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Capítulo 03 - Os Homens de Mogester

KazzTeles
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Mogester era o tipo de cidade que fazia as pessoas perguntarem por quê alguém escolheria morar ali. Ela ficava ao norte de Cocite, o Estado localizado ao norte do País, a cidade era apertada entre…

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Mogester era o tipo de cidade que fazia as pessoas perguntarem por quê alguém escolheria morar ali. Ela ficava ao norte de Cocite, o Estado localizado ao norte do País, a cidade era apertada entre duas cadeias de montanhas e seu lago permanecia congelado durante quase oito meses do ano, No versão, quando o gelo finalmente começava a ceder nas bordas, os moradores comemoravam chamando de Festival do Verão Quente, embora a temperatura raramente fosse suficiente para permitir que alguém saísse de casa sem casaco. No inverno, o sol aparecia tarde, desaparecia cedo e, em determinados dias, parecia simplesmente desistir de atravessar as nuvens.

Era uma cidade branca, silenciosa e pequena o bastante para que todos soubessem quem havia se casado com quem, quem estava devendo dinheiro e quem chegara no ônibus de tarde antes mesma dessa pessoa retirar a mala do bagageiro.

Foi nessa viagem que chegou o médico Elias Varne, no começo de janeiro. Ele tinha 36 anos, duas malas, um caixa de livros médicos e a convicção de que permaneceria ali apenas durante os dois anos exigidos pelo programa de interiorização hospitalar. Elias havia trabalhado a maior parte de sua carreira em Grifine, onde os hospitais eram grandes, exames chegavam rapidamente e qualquer caso estranho podia ser transferido para um especialista no andar de cima. Já Mogester possuía um hospital municipal de 24 leitos, um aparelho de radiografia que precisava ser convencido a funcionar durante o inverno e uma equipe médica tão pequena que o diretor havia comemorado sua chegada como se ele tivesse trazido uma nova ala inteira dentro das malas.

O Hospital Municipal de Santa Lúcia ficava próximo à entrada da cidade, era um prédio baixo, comprido e pintado de um amarelo que provavelmente parecera bonito quando fora escolhido muitos anos antes. O diretor, doutor Anselmo Krein, estava esperando Elias na recepção. Era um homem grande, de voz baixa e movimentos lentos. A primeira coisa que Elias reparou nele foi seu rosto, não porque houvesse algo particularmente estranho, mas porque era um rosto fácil de lembrar: cabeça larga, nariz levemente torto para a esquerda, olhos pequenos e muito próximos, sobrancelhas grossas e uma cicatriz discreta que começava abaixo da orelha direita e desaparecia no pescoço. Anselmo devia ter perto de 60 anos.

— Finalmente — disse o diretor, apertando sua mão. — Mais um médico! Se você soubesse quantas vezes eu visitei o hospital de Grifine para sequestrar algum residente... – Ele riu. – Se eu soubesse que iria demorar tanto, teria escolhido outro programa.

— Ainda dá tempo de eu pegar o ônibus de volta. – Elias riu. – Se o senhor cancelar agora com a direção, eu volto agora! – Era uma piada, com uma verdade escondida, ele claramente não queria ficar ali.

— Não dá. O próximo só sai quinta-feira.

Era segunda.

Anselmo disse isso com tamanha naturalidade que Elias precisou perguntar se estava brincando - não estava. No inverno, alguns ônibus chegavam apenas duas vezes por semana, quando chegavam. Nevascas fechavam a estrada com frequência e os voos regionais haviam sido interrompidos anos antes porque o pequeno aeroporto local já não recebia manutenção adequada.

Naquela primeira tarde, Elias conheceu o hospital, a equipe e o apartamento funcional que lhe fora cedido. A enfermeira-chefe, Mara, tinha quarenta e poucos anos, usava óculos presos por uma corrente tão velha, que poderia ser mais velho do que o paciente mais antigo vivo ali daquele hospital. Havia ainda uma pediatra, doutora Celene, um cirurgião chamado Armando e dois clínicos que alternavam os plantões. Os médicos mais jovens vinham e iam, e segundo Mara, Mogester não conseguia manter profissionais por muito tempo.

— É o frio? — Elias perguntava.

— Também.

Ela não explicou o restante.

A cidade, no entanto, não pareceu tão ruim quanto ele imaginara, havia uma praça central, uma igreja antiga, algumas lojas, dois restaurantes, uma biblioteca e até um cinema que funcionava apenas aos finais de semana. Crianças escorregavam em trenós improvisados pelas ladeiras e os moradores eram educados de uma maneira quase exagerada, Elias percebeu rapidamente que ali ninguém atravessava outra pessoa na rua sem cumprimentá-la.

O primeiro homem idoso que encontrou fora do hospital chamava-se Tomás Herne.

Elias entrou em uma mercearia para comprar pão, café e algumas coisas para o apartamento, Tomás estava atrás do balcão, devia ter aproximadamente 60 anos e tinha uma cabeça larga, nariz levemente torto para a esquerda, olhos pequenos e sobrancelhas grossas. Elias reconheceu o rosto e por um instante achou que fosse Anselmo.

— Doutor novo? — perguntou o homem.

O rosto era quase idêntico ao de Anselmo, mas a voz era completamente diferente. Elias ficou olhando um segundo além do normal.

— Desculpa... Sim. – Disse ele.

— Imaginei! Cidade pequena, garoto... Quando alguém novo chega, ou é médico ou fez alguma coisa muito errada em outro lugar, tipo um criminoso fugindo da capital para se esconder por aqui. – O homem sorriu. – Você não seria um criminoso, seria?

A cicatriz começava abaixo da orelha direita e desaparecia no pescoço. Elias sentiu um desconforto breve, mas imediatamente encontrou uma explicação plausível: Irmãos ou talvez primos.

Em cidades pequenas, famílias grandes costumam permanecer próximas durante gerações.

— O senhor é parente do doutor Anselmo? — perguntou.

— Anselmo do hospital? – Tomás pareceu confuso.

— Sim, o doutor!

— Ah, não, não somos parentes!

— Vocês se parecem.

— Todos os que chegam pela primeira vez na cidade dizem isso. – Tomás riu.

Apesar da estranheza não havia motivo para insistir ou questionar aquela coincidência de rostos, Elias pagou as compras e foi embora.

Na manhã seguinte, conheceu Júlio Masser, o homem chegou ao hospital reclamando de uma dor no joelho que vinha piorando havia meses, ele tinha 63 anos. Quando entrou no consultório, Elias percebeu imediatamente o mesmo rosto: Cabeça larga, nariz torto, olhos pequenos, sobrancelhas grossas e a cicatriz.

Dessa vez ficou difícil ignorar.

— Bom dia, doutor novo. — disse Júlio, sentando-se.

— Bom dia. Júlio Masser? – Elias abriu o prontuário do paciente.

— Eu mesmo! O próprio em carne, osso e muita dor. – Brincava.

— O senhor por acaso conhece o doutor Anselmo Krein?

— Todo mundo conhece Anselmo. – Júlio riu. – Ele é o diretor do hospital e responsável legal por cuidar da nossa saúde por longos anos, como eu não conheceria?

— E vocês são parentes?

— Não.

— E Tomás Herne? Conhece?

— O da mercearia? – Júlio franziu as sobrancelhas.

— Sim.

— Conheço, claro que conheço! Somos amigos de longa data.

— Também não é parente?

— Doutor, o que meu joelho tem a ver com Tomás? – Júlio franziu ainda mais a testa.

Elias percebeu que estava sendo inconveniente, e aquelas perguntas não faziam parte da anamnese que ele deveria estar realizando naquele momento.

— Nada, desculpa. Eu só achei vocês parecidos e comecei a puxar assunto. Conhecer os novos pacientes é muito importante! – É claro que Elias estavam mentindo, estava completamente desconfortável com o fato daquele homem em sua frente se parecer tanto com o diretor do hospital, quanto com o vendedor da mercearia próxima a sua casa.

— Aqui todo mundo fica feio igual depois dos sessenta. - Júlio deu de ombros.

Era uma piada simples, mas incômoda. Elias riu e examinou o joelho, havia sinais claros de artrose, nada incomum. Prescreveu analgésicos, solicitou uma radiografia e encerrou a consulta. Mas antes de Júlio sair, porém, Elias o chamou.

— Senhor Júlio! – Exclamou de forma tão alta que o som ecoou pela sala, Elias apontou discretamente para a própria orelha. — Essa cicatriz, próximo a sua orelha. O que aconteceu para ter ela?

— Que cicatriz? – Júlio tocou o lado direito do pescoço.

Elias levantou e aproximou-se de Júlio, ele não havia visto se tinha uma cicatriz ali, mas ela realmente estava ali, fina e esbranquiçada.

— Essa aqui.

Júlio foi até o pequeno espelho sobre a pia, inclinou o rosto e ficou passando o dedo pela cicatriz.

— Ah. – Parou de passar os dedos. — Nunca tinha reparado.

— Nunca? – Elias ficou olhando para o reflexo de Júlio no espelho.

— Acho que não, pelo menos não enquanto eu estava mais moço. Se aconteceu durante minha infância eu não vou saber explicar, porque eu tenho aquela doença de velho, aquela que a gente começa a esquecer das coisas.

