Que capítulo. A tensão do pesadelo que não quer deixá-la em paz. Você tem mais coisas publicadas por aqui?
RASTREADORES - CAPÍTULO 3
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Que capítulo. A tensão do pesadelo que não quer deixá-la em paz. Você tem mais coisas publicadas por aqui?
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Se puderem, deixem nos comentários o que acharam deste capítulo e da história até aqui. Quero muito saber suas opiniões, teorias, dúvidas e até críticas — podem ser sinceros! 👀
Aprecio muito cada comentário, pois eles me ajudam a enxergar a história por outras perspectivas e também contribuem para o desenvolvimento da minha escrita.
Estarei aguardando vocês nos comentários! ❤️
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PASSADO
Cecil estava parada no centro da Sala.
Seus olhos ainda tentavam se acostumar à baixa iluminação, enquanto sua respiração pesada ecoava no silêncio. O ar parecia escasso, quase irrespirável, obrigando-a a puxá-lo com mais força para os pulmões.
Lentamente, girou o rosto, percorrendo com os olhos cada detalhe daquele imenso salão circular.
Ela nunca entendera por que chamavam aquele lugar simplesmente de Sala. Era grande demais para merecer um nome tão comum.
Por fora, até parecia uma sala qualquer, sem nada que denunciasse o que existia além da porta. Mas bastava atravessá-la para ter a impressão de que haviam entrado em outro mundo — como se tivessem ido parar em Nárnia ou algo parecido.
O salão central era cercado por diversas ramificações que davam acesso a outras salas independentes, todas interligadas àquele espaço principal.
O chão era coberto por símbolos que, às vezes, brilhavam e se espalhavam por toda a extensão da Sala, seguindo até alcançarem a entrada. Cecil nunca conseguira decifrá-los. Provavelmente pertenciam a algum tipo de escrita antiga, cuja tradução jamais havia sido encontrada.
A porta exibia os mesmos símbolos, mas, ao contrário dos demais, aqueles permaneciam sempre inertes e sem cor.
A iluminação também era imprevisível. Em alguns momentos, tornava-se intensa o suficiente para machucar os olhos; em outros, enfraquecia até deixar a escuridão dominar quase todo o ambiente.
Era como se a Sala tivesse vida própria.
Ela se reorganizava internamente quando bem entendia, alterando seus espaços sem que ninguém percebesse seus movimentos ou soubesse exatamente o que estava fazendo.
Então, como se a Sala tivesse lido os pensamentos de Cecil, uma fumaça negra começou a surgir de uma das ramificações ao norte. Espessa e escura, lembrava a fuligem deixada por um grande incêndio.
Cecil deu três passos para trás, afastando-se daquilo que avançava em sua direção. Porém, antes que pudesse decidir para onde ir, mais fumaça começou a escapar das outras ramificações.
Em poucos segundos, percebeu que não havia para onde recuar.
Estava cercada.
Quando a fumaça chegou a menos de um metro, Cecil percebeu que aquilo não era fumaça.
Era uma sombra.
A massa negra avançou de uma só vez e a envolveu por completo. Sua respiração tornou-se ainda mais difícil. A sombra parecia invadir suas narinas, infiltrar-se por sua boca e descer pela garganta, arrancando-lhe uma sequência descontrolada de tosses.
Então, o cheiro a atingiu.
Cecil sentiu o estômago se revirar.
Conhecia aquele odor.
Aquele cheiro podre de morte.
Mas, antes que pudesse reagir, algo surgiu diante de seus olhos.
Algo muito mais devastador do que a própria sombra.
Pessoas começaram a surgir pelas ramificações.
Corriam desesperadas em todas as direções, com os corpos consumidos pelas chamas. Os gritos de dor e desespero se misturavam, altos o suficiente para quase ensurdecer Cecil.
A Sala, antes mergulhada em um silêncio perturbador, havia se transformado em um verdadeiro apocalipse.
Cecil tentava se libertar da sombra que a envolvia, mas, quanto mais se debatia, mais sufocante ela parecia se tornar. Ao seu redor, os gritos de horror aumentavam, sobrepondo-se uns aos outros.
De repente, uma forte rajada de vento atravessou a Sala.
Com ela veio um grito.
Tão desesperado e tão próximo que Cecil perdeu o equilíbrio e caiu.
Seu coração pareceu parar por um instante.
Era a voz de Elisabete.
— Bete! Onde você está? — gritou, procurando desesperadamente em todas as direções.
Nenhuma resposta.
