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Talvez o Amor Seja Só um Nome

Alguem
Pensamento

Pensamento

mcardoso41

Tive um ano em casa em que não havia interesse nenhum, nem desejo, nem admiração, nem conversa, e dormi meses no quarto pequeno. Pela lógica do texto o amor tinha deixado de existir. Voltou, ou nunca saiu, e não sei com que nome esteve guardado entretanto

Tive um ano em casa em que não havia interesse nenhum, nem desejo, nem admiração, nem conversa, e dormi meses no quarto pequeno. Pela lógica do texto o amor tinha deixado de existir. Voltou, ou nunca saiu, e não sei com que nome esteve guardado entretanto. Não sei se isto serve a mais alguém, em minha casa serviu.

Conteúdo da publicação

— Você acredita em amor?

— Acredito.

— Tá. Mas o que é amor?

— Como assim?

— O que é, de verdade? Porque a gente fala “eu amo você” como se soubesse exatamente o que está dizendo.

— Acho que é se importar de verdade com alguém.

— Mas esse amor é de quem? Meu ou da pessoa que eu amo?

— De quem sente, eu acho.

— Então, se eu amo você, o amor é meu. Você nem precisa me amar.

— Sim.

— E se amanhã eu parar de sentir?

— Então deixou de existir.

— Pra mim, pelo menos.

— É.

— Então talvez não seja amor. Talvez seja só interesse.

— Interesse?

— É. Eu me interesso por você enquanto alguma coisa em você me desperta algo. Beleza, desejo, carinho, companhia, admiração… Se isso muda, o sentimento pode mudar também.

— Mas isso parece mais desejo do que amor.

— Qual é a diferença?

— Amor é mais profundo.

— Mas o que significa “mais profundo”? Porque profundidade não necessariamente muda a natureza de uma coisa.

— Então você acha que amor é interesse?

— Acho que pode ser. Talvez a gente pegue um monte de sentimentos diferentes — desejo, apego, carinho, necessidade, admiração — e coloque tudo dentro de uma palavra só.

— Amor.

— Exatamente.

— Mas você não acha que dá pra amar alguém sem receber nada dela?

— Dá.

— Então não é interesse.

— Por quê?

— Porque você não está ganhando nada.

— Mas eu ainda quero alguma coisa.

— O quê?

— Que ela fique bem.

— Mas isso não é querer algo pra você.

— Não. Mas ainda é querer.

— Então, pra você, até desejar o bem de alguém é interesse?

— Talvez não seja interesse no sentido comum. Mas continua sendo um desejo meu.

— E o amor também precisa ser cuidado. Se duas pessoas param de conversar, de se ouvir, de demonstrar carinho… uma hora pode acabar.

— Isso não significa que nunca foi amor.

— Eu sei. Uma música acabar não significa que ela nunca tocou.

— Então você admite que algo pode acabar e ainda assim ter sido verdadeiro.

— Sim.

— Então talvez o problema seja outro.

— Qual?

— Talvez a gente espere que o amor seja eterno para considerá-lo verdadeiro.

— Pode ser.

— Mas ainda não entendi sua ideia. Se amor é interesse, qual seria a diferença entre amar alguém e simplesmente querer alguma coisa dela?

— Talvez esteja no que você quer.

— Como assim?

— Se eu quero alguém pelo dinheiro, pelo corpo, pelo sexo ou pelo status, estou interessado no que ela pode me dar.

— E se eu quero que ela seja feliz?

— Aí ela já não é apenas aquilo que pode me oferecer.

— Mas ainda importa pra mim.

— Sim.

— Então ainda existe interesse.

— Talvez.

— Então voltamos ao começo.

— Não exatamente.

— Por quê?

— Porque talvez amor não seja o oposto do interesse. Talvez seja uma forma diferente dele.

— Uma forma mais bonita?

— Talvez.

— Então o amor seria só uma palavra que inventamos para tornar nossos interesses mais nobres?

— Essa é uma possibilidade.

— E você não acha isso meio triste?

— Acho mais triste precisar que o amor seja algo mágico para acreditar que aquilo que sentimos foi verdadeiro.

— Então você não sabe o que é amor?

— Não.

— E mesmo assim acredita nele?

— Acredito no que as pessoas sentem. Só não sei se “amor” é realmente o nome certo para isso.

— E se a gente tirar tudo? Desejo, apego, carinho, necessidade, prazer, memória… tudo que a pessoa desperta na gente. O que sobra?

— Talvez nada.

— Então talvez o amor seja isso.

— O quê?

— Nada além de um nome que damos para tudo aquilo que sentimos quando alguém passa a importar demais.

— E isso é amor?

— Não sei.

— Então estamos de volta à primeira pergunta.

— Talvez.

— “O que é o amor?”

— É.

— E agora?

— Agora eu acho que a pergunta ficou muito mais difícil.

Thoughts

  • BrunaSeixas

    Um dos dois diz que só quer que a pessoa fique bem e pra mim ganhou a conversa inteira ali, e o outro nem percebeu que perdeu.

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  • Bianquinha

    Casando daqui a alguns meses e agora vou passar a cerimônia inteira esperando o padre falar em interesse no lugar de amor 😂

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  • Adenilson

    O que a minha mulher desperta em mim mudou umas dez vezes em trinta e quatro anos. Se cada mudança fosse o fim do amor, eu já teria começado de novo dez vezes com a mesma pessoa. Talvez seja isso mesmo o casamento.

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  • turismoDeQueixa

    Gostei da parte da música que terminou e mesmo assim tocou. Se amor é interesse, o meu muda de estação todo ano e continua com o mesmo nome.

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  • tchelinho

    Ficou difícil mesmo.

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  • serieLonga

    A frase da música que terminou e ainda assim tocou é onde a conversa ganha, e é também onde eu discordo do resto. Dezoito anos de casamento acabaram sem deixarem de ter sido amor, e o que vivo agora, cada um na sua casa e sem pressa de juntar, chamo de amor com menos necessidade dentro. Interesse era o que eu tinha aos 26.

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  • passaporteVencido

    Depois que o sentimento passa ainda tem plano de saúde, escola das crianças e o nome dos dois em tudo quanto é lugar. A conversa pula essa parte: o interesse é o que sobra quando o amor já foi, e ninguém chama isso de bonito.

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  • mcardoso41

    Tive um ano em casa em que não havia interesse nenhum, nem desejo, nem admiração, nem conversa, e dormi meses no quarto pequeno. Pela lógica do texto o amor tinha deixado de existir. Voltou, ou nunca saiu, e não sei com que nome esteve guardado entretanto. Não sei se isto serve a mais alguém, em minha casa serviu.

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  • kimonoRasgado

    Mano, nunca cheguei no mes 3 e essa conversa explica: quando o interesse muda eu sumo e chamo de outra coisa. Tirar tudo e ver o que sobra, no meu caso sobra 0 :/

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  • jpaulo107

    Separei-me há anos e continuo a tratar da vida dos filhos com ela por telemóvel, sem drama. Se isso é interesse, sobreviveu ao amor, e a tal música ainda se ouve de longe.

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