O médico preferiu não insistir.

Nas manhãs seguintes, ele pôde perceber algo curioso envolvendo os homens daquela cidade, ela possuía pouco mais de seis mil habitantes, não dava para ele observar todos, evidentemente, mas bastaram alguns dias atendendo para perceber um padrão que teria sido impossível ignorar em qualquer outro lugar. Homens jovens tinham aparências distintas: Adolescentes, adultos de vinte, trinta e quarenta anos tinham rostos perfeitamente comuns e variados, alguns com olhos puxados, outros com olhos mais abertos e alguns tinham nariz e boca pequena, porém depois da idade dos cinquenta anos, entretanto, alguma coisa começava a acontecer com eles. Não era uma mudança repentina: um homem de quarenta e dois anos podia ter apenas o nariz parecido, outro, aos cinquenta e cinco anos, já possuía os mesmos olhos, aos cinquenta e oito anos, a mandíbula começava a alargar, até que depois vinham as sobrancelhas e aí quase todos pareciam irmãos, até se tornarem praticamente iguais.

As mulheres não apresentavam qualquer alteração.

Elias inicialmente acreditou estar sofrendo algum tipo de efeito psicológico, talvez tivesse reparado em dois homens muito parecidos e, depois disso, começado a procurar semelhanças onde não existiam. Acontece que o cérebro humano é eficiente em encontrar padrões, inclusive aqueles que realmente não estão presentes. Como médico, ele sabia disso, também sabia que reconhecer rostos depende de processos complexos e que cansaço, estresse e mudanças ambientais poderiam interferir na percepção, e por esse motivo, evitou comentar com qualquer pessoa durante quase um mês.

Então aconteceu o velório de Edgar Noll.

Edgar era um dos técnicos de manutenção do hospital, ele tinha quarenta e nove anos e morreu depois de sofrer um acidente ao dirigir durante uma nevasca. O funeral ocorreu na igreja central da cidade, e praticamente metade da cidade compareceu, Edgar era um homem extremamente rabugento, porém, da mesma forma, era amigável com todos na cidade. Elias foi por respeito ao colega, e foi ali que viu mais de cem homens reunidos no mesmo espaço, os jovens eram perfeitamente distintos, mas os velhos não. Sentados em bancos diferentes, usando roupas diferentes e demonstrando expressões diferentes, havia dezenas do mesmo homem.

Elias ficou no fundo da igreja e ficou tentando contar quantos ali se pareciam, mas desistiu de contar quando chegou em quarenta e três. Viu Anselmo, ele estava na primeira fila, Tomás Herne estava algumas fileiras atrás, Júlio Masser estava próximo da porta, havia também um homem que Elias não conhecia e ele segurava um chapéu nas mãos, outro chorava, outro dormia, mas todos carregavam variações do mesmo rosto. O mais perturbador para Elias era que ninguém parecia notar.

Depois da cerimônia, Elias encontrou Mara do lado de fora. A enfermeira acendia um cigarro enquanto observava a neve fina caindo sobre o estacionamento.

— Posso te perguntar uma coisa estranha? — Disse ele se aproximando.

—  Você está em Mogester, doutorzinho. Perguntas estranhas costumam ser sempre as mais interessantes, nos tira da rotina. — Mara soprou lentamente uma linha de fumaça que se estendia pelo ar.

— Eles ali... — Elias apontou para quatro homens que estavam conversando próximo de um carro. — ...Eles são parentes?  

— Quem? — Mara apertou os olhos, havia esquecido seus óculos naquele dia.

— Aqueles quatro homens ali.

— Ah, eu conheço eles! São o Armando, Jacó, Valter e acho que o outro é o Silas... E pelo que eu me lembre, eles não são parentes, não. — Mara encarou Elias novamente.

— Você não acha que eles se parecem? — Retrucou.

— Um pouco... Eles são os homens mais velhos de Cocite, Elias. Barba, nariz grande, cara meio batida pelo tempo, o frio do inverno costuma mudar a nossa aparência.

— Não estou falando disso, Mara.

— Então está falando de quê? — Mara se abaixou e apagou seu cigarro na neve.

Elias hesitou, parecia ridículo dizer o que ele queria dizer em voz alta, mas mesmo assim decidiu colocar para fora.

— Eles possuem o mesmo rosto, você não perceber?

Mara voltou a olhar novamente para os homens, por alguns segundos, Elias achou que finalmente teria uma resposta para aquela questão que lhe assombrava, mas recebeu um sorriso amarelado como resposta.

— Você deveria dormir mais, doutorzinho.

A conversa terminou ali.

Naquela mesma noite, Elias fez algo que posteriormente consideraria a primeira decisão ruim desde que chegara a Mogester. Em vez de aceitar a possibilidade de estar imaginando as semelhanças, decidiu documentá-las. Não fotografaria pacientes sem autorização, claro. Em vez disso, começou pelos registros públicos, o jornal municipal mantinha uma página digital com fotografias de eventos, cerimônias, competições esportivas e reuniões comunitárias.

Elias passou horas salvando imagens, encontrou uma fotografia de uma cerimônia realizada no ano anterior e percebeu que Anselmo estava ao lado do prefeito, e ambos tinham o mesmo rosto. Outra imagem mostrava uma confraternização de aposentados e dos dezessete homens, quatorze pareciam com Anselmo.

Uma fotografia do campeonato local de pesca mostrava os vencedores de diferentes idades. O homem de quarente e três anos possuía um rosto completamente diferente,  o de cinquenta e um começava a apresentar algumas semelhanças, já o de sessenta e oito parecia uma cópia de Anselmo. Elias aproximou as imagens e havia algumas pequenas diferenças no formato da orelha, nas linhas de expressão, em algumas manchas na pele, mas estruturalmente eram iguais e todos tinham a cicatriz, o que eliminava a hipótese de uma coincidência genética.

No dia seguinte, Elias perguntou a Anselmo sobre sua cicatriz, eles estavam tomando café na pequena sala dos médicos quando encontrou coragem pra perguntar.

— Doutor, posso perguntar como você ganhou essa cicatriz?

— Não, não pode. — Foi uma resposta inesperada, mas após alguns segundos, doutor Anselmo soltou uma alta gargalhada. — Estou de zoas, como os jovens dizem hoje em dia, está falando de qual cicatriz? — Anselmo tocou seu pescoço.

— A do lado direito.

Anselmo se levantou e foi até um espelho preso na parece, e ali ficou por dois minutos inteiros. — Interessante... — Repetia enquanto passava os dedos na cicatriz.

— Você não sabia?

— Não lembrava dela.

— O senhor não lembrava de uma cicatriz desse tamanho?

— Elias, eu estou ficando velho, eu não lembro nem o que eu jantei ontem. Se eu precisar lembrar de cada lugar onde meu corpo se machucou, eu não vou mais fazer nada da minha vida porque eu sou cheio de cicatrizes. — Disse Anselmo enquanto voltava para a cadeira.

— O senhor sabia? — Elias permaneceu olhando. — Todos os homens mais velhos daqui têm essa marca.

Anselmo não respondeu imediatamente, bebeu um gole de café e ficou encarando Elias por breves segundos, e franziu a testa.

— Você anda olhando muito para homens mais velhos... Por acaso possui algum fetiche estranho ou é aquilo que essa nova geração chama de turma LGBT?

— Eu estou falando sério, doutor Anselmo.

— E eu também, você precisa controlar esse seu desejo sexual enquanto estamos trabalhando. — Anselmo tomou mais um gole de café. — Se for o caso, saiba que eu não tenho preconceito, inclusive tenho pacientes que são gays e os respeito muito.

— Doutor.... — Elias puxou o celular do bolso e o colocou sobre a mesa, então começou a passar algumas fotografias. — Olha! Olha pra isso aqui!

— O quê? — Anselmo observava.

— Eles são iguais.

— Não, não são.

— Anselmo, olha para todos os rostos dessas imagens!

— Tá bom... — Anselmo se aproximou, colocou seu óculos e começou a analisar minuciosamente cada uma das fotos. — Esse aqui eu conheço, é o Tomás, esse aqui é o Valter, esse aqui é o Artur e esse outro é o prefeito.

— Eu sei quem eles são!

— E qual o problema, meu filho? Eu não tô entendendo.

— O problema é que todos têm a sua cara! — Elias sentiu uma irritação que não conseguiu esconder.

Anselmo ficou imóvel observando assustado o rápido ataque de fúria de Elias, foi a primeira vez que Elias percebeu uma mudança real na expressão do diretor. Ele colocou o celular de Elias sobre a mesa e começou a recolher seus pertences.

— Não faça isso, Elias...

— Fazer o quê?

— Não continue com isso...

— Continuar o quê?

— Você tem pacientes esperando. — Disse Anselmo com uma voz calma e baixa, ele se levantou e saiu da sala.

Elias ficou imóvel ao ver a reação do diretor, até aquele momento, todos haviam reagido como se não entendessem o que ele vivia falando, mas parecia que Anselmo sabia de coisas que ninguém mais na cidade sabia, Anselmo entendia. Elias saiu correndo da sala e foi procurar por Mara.

— Ele sabe! — Gritava ele.

— Quem? — Mara perguntou.