Apenas os gritos de sua irmã continuavam ecoando pela Sala, sem que Cecil conseguisse descobrir de onde vinham.
— Bete!
Então, tudo cessou.
Um silêncio repentino tomou conta da Sala, engolindo as chamas, os gritos e até o último vestígio de som.
Ainda caída no chão, Cecil sentiu algo agarrar seu corpo com força.
A força que a prendia era intensa, mantendo seus braços imóveis junto ao tronco. Cercada pela escuridão, porém, ela não conseguia enxergar o que a segurava.
Então ouviu um som.
Alguém estava chorando.
Cecil ergueu lentamente o olhar e viu uma mulher à sua frente.
Era como se a massa escura tivesse aberto uma brecha de propósito, permitindo que ela enxergasse apenas o que estava diante de si.
Aquilo era intencional.
A certeza fez o medo se espalhar pelo corpo de Cecil.
A mulher estava de costas, descalça, vestindo o que restava de um vestido quase inteiramente queimado. Em alguns pontos, o tecido parecia ter se fundido à própria pele.
Ela choramingava baixinho, como uma criança, enquanto arranhava o próprio corpo de maneira frenética.
Cecil ficou paralisada.
A cada movimento de suas unhas, pedaços de pele se desprendiam lentamente, mas ela não parava. Continuava se arranhando, como se tentasse desesperadamente arrancar alguma coisa de dentro de si.
Aquilo não podia ser real.
Ou podia?
A Sala seria capaz de fazer aquilo? De entrar na mente das pessoas e manipular o que elas viam?
A mulher virou lentamente a cabeça em sua direção.
Quando seus olhares se encontraram, Cecil sentiu o corpo inteiro gelar.
Era Suzane.
— Por favor, Cecil... — sua voz saía entrecortada pelo choro. — Não... não me deixe aqui!
As lágrimas começaram a escorrer pelo rosto de Cecil.
Ela tentou se mover, estender a mão, fazer qualquer coisa, mas seu corpo não respondia. A força que a mantinha presa parecia ainda maior.
Não podia ajudá-la.
De novo, não podia ajudá-la.
— Me ajuda, Cecil... Está doendo muito!
Suzane se contorcia enquanto continuava arrastando as unhas pela própria pele, arrancando-a aos poucos.
Cecil balançou a cabeça, sufocando um soluço.
— Me desculpa, Su... Eu queria tanto ter te salvado.
Fechou os olhos com força, incapaz de continuar olhando. As lágrimas desciam quentes por seu rosto.
Ela tentava se libertar, mas aquela força continuava a mantê-la presa, comprimindo seu corpo cada vez mais.
Quando tornou a abrir os olhos, Suzane havia desaparecido.
Cecil tentou procurá-la, mas não havia mais nenhum sinal dela. Para onde quer que olhasse, só conseguia enxergar a sombra se espalhando por todos os lados.
Então, sentiu algo deslizar lentamente por seus braços.
Um arrepio percorreu sua coluna quando percebeu que aquilo que a mantinha imóvel já não era apenas uma presença sufocante envolvendo seu corpo.
Eram braços.
Braços cobertos de sangue, marcados por queimaduras terríveis, que desciam pelos seus até envolvê-la por completo.
Alguém a segurava por trás.
Então, uma voz sussurrou junto ao seu ouvido:
— Venha me encontrar!
Cecil despertou assustada.
Seu coração ainda disparava quando uma dor lancinante atravessou sua cabeça.
Cecil levou a mão à têmpora e fechou os olhos por alguns segundos. Havia meses que as enxaquecas surgiam sempre que usava suas habilidades de forma descontrolada.
E aquele pesadelo havia voltado.
Desde o desaparecimento de Bete, ele se repetia quase todas as vezes que Cecil dormia. Sempre a Sala. Sempre os gritos. Sempre aquela voz chamando por ela.
Não podia ser coincidência.
Alguém estava tentando encontrá-la, e aquele chamado vinha da Sala Escondida. Se estivesse certa, ainda existia uma possibilidade de Bete estar viva.
Tinha que ser ela.
Cecil precisava acreditar nisso.
Porque a outra possibilidade era muito pior: estar interpretando tudo errado e conduzindo seus amigos diretamente para a morte.
Esse pensamento a assustava mais do que qualquer coisa que tivesse acabado de ver.
Com algum esforço, Cecil se levantou, sentindo o corpo inteiro dolorido.
O lençol deslizou por seu corpo e caiu no chão. Ao vê-lo, Cecil percebeu que Marcelo havia estado ali.
