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Capítulo V — A Peregrina da Chama Azul

Raiana
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O caminho diante de Amara parecia não ter fim.

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O caminho diante de Amara parecia não ter fim.

Durante semanas, ela atravessou pequenas aldeias, campos de arroz, estradas de terra e florestas onde o silêncio só era interrompido pelo canto dos pássaros.

Dormia onde encontrava abrigo.

Às vezes sob o teto de algum camponês.

Às vezes em templos abandonados.

Outras vezes sob as estrelas.

Comia o que recebia.

Quando não recebia nada, bebia água do rio e continuava caminhando.

Mas já não se sentia pobre.

Carregava consigo o pequeno rosário que o Mestre lhe dera, o bastão de neem e, junto ao coração, a misteriosa chama azul.

A cada amanhecer, antes de começar a caminhada, Amara sentava-se em silêncio.

Não pedia riquezas.

Não pedia glória.

Pedia apenas:

— Que eu não passe por alguém que esteja sofrendo sem enxergar sua dor.

Foi assim que chegou a uma aldeia chamada Devapura.

A primeira coisa que percebeu foi o silêncio.

Não havia crianças brincando.

Não havia mulheres cantando enquanto trabalhavam.

Os campos estavam secos.

Os poços quase vazios.

Homens e mulheres caminhavam lentamente, carregando o peso da fome nos próprios corpos.

Amara entrou na aldeia e perguntou a uma mulher:

— O que aconteceu aqui?

A mulher olhou ao redor antes de responder.

— A chuva não veio.

— Há quanto tempo?

— Muitos meses.

Amara observou as plantações destruídas.

— E ninguém ajuda vocês?

A mulher abaixou a cabeça.

— O sacerdote do templo recolhe os poucos grãos que ainda conseguimos produzir.

— Por quê?

— Diz que é uma oferenda à deusa.

Amara ficou em silêncio.

Naquela noite, foi até o templo.

Era pequeno e antigo.

Diante da imagem sagrada havia dezenas de cestos contendo arroz, trigo e frutas.

Atrás deles estava um homem de meia-idade chamado Rudranath.

Vestia roupas caras demais para alguém que vivia em uma aldeia faminta.

Ao perceber Amara, perguntou:

— Quem é você?

— Uma peregrina.

— Então continue sua viagem.

Amara apontou para os alimentos.

— Por que esses grãos estão aqui enquanto as crianças da aldeia passam fome?

O sacerdote estreitou os olhos.

— Não questione aquilo que não compreende.

— Talvez eu não compreenda os costumes do templo.

Mas compreendo a fome.

Rudranath levantou-se.

— Esses alimentos foram oferecidos à divindade.

— E uma divindade que recebe uma oferenda enquanto uma criança morre de fome aceitaria isso?

O sacerdote ficou furioso.

— Cuidado, mulher!

Amara não recuou.

— A fé não deveria alimentar primeiro aqueles que precisam?

O homem apontou para a porta.

— Saia.

Amara saiu.

Mas naquela noite não conseguiu dormir.

Sentou-se perto do poço vazio e chorou.

Não por si mesma.

Pela aldeia.

Então ouviu uma criança tossindo.

Uma menina pequena estava deitada nos braços da mãe.

Amara aproximou-se.

— Ela está doente?

A mãe assentiu.

— Não temos remédio.

Amara lembrou-se das lições do Mestre.

Saiu pela floresta durante a madrugada e procurou ervas medicinais.

Quando voltou, preparou uma infusão.

Passou a noite ao lado da criança.

Ao amanhecer, a menina finalmente conseguiu abrir os olhos.

A mãe chorou de alívio.

Amara sorriu.

— Agradeça à vida.

Nos dias seguintes, começou a ensinar os moradores a procurar água, cuidar dos doentes e aproveitar as plantas que ainda cresciam nas proximidades.

Homens que haviam perdido a esperança voltaram a trabalhar.

Mulheres organizaram uma cozinha comunitária.

As crianças começaram a receber alimento.

Mas ainda faltava uma coisa.

Os grãos armazenados no templo.