— O doutor Anselmo, ele sabe sobre os rostos!

— Você ainda está nisso? — Mara suspirou fundo e revirando os olhos, continuou. — Já não falei pra você ir dormir? Você tá com poucas horas dormidas e por isso tá alucinando.

— Mara... Eu mostrei as fotografias para ele e ele disse pra eu parar.

— E talvez você realmente devesse parar. — Mara parou de olhar o médico e começou a organizar alguns medicamentos que estavam sobre a sua mesa.

— Você também sabe, né? — Elias ficou alguns segundos sem respirar, não conseguia, ele viu Mara parando brevemente de mexer nos medicamentos e em seguida retornar, mas sem olhar para ele. — Mara... — Foi o suficiente.

— Escuta doutorzinho. — Ela fechou a gaveta. — Existem coisas em uma cidade pequena que você apenas aprende a não transformar em assunto.

— Mas Mara, os homens ficando com o mesmo rosto não é uma peculiaridade cultural.

— Fale baixo, garoto!

— Por quê?

— Porque você é recém-chegado, está aqui há um mês e acha que entender uma coisa significa que possui o direito mexer ela de lugar.

— Então é real? — Perguntou ele, mas não veio nenhuma resposta. — Mara.

— Garoto, eu tenho pacientes pra realizar a triagem.

Elias se afastou lentamente dela.

A partir daí, a curiosidade de Elias deixou de ser apenas curiosidade, se as pessoas não percebessem nada, ele poderia aceitar a possibilidade de algum distúrbio de percepção, mas aparentemente Mara e Anselmo percebiam.

Ele então decidiu ir atrás de mais registros antigos. Foi até a Biblioteca Municipal de Mogester que ficava em um prédio próximo à Praça Central. A responsável pelo arquivo histórico se chamava Cássia, era uma mulher de setenta e quatro anos que parecia conhecer a história de todas as famílias da região, Elias disse que estava pesquisando doenças hereditárias comuns na cidade – Não era uma mentira completa.

— Você quer fotografias também? — Cássia perguntou.

— Principalmente fotografias!

Ela o levou até uma sala que ficava no segundo andar, lá havia caixas com jornais, documentos e diversos álbuns digitalizados.

— Quão antigo precisa ser sua pesquisa, jovenzinho?

— O mais antigo possível! — Ele respondeu e os dois começaram a rir.

— Sabe, Mogester foi fotografa mais vezes do que merecia, uma cidade tão pequena e era visitada por anos e anos por diferentes “ciencenses”, eles vinham tiravam fotos e iam embora.

As primeiras imagens datavam de um pouco mais de cem anos antes, então Elias começou por elas, encontrou uma fotografia de 1921 e mostrava alguns homens trabalhando diante de uma madeireira. Era possível ver 23 homens jovens e 4 mais velhos, e os 4 possuíam o mesmo rosto. Elias sentiu uma pressão desagradável no peito. Resolveu procurar ainda mais e encontrou uma foto de 1928 de uma procissão religiosa e lá também haviam rostos parecidos, na foto de 1935 no Conselho Municipal novamente os mesmos rostos, em 1949 na construção da antiga ponte estavam os mesmos rostos.

Isso significava que o homem “original” existia muito antes de Anselmo nascer, ele passou horas comparando imagens. O padrão não apenas estava presente como parecia perfeitamente consistente: Antes dos cinquenta haviam rostos diferente, mas depois as características começavam a convergir. Mas havia algo pior, o rosto era sempre exatamente o mesmo, não acompanhava as gerações.

Se fosse algum traço genético espelhado pela população, poderia mudar lentamente, mas não mudava. O homem de uma fotografia de 1921 parecia Anselmo, possuía a mesma cabeça, o mesmo nariz, os mesmos olhos, a mesma cicatriz.

Elias então chamou Cássia.

— Quem é esse?

— Qual? — Ela colocou os óculos, e olhou para onde Elias estava apontando. — Ah, esse aí é o falecido Samuel Reith.

— E esse? — Elias apontou pra outro homem na foto. — É irmão do Samuel?

— Esse? É o Dimas Holtz e não, eles não são irmãos.

— E a senhora não acha eles parecidos?

— Bom... — Cássia olhou pra Elias com preocupação, olhou pra foto novamente e disse em baixa voz. — É... Talvez um pouco...

Era a mesma resposta de sempre.

Elias indignado com pouco, procurou um pouco mais entre os jornais e puxou uma fotografia de 1994.

— E esse? — Ele nem tinha olhado com atenção pra foto, mas sabia exatamente pra quem apontar.

— Doutor. — Cássia começava a demonstrar incômodo. — Todos eles já morreram. Qual a importância deles pra sua pesquisa?

Elias percebeu que estava sendo insistente e não conseguiria nada pressionando a Cássia, ele largou a fotografia e começou a voltar mais ainda. Depois algumas longas horas, encontrou a primeira coisa que quebrava o padrão que vinha acompanhando por horas.

Ele encontrou uma fotografia de 1894, que mostrava a inauguração da antiga estação ferroviária da cidade, e dezenas de pessoas estavam comemorando alinhadas diante do prédio. Foi ali que ele notou que nos homens mais velhos não havia aquele rosto. Resolveu voltar mais ainda encontrando fotos de 1891, 1888, 1884, mas em nenhuma delas era possível encontrar o “maldito rosto”, então ele entendeu: O fenômeno havia começado em algum momento entre 1894 e 1921.

Elias começou a investigar os jornais desse período, mas a maioria das edições retratava acontecimentos comuns na rotina da cidade: tempo de colheitas, algum acidente na estrada, eleições locais acontecendo, nevascas assolando e casamentos sendo marcados, mas ao procurar um pouco mais encontrou uma matéria de 1903: HOMEM RETORNA DAS MONTANHAS APÓS DESAPARECIMENTO DE CINCO HOMENS.

A reportagem explicava que onze moradores haviam partido para explorar uma antiga passagem ao norte de Mogester. Na época, o prefeito tinha um enorme interesse em construir uma estrada que atravessasse as montanhas, mas como se tratava de uma missão de reconhecimento, foram enviados onze homens, mas apenas sete voltaram e os outros cinco nunca mais foram encontrados.

Bem abaixo do noticiário havia uma fotografia com os sobreviventes alinhados, todos eles eram jovens, então claramente nenhum possuía aquele rosto maldito, mas dentre eles estava um homem velho chamado Oskar Verne. Elias leu novamente a notícia em busca de algum erro, pois ele se chamava Verne e não Varne, como seu sobrenome, achou aquela uma curiosa coincidência, mas decidiu continuar pesquisando.

Após três anos do incidente havia outra fotografia dos mesmos sobreviventes durante uma cerimônia, todos eles pareciam mais velhos e um deles começava a apresentar o nariz torto. Em 1912, três ainda estavam vivos e já possuíam os olhos iguais. Em 1920, Oskar Verne aparecia sozinho em uma fotografia ao lado da prefeitura e já tinha o “rosto maldito” completo e uma cicatriz que descia da orelha. Ele correu pra impressora, tirou algumas cópias e decidiu sair da biblioteca, já estava escuro quando isso aconteceu.

Do lado de fora da biblioteca, Anselmo o esperava, o diretor não parecia irritado, na verdade, parecia decepcionado.

— Diretor... — Elias sentiu um calafrio percorrendo todo o seu corpo. — A Mara te contou que eu comentei com ela?

— Nem precisou. — Anselmo olhou pro céu e esfregou sua cara com suas mãos, ele deu um alto suspiro. — Você não tá fazendo questão de esconder isso de ninguém, então é fácil de saber o que vai fazer.

— O senhor sabe há quanto tempo isso vem acontecendo? — Elias balançou os papéis.

— Elias. — Anselmo olhou para as janelas da biblioteca e notou um breve vulto por entre as frestas de uma persiana. — Vamos conversar em outro lugar.

Eles foram até um pequeno bar próximo à Praça Central, não havia muita gente naquela noite, mas havia música boa para os ouvidos de Anselmo — era o bastante. Eles entraram e sentaram em uma mesa no fundo, Anselmo pediu duas doses de uma bebida local conhecida como “Rabo do Íncubos”, ofereceu para Elias, mas ele recusou, então o diretor bebeu as duas, por mais que a bebida fosse considerada a mais forte de todo o país, o diretor nem expressou desconforto ou fez alguma careta.

— Você encontrou o Oskar? — Perguntou o diretor, levantando a mão e pedindo mais duas doses.

Elias sentiu um arrepio.

— Então o senhor realmente sabia... — A expressão de Elias começou a mudar, ele suava tanto que era possível ver o suor escorrendo pela sua testa.

— Claro, que tipo de médico eu seria se não percebesse? Todo diretor de hospital descobre em algum momento. — Anselmo ofereceu seu lenço de bolso para que Elias limpasse seu rosto suado. — Calma, garoto! Não precisa ficar tão nervoso.

— Todo diretor descobre o quê? — Perguntou.

— Que os homens daqui envelhecem diferente. — Anselmo tomou mais duas doses da bebida. — Bom, pelo menos é o nome que damos aqui: envelhecer diferente.

— Isso não é envelhecer diferente, eles ficam iguais! Por quê eles tem esse nome?

