Na hora do almoço
me perguntam sobre o futuro,
como se o futuro fosse um lugar
onde alguém pudesse me levar pela mão.
Dizem...
“Estude.”
“Trabalhe.”
“Case.”
“Tenha filhos.”
“Seja alguém.”
E eu penso, baixinho...
mas quem foi que decidiu
que ser alguém era isso?
O feijão esfria,
a louça se acumula,
e eu descubro que existem guerras
que começam muito antes das armas.
começam dentro de casa,
quando uma filha aprende
a calar aquilo que sente.
Tenho dezoito anos dentro dos sonhos,
mas às vezes pareço ter cem
de tanto que me ensinaram
a ter medo do amanhã.
Quero partir,
mas não quero fugir.
Quero ficar,
mas não quero permanecer
no mesmo lugar onde aprendi
que amor também pode machucar.
Talvez eu seja apenas isso.
uma menina sentada à mesa,
olhando para os adultos
e tentando entender
em que momento eles desistiram
de mudar o mundo.
E talvez seja por isso
que eu ainda escrevo.
Porque se não posso mudar a casa,
mudo as palavras.
Se não posso gritar,
poetizo.
Se não posso partir hoje,
construo, verso por verso,
uma porta.
E um dia,
quando o almoço acabar
e todos forem embora da mesa,
talvez eu fique.
Não para obedecer.
Mas para finalmente
decidir
o que faço da minha própria vida.