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OS MISTÉRIOS DO ACASO - Capítulo 11

Pietrodeluccapoeta777
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Capítulo 11

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Capítulo 11

OS MISTÉRIOS DO ACASO

AS MOEDAS DO TEMPO E O RITMO DO CARMA

Cada beijo que Narciso trocava com a Helena era um despertar de grandes proporções. Aquele encontro de línguas não era mecânico; tinha um significado inexplicável que, ao invés de afastar o Poeta, deixava-o em estado hipnótico e ainda mais perdido nas nuvens da paixão. Era só chegar perto daquela musa para Narciso relaxar. Eles sentiam que suas almas, de certa forma, estavam muito envolvidas e ligadas; porém, aquele mistério era o impedimento sobre o qual ela sempre evitava falar, sequer tocando no assunto. O Poeta, se quisesse tocar na essência de sua musa, tinha que aceitar aquela situação, e só o fez por conta do amor que sentia cegamente — esse foi o único e exclusivo combustível que alimentou aquela paixão. Helena tinha captado cem por cento os sentimentos de Narciso e, no fundo, estava adorando aquele universo, que por sinal era um momento de raro prazer para ela. Aos poucos, Helena começa a ceder àquele apelo gestual do Poeta!

Narciso, O Poeta, ainda se encontrava naquela incômoda e torturante posição de quem está em cima de um muro estreito. A dúvida persistente e a indecisão crônica começavam a importuná-lo dia e noite, como dois fantasmas que se recusavam a deixar o seu quarto. A cada olhar evasivo recebido, ele se convencia um pouco mais de que estava apenas perdendo o seu precioso tempo, correndo atrás de uma linda mulher que insistia em demonstrar, através de gestos e silêncios, que não queria nada sério com ele. Era um fato explícito, muito claro e desenhado na rotina deles. No entanto, aquela paixão cega e avassaladora funcionava como uma mordaça nos olhos do escritor, impedindo-o de parar a caminhada, embora no seu íntimo só conseguisse enxergar pedras pontiagudas pelo caminho e carinhos jogados ao vento.

Certa vez, no final de mais um expediente pesado, enquanto dividiam a mesa discreta daquela velha lanchonete, Narciso deixou a paciência de lado. Tomado por uma urgência que vinha do fundo do peito, olhou fixamente para Helena Dolly e perguntou de forma curta e direta:

— Helena, por gentileza, me responda com toda a sinceridade do mundo... Você gosta de mim?

— Eu não! — disparou ela, de pronto.

Pairou um breve, denso e doloroso silêncio na mesa. Antes que o coração do Poeta despencasse por completo, Helena quebrou o gelo com um meio sorriso e emendou:

— Você acha mesmo que eu me arriscaria contigo por nada, Narciso?

— Sinceramente? Não parece, Helena... É exatamente isso o que eu sinto através do seu distanciamento, mas... — o escritor tentou argumentar, com a voz embargada.

— Narciso, preste bem atenção no que vou te falar agora — interrompeu ela, mudando o tom para uma gravidade doce. — Você é exatamente o tipo de homem que toda mulher gostaria de ter ao lado nesta vida. Eu apenas tenho um medo enorme de te magoar. Você não merece passar por isso.

— Entendi... Acho que eu te perturbo demais com as minhas cobranças e poesias, né, Helena? Mas pode deixar... Eu vou acabar me acostumando com o seu jeito — respondeu ele, recolhendo as mãos e cruzando os braços.

— Narciso, você não me perturba de jeito nenhum! Eu já lhe disse dezenas de vezes: eu simplesmente adoro estar com você, sempre! — garantiu ela, tocando a ponta dos dedos dele por cima da mesa.

Apesar de aquela conversa revelava a complexidade dos nós que os amarravam, a começar pelos “mistérios” de Helena, que nem precisava ser explícita para dizer que era comprometida, mas até aquele momento, o Narciso tinha certo valor sentimental para ela, sentindo com as palavras ditas por ela, uma esperança de sentir aquela alma especial na intimidade. Coisa que foi nutrindo aos poucos, com a insistência persuasiva do Poeta e com a força das palavras. Na verdade, ambos estavam apaixonados com restrições e limitações sérias por parte dela.

O Poeta e Helena tinham, na verdade, uma infinidade de coisas em comum, a começar pela exata cronologia de suas vidas: ambos dividiam a juventude com os seus 26 anos de idade. O detalhe mais impressionante, que Narciso descobriu vasculhando as memórias do passado, era que durante muito tempo os dois haviam frequentado exatamente os mesmos lugares na noite paulistana — os mesmos salões de baile, as baladas e os shows da época. No entanto, o destino preferiu mantê-los como perfeitos desconhecidos naquele tempo. Eles só foram parar frente a frente, olho no olho, em uma época totalmente distante da juventude e num lugar burocrático e improvável como aquela empresa, um cenário que não tinha absolutamente nada a ver com o romance.

Enfim, o tempo... Esse misterioso e implacável arquiteto fez com que as linhas de suas vidas se cruzassem tardiamente de uma forma tão contagiosa que Narciso não aguentou o peso da reflexão. Sentou-se diante de sua máquina de escrever e dedicou suas linhas ao Tempo, compreendendo-o como um elemento abstrato que espalha o reflexo exato de nossas atitudes. Para o escritor, a vida era uma ciência exata, e o tempo era a engrenagem principal de sua fórmula. E os versos nascem assim:

O TEMPO

*

O tempo,

Companheiro infalível

Do meu caminhar.

