Um dia,
quando meus pensamentos ainda flutuavam
como folhas perdidas no vento,
eu era pequeno.
Pequeno demais para entender o mundo,
e grande demais para carregar
o peso dos meus próprios pensamentos.
Eu andava distraído dentro de mim,
preso em labirintos que ninguém via,
correndo atrás de pensamentos acelerados,
tentando encontrar uma porta
que talvez nem soubesse que existia.
Foi então que, em silêncio,
olhando para dentro do meu pequeno coração,
fiz uma pergunta:
— O que eu vou ser?
O mundo não respondeu.
O silêncio também não.
E naquele instante,
talvez eu tenha tirado o orgulho de mim,
como quem abaixa os olhos
diante de um futuro que ainda não consegue enxergar.
O menino continuou caminhando.
Cresceu.
Caiu algumas vezes.
Levantou outras tantas.
Aprendeu que nem todo caminho
é feito de aplausos,
nem toda vitória vem acompanhada de dinheiro,
e que existem riquezas
que não cabem dentro de uma carteira.
Os anos passaram.
E um dia,
sem perceber,
aquele menino encontrou um homem.
Olhou para ele durante alguns segundos.
E perguntou:
— Você sabe quem eu sou?
O homem sorriu.
— Sei.
— Então me diga...
o que nós seremos?
O homem respirou fundo.
Olhou nos olhos daquele menino
como quem olha para uma fotografia antiga
e respondeu:
— Nós já somos.
— Somos o quê?
— Somos aquilo que você tinha medo de não conseguir ser.
O menino ficou em silêncio.
Então o homem continuou:
— Hoje nós servimos pessoas.
Cuidamos de crianças.
Ajudamos quem precisa.
Trabalhamos com sonhos.
Ajudamos outros a encontrarem seus próprios caminhos.
— E ficamos ricos?
O homem sorriu novamente.
— Não.
— Então fracassamos?
— Não, pequeno.
Aprendemos que dinheiro é necessário,
mas não pode ser o dono da nossa estrada.
Temos o necessário.
Temos trabalho.
Temos dignidade.
Temos pessoas que precisam de nós.
Temos histórias para contar.
E, principalmente,
temos orgulho de quem nos tornamos.
O menino abaixou os olhos.
— E aquele medo que eu tinha?
— Ainda existe às vezes.
— E os pensamentos que corriam dentro da minha cabeça?
— Às vezes também correm.
— Então você venceu?
O homem pensou por um instante.
— Não foi sobre vencer.
Foi sobre continuar.
Continuar quando ninguém acreditava.
Continuar quando nós mesmos duvidávamos.
Continuar mesmo quando o caminho parecia escuro.
E foi então que o menino percebeu
uma coisa que nunca havia entendido:
coragem não é não ter medo.
Coragem é caminhar
mesmo quando o medo segura nossa mão.
O homem estendeu a mão para ele.
— Venha.
— Para onde?
— Para frente.
— E se eu me perder?
— Nós já nos perdemos antes.
— E encontramos o caminho?
O homem sorriu.
— Estamos aqui.
O menino segurou sua mão.
E, pela primeira vez,
não perguntou mais o que seria.
Porque entendeu.
Não precisava ser famoso.
Não precisava ter muito dinheiro.
Não precisava provar nada ao mundo.
Precisava apenas não abandonar
aquele menino que um dia foi.
E os dois seguiram.
Um pequeno.
Outro adulto.
Caminhando pela mesma estrada.
Um carregando perguntas.
O outro carregando respostas.
E, entre os dois,
havia uma palavra que nunca envelheceu:
coragem.
Porque foi ela
que alimentou nossos passos.
Foi ela
que nos ensinou a servir.
Foi ela
que nos fez continuar.
E foi ela
que trouxe aquele menino até aqui.
Hoje, quando olho para trás,
eu digo a ele:
— Pode ficar tranquilo, pequeno.
Nós conseguimos.
Não temos tudo.
Mas temos o necessário.
E temos algo que dinheiro algum compra:
orgulho de sermos quem somos.
E se amanhã a estrada novamente escurecer,
eu já sei o que dizer.
Vou olhar para aquele menino
e apertar sua mão.
— Vamos?
E ele responderá:
— Vamos.
Porque ainda temos caminho.
E enquanto houver caminho,
coragem será o nosso combustível.