Um leve sorriso surgiu em seus lábios, afastando por alguns instantes as imagens perturbadoras do pesadelo.
Ele não havia mudado em nada.
O olhar preocupado, o semblante assustado, os gestos cuidadosos... tudo continuava exatamente como ela se lembrava.
Marcelo ainda era o mesmo.
Era ela quem já não era mais a mesma.
Então, uma gota de sangue caiu sobre o lençol.
Cecil levou a mão ao nariz e percebeu que estava sangrando. Seguiu depressa para o banheiro e, ao levantar as mangas da jaqueta, encontrou várias manchas arroxeadas espalhadas pelos braços.
Eram hematomas.
Ficou alguns segundos observando as marcas, tentando ignorar o que elas poderiam significar. Seus sonhos estavam se tornando mais reais do que a própria realidade.
Ela havia usado suas habilidades enquanto dormia. Os hematomas e o sangramento eram a prova disso.
Era como se, durante o pesadelo, seu corpo estivesse reagindo ao que acontecia na Sala Escondida — como se parte dela estivesse sendo canalizada para aquele lugar, mesmo sem sair dali.
Mas Cecil não tinha certeza, e não pretendia alarmar Marcelo e Danilo com uma suspeita.
Os dois já eram contra seguir para a Sala sem um plano. Se descobrissem seu estado e soubessem o que ela suspeitava acontecer durante os pesadelos, certamente tentariam adiar ainda mais a ida até lá.
E esse era um risco que Cecil não podia correr.
Talvez ela não tivesse mais tanto tempo.
Abriu a torneira e lavou o rosto, limpando o sangue que insistia em escorrer. Quando finalmente conseguiu estancá-lo, ergueu os olhos para o espelho.
Observou o próprio reflexo com atenção, certificando-se de que nada em sua aparência denunciasse que havia algo errado.
Então, abaixou as mangas da jaqueta, escondendo os hematomas.
Seguiu em direção à porta do quarto e a abriu devagar, tomando cuidado para não fazer barulho.
Do outro lado, Marcelo e Danilo ainda dormiam.
Marcelo encerrou a discussão, decidindo que só planejariam os próximos passos no dia seguinte. Naquele momento, nenhum deles estava em condições de sair à procura de qualquer coisa e, apesar da relutância de Cecil, ela acabou cedendo.
Todos estavam exaustos.
Antes de dormir, Marcelo ainda passou algum tempo revirando as próprias lembranças, tentando encontrar qualquer detalhe que pudesse ajudá-los. Não encontrou nada realmente útil e, vencido pelo cansaço, acabou adormecendo.
O alarme do celular o despertou.
Marcelo abriu os olhos lentamente e, ainda sonolento, pegou o aparelho.
Eram seis e meia da manhã.
Viu que Danilo, que havia dormido no sofá, continuava imóvel. Ele passara boa parte da noite no chão, então Marcelo fizera questão de deixá-lo com o pouco de conforto que podia oferecer naquele momento.
Seguiu para a cozinha e encontrou Cecil preparando café.
Ela se virou ao ouvi-lo entrar. Seu rosto estava mais corado do que na noite anterior, embora a expressão continuasse séria.
— Bom dia, Marcelo — cumprimentou ela.
Marcelo esperou que ela esboçasse ao menos um pequeno sorriso, mas sua expressão permaneceu inalterada.
— Bom dia, Cecil. Está se sentindo melhor?
— Sim.
Suas respostas eram curtas e diretas.
Marcelo percebeu que o olhar dela estava distante. Havia uma tensão em Cecil que não estava ali apenas por causa do cansaço.
Ele a observou por alguns segundos antes de perguntar:
— Se não estivesse bem, você me contaria?
A expressão de Cecil mudou no mesmo instante.
Marcelo se arrependeu da pergunta assim que viu seu olhar endurecer.
— O que importa para você se eu estou bem ou não?
Ele franziu a testa, pego de surpresa.
— Como assim? É claro que eu me importo com você.
— Se importa?
A pergunta saiu carregada de acusação.
— Cecil...
— Não. Não vem com essa de “Cecil”.
Ela continuava a encará-lo com a mesma expressão de reprovação.
O sorriso que lhe dera ao despertar não fora sincero. Marcelo sabia disso. Conhecia Cecil bem demais para não perceber quando ela estava escondendo o que realmente sentia.
Era evidente que ainda havia ressentimento. Em algum momento, ele sabia que precisariam conversar sobre tudo o que havia acontecido entre eles.
Mas, naquele instante, percebeu que Cecil estava muito mais machucada do que imaginara.