Das jornadas diurnas e noturnas,

Das alegrias e tristezas.

*

O tempo,

Meu irmão,

Meu amigo,

Sempre esteve comigo.

No sol e na chuva,

No prazer e na tortura.

*

O tempo,

Meu parente considerado,

Meu próximo bem próximo,

Meu ídolo, meu fã.

Quando o afã

Está em cartaz

E nos traz a paz.

*

O tempo,

Que faz parar o tempo,

Nunca quis meu mal.

Já me livrou de cada uma!!!

Sou muito grato.

*

O tempo,

Meu aliado,

É visado, mas considerado.

E jus

Faz a quem merece.

Som de todas as músicas,

Ritmos de todas as danças,

Quando lanças em minha alma

O prazer de ver suas obras.

*

O tempo,

Para quem não sabe,

É o destino de cada um.

Jamais poderei negar

Que ele nunca me deu oportunidades.

Na verdade, é meu parceiro,

É meu médico, meu remédio

No tédio do cotidiano.

*

O tempo,

Um abstrato presente

Das metáforas da vida.

É meu Deus, pois comigo está,

Sempre, sempre, sempre...

*

Muito obrigado, tempo,

Pelo tempo concebido e cedido.

Pelo tempo de notar

Que o amor existe

E insiste como um grande instrutor...

Meu professor,

O Tempo..

*

Ass. Narciso "O Poeta"

Para Narciso, falar sobre as marcas do Tempo não significava de forma alguma que o homem deveria estagnar ou parar nele; ao contrário, significava seguir a vida de peito aberto, fazendo dos dias passados apenas uma ponte sólida, um caminho de aprendizado e um referencial seguro para as próximas jornadas.

No decorrer daqueles fatos, o Poeta, totalmente empenhado em manter o seu ritmo compulsivo de escrita, começou a notar algo sutil. Helena Dolly, embora fizesse um esforço tremendo para não demonstrar nenhuma quedinha, começava a dar pequenos e involuntários indícios de um amor que parecia estar incubado em seu peito há muito tempo. Mesmo com todos os mistérios que ela sustentava, com as dúvidas que pairavam no ar e com as desconfianças mútuas, a barreira estava cedendo.

A cada novo beijo trocado na saída do trabalho, a cada abraço apertado no meio da chuva, Narciso percebia que o momento do verdadeiro encontro de almas, a intimidade física e carnal estava ficando muito próxima. Apesar da experiência de uma mulher madura e vivida, Helena não conseguia esconder os arrepios na pele a cada beijo, o seu olhar e jeitos “caguetaram” uma paixão intensa e tudo vinha acontecendo de uma forma tão espontânea, natural e fluida que a sensação de familiaridade assustava: os dois pareciam se conhecer desde a infância. Esse entrosamento de almas foi o fator preponderante que auxiliou no fortalecimento daquela união silenciosa.

Com o controle de suas emoções quase totalmente comprometido pela proximidade da musa, Narciso encontrava alívio para suas tensões românticas na ponta da caneta. E, no embalo daquele desejo que parecia que ia rasgar o peito, ele deu vida ao manifesto "Um Cara no Mundo", uma declaração direta de suas intenções:

UM CARA NO MUNDO

*

Sou um cara

Que gosta muito de você.

Só não entendo o porquê...

O que foi que você fez?

*

Tento escapar,

Mas os ventos do carma

Me levam até você.

*

Sou um cara no mundo

Que levo a minha vida

E meu jazz,

Como gente que faz.

Tenho coração e tenho alma,

E também sei amar.

*

Sou apaixonado pelas coisas boas e belas,

Uma delas é você, amor.

Por quê?

*

Neste caminhar,

A matéria amar

É a que mais gosto.

Quando estou fazendo amor,

A vida fica mais vida.

Sua essência, por excelência,

Faz saciar o meu coração

E faz o meu amor

Te fazer mulher.

*

O carinho que tenho

É pelo empenho

Do bom começo.

*

Meu coração é teimoso

E também tinhoso,

Está sempre risonho.

Seus detalhes, só de imaginar,

Me deixam louco...

E não é pouco!

*

Para o bem de nossas almas,

Tem que acontecer.

De preferência, até o amanhecer.

Caso não,

Aceito até o entardecer,

Para nunca mais esquecer...

Mas tem que ser com você,

Helena coisa linda...

*

Ass. Narciso "O Poeta"

Narciso não via a hora e até sonhava com a chegada do grande momento, ele sentia que aquela doce essência disfarçada de frieza, se entregava aos poucos, bem paulatina, quase imperceptível. Mas a paixão deixa o “pretendente” com os olhos de lince. Ele queria tê-la como complemento do amor visceral que sentia por ela e não por capricho machista. O Poeta via o corpo de Helena como o louvor divino, um fruto sagrado para ser tocado com o máximo de respeito, zelo e amor. De certa forma, ela sempre percebeu.

(Responda nos comentários)

*O Poeta acredita que as marcas do passado são pontes para o futuro. Na sua visão, é possível manter a 'paciência de um predador' quando o coração está acelerado pela espera?

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​Este capítulo é uma publicação oficial do Selo 444. Descubra os mistérios do acaso todas as quartas-feiras e aos sábados.

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​@PietrodeLuccaPoeta ✒️📝🖋️

Escritor, Poeta, Contista e Cronista

Athelier das Letras - Selo 444

opoetalk520.substack.com

pietrodeluccapoetanarcisosilva.blogspot.com

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