I
Um tio-avô meu
sangue ruim gente de briga,
correu pra Brasília
atrás de futuro.
Tempo de JK.
Todo mundo corria pra lá.
Ver se era verdade que quem ia
voltava menos pobre sapato novo rádio na sala
pataca pra botar
comércio na praça.
Nunca voltou
,Morreu por lá sangrado de faca.
II
Quando eu era bem criança, morei um tempo no sítio do pai de minha mãe e, na propriedade, havia um casebre que era dos moradores e, na frente dela, tinha uma mangueira com uma cruz entre as raízes, marca de morte feia que ninguém sabia dizer de quem era e o morador dizia, pra me assustar, que a mangueira mexia sem vento pra eu ir dormir com medo do som das árvores.
III
Morreu o pai de minha mãe.
Muitos filhos, herança difícil
de dividir o sítio
ficou largado
por ali.
tudo que é alheio
reclama um dono
vieram famílias
panelas
colchões
crianças
cortaram mato
alto botaram
acampamento.
Trouxeram junto
boato de uma botija enterrada
cavaram tudo até acharem um baú
mas invés de ouro espanto
um esqueleto sabe-lá-Deus de quando.
IV
Chamaram polícia
Investigaram tudo
exame de DNA
acareação daqui
papelada de lá.
A gênese do osso não era Adão
Mas o tio morto de Brasília
que ninguém sabia então
havia voltado pra se enterrar em casa.