Na quinta noite, Amara voltou.

Encontrou Rudranath sozinho.

— Ainda veio me desafiar?

— Vim pedir que abra os depósitos.

— Nunca.

Amara respirou profundamente.

— Então eu mesma abrirei.

— Você não ousaria.

A jovem aproximou-se.

— Não quero destruir seu templo.

Quero lembrar-lhe por que ele existe.

O sacerdote riu.

— E quem é você para falar em nome da divindade?

Amara olhou para a estátua.

— Ninguém.

Sou apenas uma peregrina.

Mas talvez seja exatamente por isso que consigo ouvir aquilo que o orgulho não deixa você escutar.

Rudranath permaneceu imóvel.

Por um instante, pareceu sentir vergonha.

Mas então ouviu vozes do lado de fora.

Centenas de moradores haviam se reunido.

Não estavam armados.

Não gritavam.

Apenas esperavam.

A primeira pessoa a entrar foi a mãe da menina que Amara havia cuidado.

Ela colocou diante do sacerdote um pequeno prato de arroz.

— Isto é tudo o que temos.

Mas queremos dividi-lo.

Outros começaram a fazer o mesmo.

Pouco a pouco, alimentos começaram a ser reunidos.

O que era pouco tornou-se muito.

Rudranath observava em silêncio.

Finalmente, aproximou-se dos depósitos.

Abriu as portas.

A multidão ficou em silêncio.

O arroz foi distribuído.

Naquela noite, ninguém dormiu com fome.

Antes do amanhecer, Rudranath procurou Amara.

— Eu estava errado.

Ela o encarou.

— Então não desperdice o arrependimento.

O sacerdote abaixou a cabeça.

A partir daquele dia, passou a trabalhar ao lado dos moradores.

Devapura começou lentamente a se recuperar.

Quando Amara partiu, os habitantes ofereceram-lhe uma pequena bolsa de alimentos.

Ela aceitou apenas o necessário.

Uma criança correu atrás dela.

— Você vai voltar?

Amara sorriu.

— Talvez.

— Como devemos chamar você?

Ela hesitou.

Nunca havia pensado em possuir um nome espiritual.

A criança olhou para o peito de Amara.

Por um breve instante, a chama azul brilhou através do tecido.

A menina arregalou os olhos.

— A moça da chama azul!

As pessoas começaram a repetir:

— A Peregrina da Chama Azul.

Amara sorriu.

E continuou caminhando.

Sem saber que aquele nome viajaria muito mais longe do que seus próprios passos.

Em outras aldeias, começaram a contar histórias sobre uma jovem que não cobrava por suas bênçãos.

Que não pedia ouro.

Que não perguntava a casta, a riqueza ou a origem de ninguém.

Onde havia fome, ela procurava alimento.

Onde havia doença, procurava cura.

Onde havia solidão, sentava-se ao lado do abandonado.

E onde havia medo, permanecia.

Entretanto, nem todos estavam felizes com sua crescente fama.

Em cidades distantes, homens poderosos começaram a ouvir falar da jovem peregrina.

Alguns diziam que ela era uma santa.

Outros, uma impostora.

E alguns começaram a temê-la.

Porque uma mulher pobre que ensinava os esquecidos a perder o medo poderia ser mais perigosa para os poderosos do que qualquer exército.

Naquela mesma noite, enquanto Amara dormia sob uma árvore, muito distante dali, um homem vestido de negro recebeu a notícia.

— Ela está crescendo em fama — disse um mensageiro.

O homem permaneceu em silêncio.

Depois perguntou:

— E o que dizem sobre ela?

— Dizem que possui uma chama azul.

Ele sorriu.

— Então encontrem essa mulher.

— O que devemos fazer quando a encontrarmos?

O homem olhou para a noite.

— Descobrir se essa chama realmente pertence aos deuses...

ou se pode ser apagada pelos homens.

Enquanto isso, Amara dormia tranquilamente.

E, junto ao seu coração, a pequena chama azul brilhava na escuridão.

Como se soubesse que sua maior provação ainda estava por vir.

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