livro (trinta dias para a última lua)
A tensão foi subitamente quebrada por um feixe ofuscante. Uma flecha de luz branca rasgou o ar e cravou-se no chão, a milímetros das botas da líder das bruxas.
Ela parou imediatamente e olhou para o alto. Do topo do desfiladeiro, um homem descia vagarosamente, levitando em meio à escuridão, envolto em uma aura de luz. A figura impunha um terror silencioso. Com a sua descida, o vento da tempestade parou; foi como se um manto opressor, espesso e pesado estivesse caído sobre todos. Um silêncio mortal pairou no ar, como se todas as criaturas próximas estivesse com medo, entendessem que, se respirassem, poderiam atrair a atenção do cavaleiro para si.
Ele vestia uma armadura branca e perolada, entalhada com runas angélicas que pulsavam em um brilho divino e opressivo, o exato oposto da energia das Terras Negras. Em suas mãos, ele não segurava um arco comum, mas uma arma forjada de pura energia luminosa, cujas cordas crepitavam com magia crua.
Junto com a descida do guerreiro, um cheiro inebriante e extremamente doce empesteou o ar. O que a princípio parecia uma magia sedativa espessa, logo revelou sua verdadeira natureza. Atrás das bruxas, um dos dragões soltou um gemido arrastado e tombou no chão, profundamente adormecido.
Os outros dois dragões começaram a cambalear, com as pálpebras pesando sob o efeito esmagador do pólen da flor do anoitecer. Essa planta rara existia exclusivamente no Reino do Sul, desabrochando apenas em noites de lua cheia no topo da Montanha do Amanhecer. Não se tratava de feitiçaria; era o pólen concentrado, forte o suficiente para adormecer feras colossais por alguns minutos. O homem que acabara de chegar estava preparado para o encontro com as bruxas negras e seus dragões.
— O que três pequenas bruxas negras fazem tão longe do Ninho? — perguntou o desconhecido, com uma voz aveludada, mas carregada de arrogância letal.
— O que um Bruxo do Sul faz tão longe de casa? — rebateu a líder, a petulância mascarando a tensão da batalha iminente. — Como você ousa fazer meu dragão adormecer?!
Mentalmente, ela já gritava ordens de batalha. As íris das três garotas mergulharam na escuridão absoluta e suas garras se alongaram. Elas formaram uma parede entre o bruxo e os dragões adormecidos.
Dentro do escudo, Hadria e Luiz apenas observavam. O vampiro apertou os olhos. O Bruxo do Sul usava o uniforme de elite do exército solar; ele não estava ali por acaso.
— O Reino Demoníaco é livre para todas as criaturas. Estou apenas... caçando — sorriu o bruxo, mas seus olhos mortais desviaram das bruxas e travaram diretamente em Hadria, do outro lado do campo de batalha.
O coração da menina falhou uma batida. Em pânico, ela levou as mãos ao pescoço. Sua pele estava nua. O colar com a pedra branca não estava lá. Sem o colar, nada poderia protegê-la. O Bruxo do Sul sabia quem ela era, e é por isso que ele havia vindo e estava ali.
— Luiz... precisamos ir — sussurrou Hadria, a voz trêmula de terror, enquanto agarrava o braço de Luiz com força.
O vampiro olhou para o rosto da garota iluminado pela luz dourada do escudo. Ele conhecia Hadria. Ela não temia escorpiões, lobisomens, vampiros ou outros seres demoníacos, mas aquele homem de luz a deixara em pânico absoluto.