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SISO CAN | Me desinvento - Prosa poética (Trad.)

SISOCAN_
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Saltou do globo ocular a xifrópaga em debandada. Ofuscando o cênite do meio-dia, apurei a resina, a massa asfáltica do tempo; trago amargo para não torrar o fluxo. De repente já não dança em couro,…

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Pensamento

Pensamento

Doralice

Quem fala aqui empilha imagem em cima de imagem, e isso quase sempre é sinal de que o principal ficou de fora. É gente falando muito pra não dizer a coisa.

Quem fala aqui empilha imagem em cima de imagem, e isso quase sempre é sinal de que o principal ficou de fora. É gente falando muito pra não dizer a coisa.

Conteúdo da publicação

Saltou do globo ocular a xifrópaga em debandada. Ofuscando o cênite do meio-dia, apurei a resina, a massa asfáltica do tempo; trago amargo para não torrar o fluxo. De repente já não dança em couro, desvelada, mas irrompe no orbe congestionando a praça em puro aguardo. Serpentear-me a espinha, caracoleia-me a dorsal com o revés gozoso; a palmada sutil da bailarina de tango em seu andar espesso, fios de baba. Estende a garra de seda buscando a fenda — outra grieta ou resposta a este ventania que nos encurrala — e melosa nos esfrega entre plumas, mantas, pelúcias e cobertas sujas. Ah, o pavor: sempre monstruoso, sempre absurdo, mas certo como o espasmo. A dança ocorre a contraluz das vísceras. Desloco-me do outro lado da amálgama, ofuscado, espancado pela graça: uma abstração carnal, imaterial, elementalíssima, baba de cera. No verso do denário — único espelho que não mente —, brunido na podridão, tu te contorces, te piruetas, te regozijas no xarope da dita festiva. Eu, viscoso, me dissolvo, me desfio, me desangro, na evaporação do sopro.


Versión original en español:

Me desinvento

Saltó del globo ocular la náyade en desbandada. Encandilando el cenit del mediodía, apuré la resina, la masa asfáltica del tiempo; trago amargo para no achicharrar el flujo. De pronto ya no danza en cuero, desvelada, sino que irrumpe en el orbe congestionando la plaza en puro aguardo. Me culebrea la espina, me caracolea la dorsal con el revés gozoso; la nalgada sutil de la bailarina de tango en su andar espeso, hilos de baba. Tiende la garra de seda buscando la hendidura —otra grieta o respuesta a este ventarrón que nos acorrala— y melosa nos refriega entre plumas, frazadas, felpas y cobijas sucias. Ah, el pavor: siempre monstruoso, siempre absurdo, pero cierto como el espasmo. La danza ocurre a contraluz de las vísceras. Me desubico del otro lado del amalgama, encandilado, apaleado por la gracia: una abstracción carnal, inmaterial, elementalísima, baba de cera. En el envés del denario —único espejo que no miente—, bruñido en la podredumbre, tú te contorsionas, te pirueteas, te regodeas en el almibar de la dicha festiva. Yo, viscoso, me disuelvo, me deshilo, me desangro, en la evaporación del soplo.


Thoughts

  • Doralice

    Quem fala aqui empilha imagem em cima de imagem, e isso quase sempre é sinal de que o principal ficou de fora. É gente falando muito pra não dizer a coisa.

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  • ArnaldoBessa

    Muita coisa aqui eu num peguei na primeira passada, digo logo. Mas o trago amargo pra não torrar o fluxo eu peguei bem.

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  • AmandaPeixoto

    Quem narra some no fim e o outro fica se contorcendo no espelho. Fica a impressão de que o que ficou de fora é justamente o que essa outra pessoa fez, porque dela a gente só vê o regozijo e nunca o motivo. O relato é de um lado só, e o lado escolhido é o que se desmancha.

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  • tresPaginas

    Que viagem 🌀

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  • tintaDeTerca

    A parte do pavor que é sempre monstruoso, sempre absurdo, mas certo como o espasmo, foi onde eu parei de verdade. Essa mistura de medo com certeza eu conheço de outro jeito: é quando você já sabe a hora que a coisa vem, marca no relógio, e mesmo assim o corpo treme quando chega.

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  • soleioanoite

    Uai, li isso em pé e fiquei meio zonza! É tipo aquele sonho em que cê tá dentro do próprio olho vendo tudo derreter.

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  • cadernoDeMargem

    Os três verbos do fim vão perdendo corpo um atrás do outro: dissolver ainda tem forma, desfiar já é fio, sangrar não tem nenhuma. Quando cheguei no último não sobrava mais nada pra perder, e o texto para bem ali.

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  • NunoParreira

    Li primeiro o de baixo, em espanhol, e só depois o de cima. Onde estava a náyade apareceu a xifrópaga, e a imagem mudou-me toda. Foi escolha tua na passagem ou já estava assim antes?

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  • Ovid

    A lista de plumas, mantas e cobertas sujas no meio de tanta coisa abstrata me fez pensar em como a gente só segura o resto quando aparece uma coisa concreta pra agarrar. Dá pra ver que isto nasceu em espanhol, o texto ainda anda no compasso de lá. Gostei de ver as duas versões juntas!

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  • MargemDaPagina

    A enumeração suja do meio, plumas e mantas e pelúcias e cobertas, é o único sítio onde o texto pousa em coisas que se podem tocar. Tudo à volta dissolve-se. Fiquei com a ideia de que é dali que o resto se serve para poder evaporar sem se perder de vez.

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