OS LABIRINTOS DA ESPERA E O BEIJO QUE VEIO DA CHINA
Os Mistérios do Acaso
8º Capítulo
O tempo foi passando com a lentidão típica dos dias de outono em São Paulo, mas a paixão de Narciso, permanecia sempre ativada e em alta, queimando como uma chama que se recusava a extinguir. O sentimento que ele nutria por Helena era algo de outro mundo, uma devoção tão bonita e pura que sensibilizava qualquer testemunha que ousasse olhar de perto. Contudo, como todo amor que se preza, aquela intensidade começou, aos poucos, a causar uma dubiedade torturante e profundas alterações em seus sentimentos. Havia dias em que Narciso flutuava de contentamento pelos corredores da empresa; em outros, a segurança desmoronava, ele sentia no fundo da alma que ela o esnobava friamente. Mal sabia o Poeta que aquilo não passava do jeitinho secreto de Helena, a sua mecânica de defesa e mistério.
Um tanto atordoado com esse jogo de aproximação e distância, Narciso recolheu-se em sua solidão e em uma única noite, escreveu dois poemas viscerais. Dessa vez, tomados por um misto de orgulho e desânimo, os manuscritos não foram do conhecimento de sua musa, permanecendo trancados na gaveta de rascunhos. O fato de ele se sentir esnobado havia batido forte, trazendo aquele desânimo pesado que costuma rondar os românticos. Mas Narciso não era capaz de entregar os pontos facilmente; ele sabia que ainda tinha muita água para rolar debaixo daquela ponte.
O primeiro desses poemas ocultos chamou-se "A Poesia". Nele o Narciso qualificava o resultado da expressão de um homem nomeado poeta, aquele ser capaz de mostrar a realidade nua e crua através do sentido figurado, uma ciência que de certa forma, mais acerta o alvo do que erra. As frases foram surgindo em sua mente febril e aos poucos, costurando o texto, ele deu destaque a duas premissas que definiam sua própria existência: "A paixão pelo viver" e a certeza de que "O poeta é uma criatura de impecável beleza interna".
Para concretizar uma obra legítima, o homem que carrega o título de poeta precisa, antes de tudo, amar a vida com todas as suas forças, amar as coisas do céu e os mistérios da terra e ser na medida do possível um irmão de todos. Ele precisa viver em paz consigo mesmo e tentar seguir por esse caminho de luz que será sempre o melhor atalho para externar a beleza interna que brota das profundezas do coração pelos frutos da inspiração.
O segundo poema daquela noite de isolamento foi batizado como "Oração do Poeta". Este texto falava, através da métrica livre, sobre o senso do que possa ser considerado normal ou aceitável no mundo confuso em que vivemos. Querer ser normal é uma meta que a sociedade nos impõe e que estamos sempre buscando alcançar, mas nem sempre isso é possível para todos. Cada indivíduo tem o seu próprio tempo, o seu compasso, suas peculiaridades e particularidades que sofrem alterações drásticas no dia a dia. Narciso encarava tudo isso com naturalidade, pois para ele, o poeta é por definição, um "maluco positivo" — um ser que escreve as verdades do mundo de forma completamente diferente. Só quem nasceu com esse dom divino, reveste a própria alma com as armaduras das letras consegue atingir esse estado de normalidade peculiar, ou quase normal.
Como exemplo dessa loucura mansa, ele se questionava na cabeceira da cama: como pode uma pessoa essencialmente boa tentar ser ruim e feia, sendo reprovada no decurso de uma vida sem discurso, que sequer exigiu concurso para existir?
E as linhas que ele guardou para si diziam o seguinte:
A POESIA
Vendo as ideias
E os ideais de um povo
Vemos que nosso mundo
Não muda de outros mundos
São quase todos imundos.
A sensibilidade do amor
Expressado em palavras
Faz a realização do poeta.
Na verdade,
Poetizar a vida
É traduzir as palavras da alma
Com calma e paciência.
O poeta
É o intérprete do coração
Que a cada batida
Traz uma nova emoção.
Brincar de poesia
Sem a fantasia
É a cortesia
Concedida pela alma,
De fato,
Com seriedade.
O que faz do homem um poeta
É a paixão pelo viver.
A inspiração
É apenas a consequência
Consciente
Que resulta em poesia,
Ciência dada
E liberada pelo coração.
O poeta
É uma criatura de impecável beleza interna,
Figura também abençoada
Por um anjo poeta.
Talvez alguns seres
Por algum motivo qualquer
Mostram-se insensíveis
A esses detalhes
Que a vida oferece.
Poesia
Não é para qualquer um.
Coração de pedra
Jamais saberá...
Mas,
São coisas da vida...
Ass. Narciso "O Poeta"
*
ORAÇÃO DO POETA
Pode ser que seja normal
Ou até mesmo natural
Uma viagem especial
Ou espacial.