Ainda assim, Marcelo não conseguia se arrepender da decisão que tomara.
Naquela época, não enxergara outra opção.
— Você sabe que aquela era a melhor escolha — começou Marcelo.
— Como eu poderia saber? Você não nos deu tempo para pensar em outra escolha.
— Porque não tínhamos mais tempo.
— Você não sabia disso. Não sabia se ainda tínhamos tempo ou não.
Cecil o encarava fixamente.
— Você mentiu para mim.
Marcelo franziu a testa.
— Do que você está falando?
— Você disse que seria temporário. Disse isso para me convencer a apagar a sua memória, mas sua intenção era nunca mais voltar, não era?
Marcelo permaneceu em silêncio.
A expressão de Cecil era indecifrável. Ele não sabia dizer se havia raiva em seu olhar ou algo muito pior.
— Porque você sabia — continuou ela — que a Sala não desapareceria só porque você não conseguia mais rastreá-la.
Ele desviou o olhar.
— E você colocou toda a responsabilidade daquele dia sobre si mesmo e decidiu se punir por isso, não foi?
— Cecil...
— Me responde, Marcelo!
— Eu não sei...
— Mas eu sei. — A voz dela baixou. — Porque eu estava na sua cabeça.
Marcelo a encarou.
E, finalmente, entendeu.
Naquele dia, depois de convencê-la a apagar suas memórias, ele simplesmente desaparecera de tudo aquilo. Enquanto Cecil permanecera para lidar com as consequências, Marcelo seguira em frente sem sequer saber que havia algo para lamentar.
Ele dormira.
E não sentira nada por cinco anos.
Cecil não tivera esse privilégio.
— A Suzane ficou... — continuou ela.
Seus olhos começaram a marejar.
— Eu a deixei lá.
Por um instante, pensou que Cecil o culpasse pela morte da amiga. Mas não era isso.
Era pior.
Ela culpava a si mesma.
— Não foi sua culpa o que aconteceu com Suzane.
— Você acha que eu não sei?! — explodiu Cecil.
Marcelo se calou.
— Você acha que eu não sei que todos nós conhecíamos nossas próprias limitações naquele lugar? Que Suzane sabia muito mais do que eu e, mesmo assim, decidiu ficar?
A raiva desapareceu de sua voz tão depressa quanto surgira.
No lugar dela, restou apenas tristeza.
Cecil se apoiou no balcão e abaixou o olhar. Quando voltou a falar, sua voz estava embargada.
— Eu sei que não foi minha culpa... — murmurou. — Mas não consigo parar de me sentir culpada.
Respirou fundo, como se as próximas palavras fossem difíceis demais para admitir.
— Eu sei que estou afundando, Marcelo... — Sua voz quase se desfez. — E acho que uma parte de mim até quer isso.
— Cecil...
Marcelo avançou em sua direção. Naquele momento, não sabia o que dizer. Só queria abraçá-la, oferecer algum conforto, mesmo que não fosse suficiente.
Mas, antes que pudesse alcançá-la, Danilo surgiu entre os dois.
— Bom dia, pessoal!
Marcelo parou no mesmo instante.
— Ah... Danilo. Bom dia.
Recuou, um pouco constrangido.
Cecil desviou o olhar.
— Toma logo seu café. Precisamos passar lá em casa para trocar de roupa — avisou, antes de deixar a cozinha.
Danilo acompanhou sua saída com os olhos.
— Tudo bem. Vai ser melhor planejar nossa ida por lá mesmo. Isso aqui é uma espelunca.
Marcelo suspirou diante da provocação.
Tudo estava acontecendo depressa demais.
Exatamente como da última vez.
— Dá um tempo para ela — comentou Danilo, servindo-se de uma xícara de café.
— Eu sei... Não deveria ter tentado me explicar.
Danilo esboçou um sorriso triste.
— Não é por isso, cara.
Marcelo ergueu o olhar.
— Não?
Danilo apoiou a xícara sobre a pia e permaneceu alguns segundos em silêncio antes de continuar.
— Sabe... naquele dia, nós realmente deixamos você em casa depois que concordamos em desistir de permanecer na Sala. Só que a Cecil decidiu voltar. Então voltamos também.
Marcelo não disse nada.
— Enquanto ela entrou na Sala, eu fiquei na van lendo as pesquisas que a Suzane tinha feito.
Danilo fez uma pausa.
— Foi quando encontrei uma informação.
Marcelo franziu a testa.
— O quê?