— Porque não temos outro nome pra dar. — Anselmo sorriu. — Ou prefere um nome longo como de outras enfermidades, por exemplo podemos chamar de algo parecido a mucopolissacaridose ou pneumoultramicroscopicossilicovulcanoconiose. — Ele riu, tentando quebrar aquele clima de tensão que havia se formado.

— Doutor, o que aconteceu em 1903? — Elias colocou algumas cópias das fotografias na mesa. — O senhor sabe, não sabe?

— Na verdade não, ninguém sabe.

— Como não sabe? Vários homens subiram aquela montanha e alguns desapareceram.

— Sim, mas não desapareceram imediatamente.

— Então o que aconteceu? — Elias bateu na mesa, estava ficando impaciente.

— O mesmo que acontece conosco.

— Conosco? — Elias ficou em silêncio esperando a resposta de Anselmo.

— Sabe Elias, eu tinha seu rosto quando tinha sua idade.

Elias não entendeu.

— Não exatamente o seu rosto, quero dizer, eu tinha o meu próprio rosto, um rosto completamente comum. — Anselmo puxou uma fotografia antiga da carteira e mostrou pra Elias.

A fotografia estava quase se rasgando e mostrava um homem de aproximadamente trinta anos de idade ao lado de uma mulher e duas crianças. Elias observou todos os detalhes daquela fotografia, mas aquele homem não parecia Anselmo.

— Esse é o senhor? — Perguntou. — Não parece.

— Sim, quando eu tinha trinta e dois anos, eu era um pitéuzinho né? — Brincou.

— E a sua família não percebeu a mudança no seu rosto? Tipo... O senhor era completamente diferente!

— Não, minha esposa morreu antes mesmo de eu começar a mudar, e os meus dois filhos... — Anselmo ficou algum tempo sem responder. — Eles foram embora de Mogester antes mesmo de fazer dezoito anos.

— Por causa da morte da sua esposa?

— Não, foram embora porque eu pedi.

— Eles sabem?

— Somente a minha filha sabe.

— E seu filho?

— Ele voltou pra Mogester. — Anselmo bebeu o que restava de uma gota no fundo do copo, levantou a mão e pediu mais duas doses. — Atualmente ele tem cinquenta e quatro anos e está começando a ficar parecido com os velhos da cidade.

— E por que ninguém aqui fala disso? — Elias passou a mão pelo rosto pra retirar o suor.

— Porque falar não mudaria em nada. Elias, você acha mesmo que é o primeiro médico a chegar aqui? Já foram realizados exames, mas de nada vai ajudar.

— Quero ver! — Exclamou Elias.

— Não vai ajudar.

— Quero ver!

Anselmo permaneceu alguns segundos olhando pra Elias, mas ao final, concordou em mostrar.

No dia seguinte, ele levou Elias até uma sala de arquivo no térreo do hospital, ali havia documentos mantidos fora do sistema digital: prontuários antigos, radiografias, fotografias, biópsias, exames genéticos realizados décadas antes. Elias passou horas lendo cada um deles, o fenômeno era chamado informalmente por Síndrome de Mogester ou Convergência de Mogester. Essa síndrome não aparecia em publicações oficiais, os primeiros médicos que tentaram estudar o caso enviaram algumas amostras para Grifine, mas os resultados voltavam normais. O DNA dos homens continuava sendo individual, não eram clones, não eram parentes, era como se as alterações se limitassem inicialmente â aparência.

Procurando mais um pouco, Elias encontrou os exames ósseos: Aos cinquenta anos eram crânios diferentes, mas após os sessenta os crânios eram iguais, praticamente idênticos.

Isso não deveria ser possível.

O osso não simplesmente reorganiza décadas de anatomia somente para assumir a forma de outra pessoa, era impossível, mas ali em Mogester parecia possível. E não apenas a aparência externa que mudava, as radiografias mais antigas mostravam pequenas mudanças nas clavículas, depois alterações nas vértebras, mãos e bacia.

— Todos eles estão ficando iguais por dentro também. — Elias sussurrou.

— Sim. — Anselmo estava deitado no chão, próximo a um armário, ele parecia estar dormindo, talvez por isso sua resposta tenha assustado Elias.

— Até onde?

O diretor não respondeu.

Elias continuou folheando os documentos, encontrou autópsias de homens mortos acima dos oitenta anos, todos com órgãos com pesos semelhantes, comprimentos intestinais quase idênticos, capacidade pulmonar igual, dimensões cardíacas parecidas, até antigas cicatrizes internas apareciam nos mesmos lugares. Foi aí que Elias encontrou uma anotação feita por um patologista trinta anos antes: Não estamos observando diferentes homens desenvolvendo características semelhantes. É possível que estejamos observando diferentes homens sendo lentamente corrigidos para corresponder a um único padrão anatômico.

— Corrigidos? — Elias precisou reler aquilo, olhou para Anselmo, mas ele continuava deitado no chão sem dizer nada. — Quem é o padrão? Oskar?

— Não sabemos. — Anselmo com dificuldade se levantou e pegou outro arquivo. — Mas sabemos que não era o Oskar.

Anselmo abriu uma pasta e lá havia um desenho muito antigo, mostrava um grupo de moradores diante de uma igreja.  No canto havia um homem de aparência de perfil: Cabeça larga, nariz torto, olhos pequenos e fundos. A data do desenho era estimada de 1762, muito antes da primeira expedição.

— Então esse homem já estava aqui desde antes de Oskar — Elias se surpreendeu e pegou o desenho pra ver mais perto. — E quem era ele?

— Não sabemos, o desenho não descreve o nome deles.

— E a expedição de 1903?

— Talvez eles tenham encontrado alguma coisa nas montanhas do norte, apesar do trauma, os sobreviventes jamais tocaram no assunto. Oskar até escreveu um diário, mas não chegou a comentar nada pra ninguém.

— E onde tá esse diário?

— Na igreja. — Anselmo demorou a responder.

Elias largou tudo em cima da mesa e saiu correndo pra igreja local, claramente o padre de Mogester não gostou da visita. Ele se chamava Leôncio e tinha quarenta e sete anos, ainda possuía o próprio rosto. Quando Anselmo explicou o motivo da visita, o sacerdote fechou a porta.

— Você prometeu pra mim e pra Deus que não iria revelar isso pra ninguém de fora! Por acaso não temes o castigo Divino? — Dizia o padre detrás da porta.

— Padre, ele já viu o suficiente!

— Então mande-o embora, como já fizeras com outros.

— Eu não vou embora sem entender! — Elias respondeu antes de Anselmo.

— É exatamente o disseram! — Leôncio soltou uma alta gargalhada. — Vocês parecem repetir sempre o mesmo discurso, nem vou discutir mais, pois já sei onde isso vai dar. —O sotaque do padre rapidamente sumiu.

Ele abriu a porta da igreja, olhou para Elias e sorriu. O diário de Oskar estava guardado em uma caixa metálica próximo ao púlpito. As páginas do diário estavam frágeis pelo tempo, Oskar Verne começara a escreve nele durante a expedição.

Os primeiros dias eram comuns, ele descrevia a temperatura, rotas escolhidas, a comida que faziam durante as pausas e os pequenos conflitos envolvendo o grupo. No sexto dia ele encontraram uma passagem, aparentemente secreta, e acamparam na proximidade. No sétimo dia ele escreveu sobre uma estrutura, não havia uma descrição completa, apenas: Isso aqui não é uma caverna, afinal, que caverna tem paredes que respiram?

Elias engoliu seco.

No oitavo dia, ele escreveu: Hendrik acredita que encontramos alguma espécie de animal gigante soterrado, o Dimas não acredita nisso ele acha que é uma pedra, já eu... Não sei o que é, pois estava extremamente quente. No nono dia:  Encontramos uma espécie de rosto...

As páginas seguintes haviam sido arrancadas. Elias, desesperado, olhou para o padre.

— Cadê? Cadê o restante?

— Já chegou assim pra gente.

O diário retornava apenas três dias depois da expedição, mas a letra estava diferente: Alguns ficaram, nós não conseguimos convencê-los a voltar. Dizem que o homem conhece seus nomes, mas não existe homem algum, é apenas um rosto.

Depois era possível ler:  Sonhei que usava a boca dele.

Na última página legível:  Se voltarmos para Mogester, devemos impedir que nossos filhos envelheçam aqui... Ele não pode atravessar a montanha sozinho, ele precisa de rostos...

Elias fechou o diário, olhou para Anselmo e Leôncio, mas nenhum deles falou nada.

— E onde estão os descendentes dos membros da expedição?

— Não é hereditário garoto, afeta apenas os homens que moram aqui por tempo suficiente. — Anselmo balançou a cabeça.

— E que nasce aqui?

— Normalmente é afetado.

— E quem se muda? — Elias sentiu seu coração acelerar.

— Só é afetado se ficar muito tempo aqui.

— Eu me mudei já faz alguns meses... — Elias sentiu algo frio no estômago.

— Você é jovem, garoto. — Disse o padre. — Alguns foram embora antes dos cinquenta e nunca mudaram seu rosto.

— Alguns? — Essa palavra o inquietava.

— Sim, alguns. Outros acabaram mudando de rosto, mesmo indo pra bem longe daqui

— Então não sabem quando começam as mudanças?