Sentado à mesa
Com a caneta à mão,
E coisa e tal,
O pensamento,
A imaginação,
A sensibilidade
E os carinhos
São os insumos
De suma importância
Que produzem o sucesso que reluz,
A aura que acompanha o poeta,
Que vem da alma
E da essência.
Pode ser que seja normal
Ou até mesmo real,
O papo reto, menos fatal,
Conviver com a decepção,
Com o disparate,
Com o desperdício de afeto,
De carinho,
De calor,
Até mesmo de amor.
Pode ser que seja normal,
E digo:
Pode ser que seja normal
Alguém achar uma obra banal
E o banal super legal.
Não faz mal!
Pois nada abala o intelecto,
O espírito
E muito menos a alma
De um poeta.
O poeta
É um maluco positivo,
É um remédio materializado
Ou o tudo de alguém.
Pode ser que seja normal
Aceitar o desprezo,
Correr para não chegar,
Olhar para não enxergar.
Pode até ser que seja normal
Achar que a tristeza é um caminho.
Eu amo a vida!
Sou casado com ela,
Fidelidade é até morrer.
Grande vida!
A minha,
A sua,
A nossa...
Tentei ser ruim e feio
Mas fui reprovado no curso
Do decurso,
Sem discurso
Que não exigiu concurso...
Apenas ser normal!
Pode ser que seja normal?
Ass. Narciso "O Poeta"
Contudo, justamente quando Narciso pensou que a fortaleza estava roída e que estava tudo acabado — amargando a certeza de que Helena Dolly não queria absolutamente nada com ele — o destino operou o seu milagre mais nobre: surgiu o primeiro beijo.
O Poeta ficou sem entender nada, completamente atônito, mas desfrutou daquele instante com tamanha intensidade que sua mente viajou, fazendo um belíssimo circuito por cima das nuvens mais altas. Que beijo gostoso! Que boca macia, de língua fininha e encaixe perfeito, foi um beijo inestimável, o melhor da sua vida.
Para o Poeta estava tudo acabado, assunto encerrado, embora ele não admitisse, ele sabia que seria remoto forçar a barra. Porém a Helena já conhecia o Poeta mais que ele mesmo e percebeu que ele estava se distanciando. Já não tinha mais aquelas poesias diárias, aquelas conversas agradáveis, o Narciso mal estava falando com a Helena.
Ele estava poupando a tensão e o sofrimento! Naquele dia, aconteceu o que o Narciso chamaria de milagre e o que praticamente vai reacender a chama que quase se apagou. A Helena Dolly simplesmente vai roubar um beijo do Poeta!
Tudo aconteceu como de costume. No final daquele expediente específico, o sinal verde acendeu e rolou o convite para aquela bela cervejinha do happy hour, a famosa loira gelada acompanhada de muito bate-papo descontraído. Naquele dia, Stefanny, uma grande amiga de Helena Dolly, estava junto na mesa. Ela pediu apenas um refrigerante e, demonstrando uma discrição inteligente, não estendeu muito a sua permanência; logo se desculpou e retirou-se do recinto, deixando os dois a sós na penumbra do estabelecimento.
Após os dois terem consumido cerca de quatro copos de cerveja, a conversa estava no ponto ideal de fervura. Foi quando Helena Dolly pediu licença e dirigiu-se ao toilette. Narciso ficou ali, sentado na mesa de fórmica, esperando e viajando em seus pensamentos, como sempre fazia. Olhava para o copo e pensava profundamente nela: sempre linda, imponente, uma joia rara de mulher. O Poeta precisava admitir para si mesmo que já estava um pouco "zumbetão" devido ao álcool, mas mantinha-se perfeitamente consciente de tudo ao redor.
Quando Helena retornou do toilette, deslizou graciosamente de volta para a cadeira bem na frente dele. Narciso a olhava fixamente, mergulhando o seu olhar bem dentro das suas pupilas. Pairou no ar um breve, denso e elétrico silêncio. Os impulsos dos corpos foram simultâneos, mas a atitude definitiva partiu dela. Helena Dolly inclinou-se para a frente e lascou um beijão tão gostoso, tão generoso e profundo que, naquele exato milésimo de segundos, o Narciso foi até a China e voltou em uma viagem interestelar. Que beijo maravilhoso! Roubado e esperado desde o primeiro olhar.
Aquele momento gravou-se a ferro e fogo na sua memória como um feito eternizado. O Poeta só faltou se beliscar ali mesmo na frente dela para ter a certeza absoluta de que aquele encontro de lábios foi real e não mais um dos seus rascunhos da madrugada. Aquele beijo renovou o espírito, obviamente abriu as portas e os caminhos para tantos outros que viriam a seguir e só fez aumentar o amor que já estava gigantesco que ele já sentia por ela.