— Uma possível explicação para diminuir o ciclo de tempo da Sala.
Marcelo ficou imóvel.
— Descobrimos tarde demais que, quanto mais pessoas entravam nela, mais rápido o tempo de ativação diminuía. Pelo menos era o que as pesquisas indicavam.
Danilo apertou os dedos ao redor da xícara.
— Eu saí correndo para contar à Cecil...
A frase morreu antes que pudesse terminá-la.
Seus olhos se fixaram nos desenhos dos azulejos da cozinha, como se procurassem algum ponto de apoio.
Qualquer lugar servia.
Desde que não precisasse encarar Marcelo.
— Eu chamava por ela, mas só conseguia enxergar fogo e fumaça. — Danilo engoliu em seco. — Só que aquilo não era apenas fumaça. Tinha alguma coisa ali.
Marcelo permaneceu em silêncio.
Pela primeira vez desde que recuperara as lembranças, conseguia enxergar o peso que Danilo carregava.
Ele sempre escondia tudo atrás de piadas, provocações e comentários bem-humorados.
Mas também estava sofrendo.
— De repente, eu estava fora daquele lugar — continuou Danilo. — A Sala simplesmente desapareceu.
Ele respirou fundo.
— Vi a Cecil alguns metros à frente, sentada no chão. Ela estava com a Suzane nos braços.
Danilo fechou os olhos por um instante.
Quando voltou a falar, sua voz estava mais baixa.
— Ela olhou para mim... Nunca vou esquecer aquele olhar. Estava completamente vazio. Então disse: “Quando o coração da Suzane parou, a porta fechou e a Sala desapareceu.”
— Isso não pode ser...
Marcelo o encarou, incrédulo.
— Nós não temos certeza — respondeu Danilo. — Mas Cecil acredita que a Sala se alimenta das pessoas.
Uma lembrança atravessou a mente de Marcelo.
Suzane sorrindo antes de entrar na Sala.
Ela estava animada. Seu entusiasmo havia contagiado todos naquela noite.
E depois...
Marcelo afastou a imagem antes que ela se completasse.
— E eu te impedi de abraçar a Cecil porque ela não gosta que façam isso — acrescentou Danilo. — Acho que agora você consegue imaginar o motivo.
Marcelo sentiu o coração afundar.
Cecil segurara Suzane nos braços enquanto sentia o coração da amiga parar de bater.
Depois daquilo, qualquer abraço poderia carregar a lembrança daquele último.
Saber o que seus amigos haviam enfrentado durante todos aqueles anos enquanto ele sequer se lembrava da existência deles despertou uma culpa difícil de ignorar.
A Sala Escondida era o único lugar que Marcelo já havia rastreado capaz de mudar de localização.
Era um fenômeno tão peculiar que, durante muito tempo, eles haviam se preocupado apenas em compreendê-lo.
Nunca haviam parado para pensar no que aquilo poderia significar.
E, como Marcelo era a única pessoa capaz de rastreá-la, ele também se tornara um alvo.
Foi por isso que decidira apagar a própria memória. Ao desestabilizar sua habilidade, acreditava que a Sala desapareceria para sempre.
Pelo menos era nisso que queria acreditar.
Mas será que aquela havia sido realmente sua intenção?
Cecil tinha certeza de que não.
Antes que pudesse pensar mais sobre aquilo, ela surgiu à porta da cozinha com a bolsa no ombro.
Estava pronta para sair.
— Vocês estavam certos — disse. — Precisamos estar preparados. Então já sei por onde começar.
Danilo lançou um olhar confiante para Marcelo.
— Já temos um começo. Dessa vez vai ser diferente.
Marcelo encarou Cecil por alguns segundos.
Precisava ser diferente.
Porque, se alguém se machucasse novamente por causa de uma decisão sua, talvez ele jamais conseguisse se perdoar.
Thoughts
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PermalinkMarcelo acordando sem lembrar de nada enquanto ela fica com cinco anos de peso. Perfeito.
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Permalink"Estava ela quem já não era mais a mesma." Carrego essa frase por uma semana inteira.
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PermalinkQue capítulo. A tensão do pesadelo que não quer deixá-la em paz. Você tem mais coisas publicadas por aqui?
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PermalinkEssa coisa de não poder ajudar quem você quer que não morra... doeu demais. Já tive essa sensação acordado.
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PermalinkA Sala tem vida própria e passa pra gente. Cada detalhe faz sentido: a luz que muda, os símbolos que o corpo responde. Você desenhou esse mundo muito bem.
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PermalinkPesado demais.
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