— Não.

— Então por quê ainda existem homens vivendo em Mogester? — Era uma pergunta cruel, mas necessária para Elias.

— Porque Mogester é nossa casa. — Anselmo respondeu.

Elias sentiu vontade de discutir, mas percebeu que a resposta era mais difícil de rejeitar do que parecia, pessoas continuam vivendo mesmo próximas de vulcões, nas mesmas áreas onde já houveram enchentes, guerras, próximas de rios contaminados e doenças endêmicas, abandonar um lugar considerado lar não é tão simples quanto reconhecer que ele é perigoso. Mogester possuía famílias, casas, mortos enterrados, memórias, e pra muitos, transformar-se lentamente era menos assustador do que deixar tudo pra trás.

— E ninguém tentou destruir aquilo na montanha? — Elias perguntou por perguntar, mas notou que o padre e o diretor se olharam.

— Já tentaram em 1968, quatro homens subiram, mas apenas um voltou.

— Quem era esse homem que voltou? — Elias perguntou e viu a feição de Anselmo mudar, ele parecia triste. — Era o senhor?

— Meu pai. — O diretor puxou a carteira e tirou uma fotografia de um homem jovem que se parecia com ele na juventude. — Ele tinha trinta e nove anos quando subiu, e começou a mudar no mesmo ano.

— Antes dos cinquenta? — Elias questionou. — Não faz sentido! O que ele encontrou?

— Nunca me contou, ele apenas parou de falar.

— Trauma?

— Não. — Anselmo guardou a foto e respirou profundamente. — Ele apenas esqueceu como falar.

— Como alguém esquece como falar? — Elias sentiu um arrepio.

— Não foi só falar. — O diretor passou a explicar que o pai começou perdendo palavras, depois passou a deixar de reconhecer letras, esqueceu como usar talheres, como amarrar sapatos, como abrir portas, aos cinquenta e dois anos esqueceu como se alimentava, mas já era falecido naquele momento, havia morrido aos setenta e dois anos.

— Seu pai ficou assim por vinte anos?

— Não. — Anselmo negou. — Depois dos sessenta anos ele começou a aprender novamente, começou a aprender palavras, objetos, pessoas, mas não de um jeito que já havia aprendido, ele passou a falar de lugares que nunca esteve. — Ele ficou em silêncio, suspirou e continuou. — Uma casa perto do lago em 1810, uma mina fechada antes dele nascer, pessoas mortas havia mais de cem anos, ele estranhamente conhecia aquelas pessoas, sabia onde estavam enterradas e sabia de coisas que só confirmaríamos anos depois em arquivos guardados na prefeitura.

— Memórias de outros homens? — Elias tremia.

— É o que pensamos... — Falou o padre. — Por isso chamam de “convergência de Mogester”, acreditamos que estamos virando todos a mesma pessoa.

Elias decidiu encerrar aquela investigação por ali, voltou para o seu apartamento naquela noite decidido a deixar Mogester, ele não queria esperar dois anos ou o fim do contrato, ele queria ir embora naquela mesma semana. Abriu seu notebook e começou a procurar passagens, havia duas vagas em um ônibus que sairia na quinta-feira, comprou uma. Ele começou a arrumar as malas e depois foi pro banheiro tomar banho.

Se apoiou na pia e começou a se olhar no espelho, ficou imóvel observando, seu nariz, olhos e mandíbula estavam normais, passou a mão no pescoço e não sentiu nada, ele começou a rir alto, estava ficando neurótico, sua risada era capaz de se ouvir até do lado de fora do prédio. Quando estava se virando notou uma coisa abaixo da orelha direita, uma linha vermelha bem curta, media cerca de 1 centímetro e meio. Ele se aproximou ainda mais do espelho e notou que parecia ser uma irritação, um arranhão, ou algum corte feito pelo zíper do seu travesseiro. Ele tocou mas não doía. Pela manhã ele correu pro espelho e notou que agora a linha vermelha estava mais clara, como estivesse cicatrizada, arrumou suas coisas e correu pro hospital, entrando com pressa na sala do diretor.

— Quanto tempo eu tenho?

— O quê? — Anselmo não estava entendendo, colocou sua xícara de café na mesa e olhou depressa para Elias.

— Quanto tempo eu tenho? — Elias repetiu enquanto mostrava seu pescoço, e viu a expressão de Anselmo mudar.

— Isso não deveria acontecer. — Anselmo se levantou da cadeira e foi na direção de Elias. — Você foi na montanha durante a noite?

— Anselmo, eu tô aqui a poucos meses, eu nem sei como se chega nela.

— Foi ao lago? Encontrou alguma mina? Tocou em alguma coisa antiga?

—  Não pra todas elas. — Elias riu nervosamente. — Eu tô numa cidade onde praticamente tudo é antigo.

Anselmo se afastou e chamou Mara pra examinar a cicatriz, quando ela viu a cicatriz, sua expressão mudou rapidamente pra uma completamente assustada.

— Doutorzinho, você precisa sair daqui hoje!

— Mas o ônibus só sai amanhã...

— Então vai de carro! — Mara estava realmente assustada.

— A estrada ta fechada agora. — Anselmo respondeu.

— Por que tá acontecendo tão rápido comigo? — Elias olhou pra Anselmo, mas ele não respondeu. — Anselmo!

— Talvez seja porque você viu o padrão. — O diretor parecia pensar.

— Isso é um absurdo! — Elias estava furioso. — Tudo isso aqui é um absurdo! Então quer dizer que olhar faz toda a diferença?

— Não sabemos, doutorzinho...

— Ótimo! Excelente! — Elias começou a bater palmas. — Vocês são fodões! Não sabem de porcaria nenhuma! Não servem pra nada!

— A única coisa que sabemos, doutorzinho, é que você não pode ficar aqui. — Mara chateada com o que acabou de ouvir, apenas saiu da sala.

Elias arrumou suas coisas e saiu do hospital antes do meio-dia, Anselmo já havia comentado com o prefeito o que havia acontecido e um funcionário da prefeitura concordou em levá-lo até uma cidade vizinha assim que a estrada abrisse.

Às três da tarde, eles partiram. O motorista chamava-se Raul e tinha vinte e oito anos, rosto próprio. Elias passou quase todo o percurso olhando pela janela até que Mogester desapareceu atrás deles, e então ele sentiu um alívio.

— Que estranho... — Disse Raul. — A estrada está coberta por neve.

— O quê? — Elias sentiu um arrepio, enquanto via Raul dirigindo o carro até a visibilidade piorar.

Pouco tempo depois, chegaram em uma bifurcação e nela uma placa escrita: MOGESTER – 12KM.

— Estamos indo na direção errada. — Disse Elias. — A placa ali tá dizendo que estamos indo pra Mogester.

— Acredito que não. — Raul conferiu o GPS. — Deve ser uma placa antiga.

Eles continuaram por vinte minutos até que encontraram outra placa: MOGESTER – 8KM.

— Raul! Para o carro!

Raul encostou o carro e ficou observando Elias abrir o mapa no celular, mas viu que a rota mostrava uma linha reta rumo ao sul.

— Estamos indo para sul...

— Eu sei. — Raul olhou para a estrada.

— Mogester está ao norte...

— Deve ter outra Mogester. — Raul olhou pela janela.

Não havia outra Mogester.

Eles continuaram seguindo viagem até encontrar outra placa que dizia que Mogester estava a 3km, ao ver isso Elias começou a sentir náuseas, minutos depois, as primeiras casas começaram a aparecer e entraram em Mogester pela mesma estrada de onde haviam saído, Raul não pareceu surpreso.

— Acho que pegamos algum retorno.

— Mas não pegamos nenhum retorno, dirigimos uma hora em linha reta. — Raul deu de ombros.

Elias insistiu tanto que tentaram novamente sair da cidade, mas dessa vez indo pela estrada oeste, mas duas horas depois, entraram em Mogester pelo norte. Na terceira tentativa, Raul começou a reclamar.

— Doutor, eu tô cansando. Talvez seja melhor tentarmos novamente amanhã.

Elias não respondeu, estava decepcionado demais para responder alguma coisa. Era noite quando ele voltou para o apartamento e viu Anselmo o esperando.

— Aconteceu com os outros. — Disse ele.

— E ia me contar quando? — Elias largou a mochila no chão. — A cidade não deixa sair?

— Algumas pessoas deixa.

— Por quê?

— Não sabemos.

— Essa é a resposta oficial para tudo relacionado ao assunto? — Elias riu, mas havia algo quase desesperado naquele tom.

— Existem homens que tentaram ir embora depois de começar a mudança, alguns conseguiram e outros sempre voltavam, até que um dia pararam de tentar.

Elias olhou para Anselmo, mas não viu ele, parecia ver todos os homens das fotografias: Tomás, Júlio, os homens das fotografias, Oskar e o desenho de 1762, o mesmo rosto olhando pra ele através de gerações.

— Quem é ele, Anselmo? Isso não faz o menor sentido.

— Talvez ninguém, talvez o rosto não pertença a uma pessoa. — Anselmo se levantou da cadeira e se dirigiu a porta. — Talvez essa seja apenas a forma que aquilo sabe fazer... Boa noite, Elias, nos vemos amanhã.

