação de queimação, como se fogo estivesse devorando suas entranhas. Ele se retorceu de dor, sentindo como se algo grande e vivo estivesse crescendo e se moldando dentro dele.
Ele tentou mais uma vez se apoiar no braço para levantar, mas a cabana rodopiou violentamente. Fechou os olhos, segurando a ânsia.
— Que sentimento é esse? Eu estou enjoado — concluiu Luiz, apoiando a cabeça contra o assoalho velho da cabana com os olhos fechados, concentrando-se em analisar o ambiente, o cheiro do lugar e buscar ameaças à volta...
Um redemoinho começou a se abrir e Luiz caiu dentro dele. Era escuro, seu corpo sentiu frio, muito frio, e ele se deixou guiar pelas trevas. Uma luz aos poucos começou a brilhar e uma imagem apareceu; o corpo de Luiz já não doía e ele não sentia mais náuseas.
O vento suave do entardecer acariciava sua pele, trazendo o frescor das alturas e o aroma ancestral da terra. O céu, inicialmente de um azul limpo e sereno salpicado por leves nuvens brancas, começava a se render ao espetáculo do crepúsculo: um vermelho profundo rasgava o firmamento em pinceladas vibrantes de alaranjado e dourado, como se os deuses tivessem derramado fogo líquido sobre as nuvens. Um dragão de trinta metros de majestade repousava ao seu lado, as escamas titânicas refletindo o rubor do poente. A fera girou lentamente a cabeça maciça, revelando olhos dourados e profundos que fixaram-se diretamente em Luiz com uma curiosidade magnética.
Onde eu estou? Esta planície não é nas terras demoníacas? pensou Luiz, confuso.
— Você veio — dizia ela com voz calma, virando-se para encarar Luiz.
A mulher vestia túnicas negras tradicionais das bruxas montadoras de dragão — um tecido denso e escuro, tecido com fios encantados para resistir ao vento cortante das alturas e ao calor das chamas, adornado com runas ancestrais costuradas com linha prateada que piscavam fracamente à luz do crepúsculo. Sobre ela, levava uma capa escura que balançava com a brisa. Os cabelos alvos, trançados em imponentes tranças, desciam firmes até a cintura. Nas pernas, usava calças de couro reforçado e botas de montaria altas, maleáveis e cravadas com pequenas fivelas de ferro escurecido, desenhadas especificamente para garantir firmeza e aderência nas escamas titânicas da sela. Era a mesma figura das outras visões de Luiz.
Ao encará-la de perto, Luiz sentiu o fôlego escapar de seus pulmões em um sobressalto: era Hadria adulta. Ele a reconheceu de imediato pela inconfundível e impressionante semelhança. No rosto dela, um sorriso triste desenhava-se suavemente.
Vamos — ela disse com autoridade, e tudo começou a ficar escuro novamente.