Foi um momento muito especial. E como era de praxe em sua vida de cronista, Narciso não deixaria um evento daquela magnitude passar batido sem o registro da caneta. No dia seguinte, ele escreveu "Especial", uma ode àquela noite inesquecível e memorável. Para ele, o encontro teve uma autenticidade tão grandiosa que, em tom de brincadeira, ele comentava com seus botões que se pudesse não escovaria os dentes por alguns dias, apenas para preservar a textura daquele beijo e boca. Claro que era um jargão de escritor entusiasmado, mas refletia o quanto tinha sido bom.
O beijo havia sido muito esperado, sim, ao longo daqueles dois meses de vigília. Porém, ele jamais imaginou que aconteceria de forma tão repentina e avassaladora, quebrando todos os protocolos. Na mente metódica do pretendente, ele calculava aqueles estágios de rotina à moda antiga: primeiro marcar um encontro formal, depois pegar na mãozinha com cuidado, para só então chegar ao ápice e pedir um beijo. Mas o amor de Helena Dolly operava em outra sintonia. E por que aquele beijo deveria ser igual aos outros? Foi único, diferente e lindo, eternizado para sempre nas linhas que ele dedicou à sua deusa:
ESPECIAL
Ser especial
É olhar com bons olhos
As minúcias desta criatura
Que és uma bela escultura.
Se pensas que é mentira,
Ninguém me tira:
Tu és especial!
De lábios macios e finos
O beijo aflora,
Abrilhanta e decora.
Que delícia!
A malícia do beijo
Quando é especial de fato.
A delícia do ato
É uma novidade
Pro meu ser
Vindo de você,
Que és tão especial
E me faz querer o amor,
O calor
E fazê-lo com zelo.
Pois, és especial...
Que tal?
Não faz mal!
O corpo é magnífico.
A boca, delícia.
Perfil, dez!
Você, especial.
O especial
É igual a um espiral,
Genial!
Gira na própria atmosfera
Em torno de nós,
Na própria vida
Com cautela.
Pois, você
És especial.
Ser especial
É ter o essencial,
É ter o calor da vida
E o sabor do seu beijo.
É lindo ser querido
Como é lindo te querer...
Porque você és especial....
Ass. Narciso "O Poeta"
Um comparativo da Helena com a frieza da Sra Therezza
Certa vez Ela havia dito de forma tão fria e calculista, como se o Narciso fosse um nada, era como ele sempre se sentiu naquele casamento. Com a Helena Dolly, ele é um novo ser humano, nem consegue explicar tamanho sentimento de tanto amor. Enquanto a ex sempre o destratou.
A Thereza tinha certos resquícios de psicopatia. Certa vez, ela destruiu a cama na base da martelada e simplesmente jogou partes no quintal, partes utilizou para fazer uma cerca e o restante uma grande fogueira. Obviamente o Poeta ficou chateado, mas não era nenhuma novidade, mesmo estando acostumado com aquele tipo de insanidade, mais uma vez se decepcionou e chegou à conclusão que o encerramento daquele casamento era a decisão mais sensata.
Ele foi dando rumo à sua vida, apesar de ter tentado por um bom tempo mas sem êxito, a partir daquele momento, já tinha a certeza de que a melhor solução foi seguir o seu caminho, confirmado que aquele amor por tantos motivos tinha acabado até a “Helena Dolly entrar na sua vida”...
Ele continuou acreditando, trabalhando sempre convicto e na fé que em algum momento um fato ou algo importante mudaria minha vida, na verdade foi além do esperado, foi um inexplicável acontecimento que ocorreu, aos poucos Helena foi se encaixando no seu coração.
Helena Dolly foi um talismã enviado por Deus que chegou misteriosamente e misteriosamente se foi. Para quem acredita, houve muita influência negativas geradas pela ruindade da Sra Therezza que tinha jurado não dar um minuto de sossego e cumpriu a risca, mandando suas demandas espirituais à revelia e com total requinte de destruição.
Helena Dolly é completamente o oposto da Sra Therezza por ser: simpática, por ser franca, educada, ter caráter, respeito e muita gratidão, além de ser atraente e saber conquistar a amizade de todos de forma verdadeira.
Por tudo que aconteceu no ex casamento do Narciso, ele tem a certeza absoluta que a Sra Therezza, tinha um ódio visceral, por jamais ter demonstrado algum tipo de afetividade, ela sempre foi rústica, grosseria, impaciente e claramente ele sentia o quanto não a agradava, sempre fez o possível e nada, só estupidez, o Poeta sabia e tinha a consciência que nunca tinha sido o companheiro ideal que ela almejou e pagou um preço muito alto pela inexperiência, por insistir, confiar e acreditar que um dia seria feliz ao lado daquela mulher.
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@PietrodeLuccaPoeta ✒️📝🖋️
Escritor, Poeta, Contista e Cronista
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