Anselmo abraçou Elias e foi embora. Naquela noite, Elias sonhou que estava debaixo de uma montanha, não sabia como reconhecia o lugar, mas sabia por onde deveria passar, se dirigiu até um corredor estreito de pedra quente e, no fim, algo enorme estava enterrado, ele viu apenas um rosto com os olhos fechados, a boca se movia, mas ele não sabia o que ela dizia. Quando acordou, estava repetindo um nome: Oskar.

Ele se levantou da cama, caminhou pela sala e sentou-se na cama, o quarto estava escuro e passou a mão no seu rosto, sentia o seu nariz doendo. Foi até o banheiro, acendeu a luz e notou que seu nariz estava ligeiramente torto, olhou para os próprios olhos e não sabia dizer se estavam mais próximos, ele permaneceu ali até perceber outra coisa, que havia alguém atrás dele.

Ele se virou rapidamente e nada, olhou novamente para o espelho e seu reflexo estava sozinho, mas por uma fração de segundo, antes de acompanhar seu movimento, Elias teve certeza de que o homem no espelho continuara olhando para frente.

Os meses seguintes não foram registrados com a mesma precisão, isso não significava Elias tenha parado de tentar, pelo contrário, seus cadernos ficaram cheios de medidas, fotografias e descrições diárias. Mediu o próprio nariz, distância entre pupilas, largura da mandíbula, comparou radiografias, coletou amostras de sangue e percebeu que as mudanças continuavam, lentas, mas constantes. Um mês depois o nariz havia mudado, após mais um mês as sobrancelhas, após outro mês a cicatriz alcançou o pescoço.

Elias ainda tentou sair de Mogester mais seis vezes, mas sempre retornava para Mogester, tentou caminhar, mas foi encontrado dois dias depois perto do lago, convencido de que seguia para sul. Tentou atravessar as montanhas, mas acordou no próprio apartamento sem lembrar como havia voltado. Depois disso, parou, não porque aceitasse, mas porque começou a perceber que suas memórias estavam mudando. Primeiro vieram pequenos detalhes como uma pescaria com o pai em um lago que nunca foi, de trabalhar em uma madeireira, de uma esposa chamada Agnes, mas ele jamais havia se casado, as memórias possuíam texturas, cheiro e emoção, não pareciam sonhos.

Uma manhã, percebeu que estava chorando diante de uma fotografia de 1935 por saudade de um homem na imagem, Dimas, Elias sabia que Dimas era um grande amigo, que odiava sopa de batatas e que tinha medo vacas, mas não havia forma de saber disso, ele não era nascido na época em que Dimas estava vivo. Preocupado com o que estava acontecendo decidiu ir até Anselmo.

— Quando as memórias começam? — Anselmo perguntou, ele não fingiu desconhecer.

— Varia bastante... Estou lembrando de Dimas Holtz.

— Como você sabe? — Anselmo ficou pálido. — Você leu nos arquivos? Se sim, pode ser uma sugestão.

— Ele perdeu dois dedos trabalhando numa serraria em 1911. — Elias bateu na mesa e encarou Anselmo. — Isso está nos arquivos?

— Não...

Ambos pesquisaram e Dimas realmente havia sofrido um acidente em 1911 e perdido dois dedos, Elias começou a tremer e Anselmo fechou o documento.

— Meu Deus, isso tá rápido demais... Eu nunca vi tão rápido.

— Você já disse isso. — Elias suspirou, olhou para Anselmo, mas ele permaneceu calado, ele olhou para o relógio na parede e teve uma ideia. — Será se quanto mais eu descubro, mais rápido acontece? — Ele se levantou e começou a andar pela sala. — Talvez o problema não seja a cidade.

— Elias.

— Todos olham para esses rostos a vida inteira e não conseguem enxergar, vocês aprenderam a não ver os pequenos detalhes.

— Eu vi. — Anselmo respondeu.

— E ele me viu de volta. — Elias apontou para si mesmo.

Essa teoria nunca pôde ser testada, mas a partir daquele dia, as pessoas mais próximas de Anselmo começaram a olhar diretamente para os homens idosos quando falava com eles, e conforme o tempo se passou, Elias continuou mudando.

No oitavo mês, uma paciente nova entrou em seu consultório, ela se chamava Joana Serret e havia se mudado para Mogester poucos dias antes. Ela tinha trinta e um anos e trabalharia na escola municipal como professora.

— Dor de garganta há três dias? — Elias leu o prontuário, ao perceber que ela não havia respondido  ergueu os olhos pra notar que ela o estava encarando. — Algum problema, senhorita?

— Desculpa. — Ela piscou e se arrumou na cadeira, Elias já sabia o que viria logo em seguida. — O senhor por acaso é parente do diretor do hospital?

— Por quê?

— Porque vocês dois se parecem bastante! — Ela sorriu, constrangida, esperando um sorriso do médico, que não aparecera. — Desculpa, cidade pequena, imaginei que todo mundo fosse parente.

Elias olhou para a porta e percebeu que Mara estava no corredor o encarando, ela acenou com a cabeça, e olhou para Joana. Naquela noite, Elias foi até a casa de Joana e bateu na porta. Joana se assustou com a presença do médico na sua casa, abriu a porta e ficou o encarando.

— Doutor?

— Você precisa ir embora de Mogester. — Disse ele sem demora.

— Ué? — Ela riu nervosamente. — Eu acabei de chegar na cidade, como assim ir embora?

— Pois vá embora. — Elias pensou em explicar, mas percebeu o que isso significaria, se ele estivesse certo, entender as coisas na cidade poderia ser apenas o começo para a jovem professora. — Só vá.

— O senhor está bem? — Joana fechou a expressão.

— Não. — Elias deu um passo para trás e foi embora.

Joana permaneceu em Mogester, apesar do aviso. E passado alguns meses ela começou a fazer perguntas, não sobre Elias, mas sobre os homens mais velhos da cidade, se perguntou em como alguns homens na cidade eram tão parecidos. Quando comentava com Mara, ela parecia  evitar falar do assunto. Joana curiosa com o caso começou a fotografar os homens velhos que possuíam aparências iguais, apesar disso, Elias não tentou impedi-la, na verdade, não conseguiria. Ele viu Joana procurar os arquivos na biblioteca, encontrar os arquivos sobre Oskar, descobrir sobre o padrão, e mesmo após um ano naquela cidade ela não havia mudado, afinal, era mulher. Talvez a cidade não precisasse de mulheres, talvez a cidade reconheceu que elas fossem necessárias para gerar novos filhos homens, que futuramente viriam a se tornar novos homens com os mesmos rostos.

O tempo se passou,  e Joana engravidou, o pai da criança era Raul, o motorista que havia tentado levar Elias para fora da cidade na primeira tentativa, e o que ela mais temia aconteceu: o filho era menino. Quando a criança nasceu, Elias foi chamado para ajudar no parto, porque o pediatra de plantão ficara preso pela neve. O bebê nasceu saudável e chorou imediatamente, junto do choro da criança se ouvia o choro de Joana, tanto ela quanto Elias tinham medo da aparência da criança, mas quando Elias olhou para o recém-nascido viu que ele possuía o nariz pequenos, pele avermelhada, nada de estranho, Elias quase riu de alívio, mas ao realizar o restante do exame físico notou uma linha branca abaixo da orelha, era uma cicatriz já formada.

— O que foi? — Joana percebeu a expressão do médico mudando.

— Nada. — Elias cobriu a criança com uma manta e a entregou para Joana.

— Elias, não mente pra mim. — Joana retirou a manta da criança e notou a pequena cicatriz debaixo da orelha. — O que é isso?

— O quê? — Raul se aproximou. — Deve ser marca de nascença, eu devo ter também.

— Uma cicatriz? Marca de nascença? — Joana olhou para Elias, ela sabia que ele era o único ali que sabia de alguma coisa.

Naquela noite, Elias voltou aos arquivos e procurou todos os registros de nascimento, mas não encontrou nenhum caso semelhante ao bebê que acabara de nascer. A transformação sempre aparecia tempos depois, mas a criança de Joana já havia nascido com a marca. Elias ficou a madrugada inteira investigando até que Anselmo apareceu.

— Nasceu com a cicatriz. — Elias disse.

— Mara me contou. — Anselmo puxou uma cadeira e se sentou. — Aquela mulher fofoqueira sabe de tudo.

— Isso nunca aconteceu... O que pode estar mudando o padrão? — Ele voltou a ler o diário de Oskar e leu novamente a última frase: Ele não pode atravessar a montanha sozinho, ele precisa de rostos... — Talvez o que quer que seja, já tenha rostos suficientes...

— O que quer dizer? — Anselmo questionou.

— Você já contou quantos? — Elias olhou para as diversas fotografias espalhadas sobre a mesa, homens de décadas diferentes, mesmo rosto, centenas ou talvez milhares de homens. — Quantos morreram com esse rosto?

Não havia número correto, a cidade mantinha registros de nascimentos e mortes, mas ninguém jamais somou aquilo. Eles então passaram o restante da madrugada calculando, e nos últimos cem anos, pelo menos mil cento e oitenta e seis homens haviam morrido em Mogester depois de completar sessenta anos, ou seja, aproximadamente mil cento e oitenta e seis cópias exatas da mesma pessoa. Elias olhou pra janela buscando enxergar a montanha, mas não conseguia enxergá-la, mas sabia exatamente onde ela estava.

— Talvez não esteja transformando homens no mesmo rosto, talvez esteja construindo o rosto. — Ele olhou para Anselmo, mas percebeu que o diretor não havia entendido o que ele disse. — Olhe. — Ele apontou para as fotografias. — Cada geração fica mais parecida.

— Pra mim é tudo igual. — Riu Anselmo.

— As diferenças era mínimas. — Elias colocou lado a lado imagens de 1920 e fotografias mais recentes, existiam diferenças, mas eram mínimas, uma mandíbula mais simétrica, o nariz atual era ligeiramente mais longo, os homens estavam copiando um modelo pronto e esse modelo estava sendo refinado. — Ao que parece ele realmente está aprendendo a construir um rosto humano... Com cada novo homem,.

A sala ficou silenciosa, do lado de fora, o vento começou a bater contra as janelas e Elias passou a madrugada comparando fotografias até encontrar outra coisa. O desentro de 1762 mostrava o rosto, amas era incompleto, não porque o desenho estivesse danificado, o artista havia desenhado uma cavidade lisa, em 1903 o olho que não estava presente no desenho começou a surgir, em 1950 a mudança apareceu nos dentes, e nas fotografias mais recentes, pequenas assimetrias desapareciam.

— Ele está tentando terminar... — Elias disse.

Anselmo levantou.

— Chega!

— Você não quer saber a verdade, Anselmo?

— Não!

— Depois de toda a sua vida?

— Elias! — Anselmo olhou para ele. — É exatamente por ter vivido aqui toda a minha vida que aprendi quando não quero saber. — Ele se retirou da sala deixando Elias sozinho.

Os dias se passaram, a criança de Joana abriu os olhos, eles eram pequenos e próximos, exatamente como os de Elias, seu nome era Gabriel. Ele cresceu normalmente durante os primeiros meses que se passaram, a cicatriz permaneceu, mas Joana continuava aflita, ela decidiu que queria sair de Mogester, Raul concordou, e Elias ajudou a organizar a viagem. Dessa vez não usariam a estrada: usariam um helicóptero médico que viria de Grifine para transportar um paciente e poderia levar Joana e o filho no retorno.

A aeronave pousou pouco antes do meio-dia, Joana entrou com Gabriel nos braços enquanto Elias observava da pista. O helicóptero subiu, seguiu para o sul e, dessa vez, não retornou. Elias sentiu um esperança que não experimentava havia mais de um ano, talvez Gabriel tivesse escapado. Talvez, longe dali, a criança não crescesse como os outros

Duas horas depois receberam uma ligação confirmando que o helicóptero havia chegado em Grifine e que Joana e o bebê estavam bem. Naquela noite, dormiu pela  primeira vez sem sonhar com a montanha. Três semanas depois, porém, Joana enviou uma fotografia, Gabriel sorria para a câmera, mas a cicatriz havia aumentado, um mês depois o nariz começara a mudar, parecia que a distância não iria interromper nada. Anselmo estava certo: alguns conseguiam sair de Mogester, mas não conseguiam deixar Mogester para trás.

Elias decidiu permanecer na cidade, com o passar dos anos, deixou de medir o próprio rosto diariamente, já não haviam diferenças significativas para acompanhar. Quando completou quarenta anos, parecia ter quase sessenta, não em envelhecimento, mas na forma, a pele ainda era relativamente jovem, os cabelos continuavam escuros, porém o rosto já não era o dele. Turistas confundiam Elias com Anselmo, pacientes recém-chegas perguntavam se ele era o pai de Tomás e crianças pequenas chamavam homens diferentes pelo mesmo nome. Os moradores continuavam fingindo não perceber.

Aos quarenta e dois anos, Elias começou a perder memórias pessoais, começou esquecendo o nome de uma professora do ensino fundamental, depois do seu antigo apartamento onde vivia em Grifine, uma dia encontrou fotos dos próprios pais e demorou alguns segundos para reconhecê-los. Em compensação, lembrava com mais clareza das coisas que viveu, sabia exatamente como era a estação de Mogester em 1908, lembrava do cheiro da madeira cortada em 1914 e conhecida de cor uma música cantada em funerais desde 1832. Ele se lembrava perfeitamente da passagem na montanha, e isso era o pior. Cada ano trazia detalhes novos: o corredor quente, as paredes pulsando, os homens desaparecidos, o rosto enterrado.

Elias não sabia se aquelas recordações pertenciam a Oskar, a Dimas, ou a algum outro homem ou à própria coisa.

Até que, certa noite, lembrou de algo que ainda não tinha acontecido. Ele estava na praça de Mogester durante o verão, cercado por centenas de pessoas, os homens permaneciam imóveis, todos carregando o mesmo rosto, até que, ao mesmo tempo, viravam a cabeça para o norte. Elias acordou ofegante, e durante aquele dia descobriu que outros homens haviam relatado o mesmo sonho, mas nenhum deles queria muito falar sobre aquilo, mas Anselmo foi o único a falar com Elias, sobre tal sonho.

— Está perto, Elias... Eu sinto... Não sei o que é, mas está perto,

Elias não havia notado, mas o diretor, agora com mais de oitenta anos, estava assustado. Ele ainda era um senhor que trabalhava normalmente por longas horas durante o dia, estava completamente lúcido.

— Nunca me aconteceu. — Ele dizia. — Eu nunca havia tido um sonho assim, um sonho que todos os homens da cidade também tiveram.

Naquela semana, a neve começou a derreter antes do esperado, o lago abriu uma faixa de água escura no centro, animais abandonaram as encostas ao norte e cães passaram as noites latindo na direção das montanhas. Algo também mudou nos homens, embora não fisicamente.

No meio de conversas, refeições ou tarefas comuns, alguns simplesmente paravam e voltavam o rosto para o norte e permaneciam assim por alguns segundos e depois continuavam o que estavam fazendo como se nada tivesse acontecido. Elias fazia o mesmo e não consegui impedir, sempre que acontecia, sentia uma certeza difícil de explicar, mas sentia como se alguma coisa estivesse o chamando, não era pelo nome, era por ele, pela pessoa que ele havia se tornado.

O dia chegou no final de março, era um dia sem neve, o que já era incomum o bastante para gerar comentários pela cidade. Aos meio-dia, os sinos da igreja começaram a tocar sem que ninguém puxasse as cordas. Elias estava no hospital quando sentiu uma enorme pressão no peito e se levantou. Mara correu para vê-lo, ela já estava mais velha desde a chega dele.

— Não vá... — Ela suplicava.

Elias ficou confuso, mas não perguntou pra ela como ela sabia. Ele saiu da sala e olhou ao redor e notou que outros homens começavam a sair dos quartos: pacientes, funcionários e visitantes, todos eles caminhavam em direção à rua.

— Doutorzinho... — Mara segurou o braço de Elias tentando pará-lo, mas não conseguiu o impedir. — Por favor, não vá.

— Eu sinto que preciso ir...

— Não precisa! — Ela o puxou com força. — Olhe pra mim.

Elias obedeceu e por alguns segundos se lembrou de quem realmente era, se lembrou de Grifine, da sua faculdade, dos seus pais, do primeiro plantão, do ônibus chegando em Mogester.

— Vai embora da cidade! — Mara gritava.

Por um breve momento, Elias sentiu vontade de fazer o que ela estava pedindo, mas ouviu algo, não era exatamente uma voz, era uma espécie de respiração vinda das montanhas, ele puxou o braço das mão dela e começou a andar pra fora do hospital.

— Ele completou, Mara... Completou o homem...

Elias saiu do hospital e encontrou centenas de pessoas nas ruas, as mulheres permaneciam nas portas enquanto os homens caminhavam em direção ao norte, não eram todos os homens da cidade, os jovens demais para apresentar qualquer mudança permaneciam onde estavam,  apenas aqueles que já carregavam alguma parte do rosto seguiam adiante.

Alguns tinham cinquenta anos, outros quarenta, alguns ainda menos, quanto maior a semelhança, mais difícil parecia resistir. Anselmo estava no meio da praça quando Elias o encontrou, mas nenhum dos dois disse nada, apenas começaram a caminhar junto aos outros.

A estrada para as montanhas estavam completamente livres, não havia neve, e aquela era a mesma rota seguida pela expedição de 1903. Elias reconhecia cada curva sem nunca ter andado por ali, sabia onde havia uma pedra partida, onde o caminho estreitava e em que ponto deveriam virar. As memórias já não pertenciam a pessoas específicas, eram memórias comuns.

E depois de três horas chegaram à passagem, era uma abertura pequena demais para comportar todos, mas, ainda assim, todos entraram.

O interior estava quente, exatamente como descrito no diário, quando Elias tocou na parede, percebeu que aquilo não era pedra, a superfície cedeu levemente sob seus dedos, como pele endurecida. O corredor descia cada vez mais, alguns homens choravam enquanto caminhavam, outros sorriam, mas nenhum conseguia voltar, até que no fim, chegaram a uma grande câmara e foi ali que viram o rosto.

Não parecia ser o rosto de uma estátua e muito menos o de um cadáver, ele era grande demais para qualquer uma dessas definições e ocupava quase toda a parede, ele possuía olhos mais fechados, nariz torto, sobrancelhas grossas e uma cicatriz abaixo da orelha, era exatamente o mesmo rosto que agora Elias carregava, mas aquele rosto parecia estar mais completo. Os homens pararam diante dele, e Elias sentiu algo surgindo dentro da cabeça uma lembrança que não era humana: ali havia escuridão, e depois sentiu seu corpo sendo pressionado porém sem conseguir se mexer, parecia duro como pedra, em seguida conseguiu abrir seus olhos para ver o mundo, um olho de cada vez, seus olhos observavam diversos rostos, diferentes rostos, ele sentia que estava aprendendo cada vez mais com eles.

Então de repente, o rosto na parede abriu os olhos.

Todos os homens de Mogester fizeram o mesmo movimento, quando o rosto na parede pareceu inspirar, todos ali inspiraram juntos, e a câmara inteira pareceu respirar com eles. Elias compreendeu naquele instante que a pergunta nunca fora por que os homens estavam se transformando naquele rosto, mas a pergunta correta era por que aquilo precisava de tantos homens, durante tantas gerações, para aprender como um rosto humano deveria funcionar. A boca na parede se abriu e, ao mesmo tempo, as bocas dos homens também. Elias tentou gritar, mas nenhum som saiu.

A coisa respirou pela primeira vez.

Lá fora, em Mogester, Mara estava diante do hospital quando ouviu um ruído vindo das montanhas, o som não parecia explosão, deslizamento ou trovão, era apenas uma inspiração longa o suficiente para atravessar todo o vale, até que veio o silêncio.

Os homens não retornaram naquele dia, nem no seguinte.

Equipes foram enviadas, mas nunca encontraram a passagem por onde eles entraram naquela montanha, visto que as rotas pareciam perfeitamente normais.

Durante algumas semanas, Mogester tornou-se uma cidade ocupada principalmente por mulheres, crianças e homens jovens demais para terem acompanhado os outros. O Governo de Cocite enviou investigadores, jornais publicaram diversas matérias e algumas famílias decidiram partir daquela cidade, e pouco a pouco, a vida ali recomeçou.

Três meses depois, um grupo de adolescentes encontrou Elias caminhando perto do lago, sozinho, nu e coberto de lama. Levaram-no imediatamente ao hospital, onde Mara rapidamente o reconhecer, ou ao menos acreditou reconhecer. Seu rosto estava perfeito agora, sem qualquer assimetria e sem nenhuma marca além da cicatriz.

— Elias? — Ela o tocou. — É você mesmo?

O homem abriu os olhos e a encarou, então Mara começou a chorar em cima dele.

— Elias, onde estão os outros? — Mara foi direto ao ponto, mas Elias não conseguia responder.

— Outros?

— Sim, o Anselmo, Tomás, Júlio, todos os outros, onde estão?

— Estou aqui. — Elias sorriu

Mara sentiu o medo tomar seu corpo antes mesmo de compreender a frase dita pelo “doutorzinho”.

— Pare de brincadeira! Onde estão os outros homens?

— Estou te dizendo, estou aqui... — Elias sorriu.

Nas semanas seguintes, exames mostraram algo impossível. Elias possuía cicatrizes internas que pertenciam a homens diferentes: uma fratura antiga de Anselmo, uma cirurgia de Júlio e alterações em dois dedos que eram compatíveis com o acidente sofrido por Dimas Holtz em 1911, embora os dedos ainda estivessem perfeitamente presentes. Seu sangue continha apenas o DNA de Elias Varne, mas ele conhecia os nomes das esposas, dos filhos, os medos e as lembranças de centenas de homens mortos. Também sabia coisas sobre aqueles que haviam desaparecido na montanha.

Quando Mara perguntava onde estavam, ele sempre respondia da mesma maneira: — Aqui.

Ela tentou compreender durante dias, mas depois decidiu parar.

Elias voltou a trabalhar no hospital. Não deveria, mas Mogester precisava de médicos, os antigos pacientes o tratavam com cautela, crianças choravam quando ele se aproximava e homens jovens evitavam olhar diretamente para o seu rosto. O estranho, porém, era que pouco a pouco os moradores começaram a esquecer que dezenas de homens haviam desaparecido, as fotografias de família também começaram a mudar, onde antes estava Anselmo, agora estava Elias. O mesmo aconteceu com Tomás, Júlio, Valter e Oskar, mesmo fotografias muito antigas passaram a mostrar o mesmo homem.

Mara só percebeu porque mantinha cópias guardadas numa caixa dentro do hospital, ou pelo menos ela acreditava perceber a mudança, mas depois de alguns anos, já não tinha certeza de quais fotografias eram as originais.

Em certo inverno, Elias entrou no consultório e encontrou um médico recém-chegado esperando. Chamava-se Victor, tinha trinta e quatro anos e viera de Grifine. Elias se aproximou e apertou sua mão.

— Bem-vindo a Mogester. — Apertou forte a mão de Victor.

— Obrigado doutor. — Victor agradeceu, mas permaneceu observando o rosto de Elias por alguns segundos. — Doutor... Desculpa perguntar...

Elias já sabia o que viria.

— O senhor é parente do homem da mercearia?

— Qual deles? — Elias riu, acreditando que fosse uma piada.

Mais tarde, ao caminhar pela praça, Victor encontrou três homens idosos conversando e percebeu que os três tinham o mesmo rosto. Naquela noite ele comentou com uma enfermeira que achava os homens mais velhos muito parecidos, ela apenas deu de ombros.

No hospital, Elias passava longos períodos diante da janela olhando para as montanhas ao norte. Algumas noites, lembrava de estar enterrado sob elas muito antes de Mogester existir, em outras, lembrava de caminhar sobre duas pernas, casar, ter filhos, trabalhar numa mina ou morrer numa cama. Já não conseguia separar as memórias que haviam pertencido a Elias daquelas herdadas dos outros, e talvez essa distinção já não importasse.

O rosto e o corpo havia aprendido, mas agora restava ele aprender a lidar com o ocorrido.

Na primavera daquele mesmo ano, Elias conseguiu atravessa a estrada ao sul de Mogester pela primeira vez em anos, não houve retornos impossíveis ou placas que o avisava que estava voltando. Ele dirigiu por horas até chegar em Grifine, entrou em um restaurante qualquer, sentou-se próximo de uma janela e pediu um café.

A garçonete, um bela jovem ruiva com olhos violetas, com um pouco mais de vinte anos, trouxe a xícara e deu um belo sorriso para o velho homem.

— O senhor está visitando a cidade? Nunca vi o senhor por aqui.

— Algo assim. — Ele sorriu de volta e voltou a olhar pela janela.

Na mesa ao lado, um homem de aproximadamente sessenta anos lia o jornal, Elias não prestou atenção nele até que o desconhecido virou o rosto. Cabeça larga, nariz torto, olhos pequenos, sobrancelhas grossas e uma cicatriz fina começando abaixo da orelha direita. Elias ficou olhando até que o homem percebeu.

— Perdeu alguma coisa na minha cara? — Retrucou agressivamente.

— Ah não, perdão. —Elias sorriu e rapidamente mudou seu olhar novamente para a janela. Ele sabia que aquele homem nunca esteve em Mogester, mas de alguma forma ele sabia o seu nome antes mesmo de perguntar: Roberto Salen, sessenta e dois anos, nascido em Grifine, certamente um homem que nunca viajou para Mogester.

Mas ainda assim, aquele homem parecia carregar o “rosto maldito”. Pela janela, Elias começou a encontrar o rosto entre as pessoas que atravessavam a rua: um homem esperando o ônibus que tinha o mesmo nariz, outro saindo da farmacia carregava os mesmos olhos e um senhor muito velho possuía a cicatriz completas.

Nenhum deles olhava para a montanha – nem precisavam mais – Mogester não estava espalhado aquela coisa pelo mundo, na verdade Mogester havia sido apenas o lugar onde ela aprendeu rostos.

Elias terminou seu café, deixou algumas moedas sobre a mesa e saiu dali. Naquela mesma tarde começou a cair sobre Grifine uma chuva fina e gelada que escorria pelas calçadas em direção ao litoral. O noticiário dizia que o nível do mar estava alguns centímetros acima do previsto para aquela estação, mas ninguém parecia particularmente preocupado. Havia problemas mais importante acontecendo pelo mundo, e pequenas mudanças são fáceis de ignorar quando ainda não sabemos para onde estão levando.

Elias parou diante de uma vitrine e viu seu reflexo no vidro junto às dezenas de pessoas que passavam atrás dele e, por um instante, todos os homens refletidos possuíam o mesmo rosto. Um ônibus atravessou a rua e ocultou a imagem, quando passou, tudo parecia normal novamente.

Elias continuou caminhando, já não sabia se estava indo para algum lugar u apenas seguindo uma lembrança que não era sua. Dentro dele havia cidades inteiras, homens mortos, corredores sob montanhas e uma quantidade cada vez maior de vidas esperando por espaço.

Pela primeira vez desde que chegara a Mogester, porém, não sentia qualquer impulso para voltar pra lá.

Alguma coisa dentro dele sabia que não era mais necessário voltar.