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Manuscrito das três faces

miguelv341
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Acordo do passado (1)

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Acordo do passado (1)

Querido filho,

Espero que esteja bem! Mas, se está lendo esta carta, eu já devo ter partido desta terra, e por meio desta carta venho lhe explicar com detalhes.

Preste atenção a cada palavra: o ser que você acabou de herdar retém o derramamento de uma antiga e vasta entidade que data do período sumério, em 2900 a.C., até onde meus estudos alcançaram, com o último aparecimento datado de 1200 a 1230 d.C.

Mesmo gastando minha vida em estudos, sacrificando minha família, carreira e amigos, nem seu nome eu pude descobrir.

A primeira coisa que precisa saber é que ele atenderá a dois pedidos de três, assim como foi feito por Herman, o recluso do pacto.

Peça o que deseja e receba o que precisa.

"Hã? De que merda este velho está falando?!", tomado por raiva, as veias em seu pescoço saltaram e logo suas mãos apertaram, amassando a carta violentamente, rasgando-a até reduzi-la a pedaços.

"Ah, senhor Victor, como único herdeiro do senhor José Francisco... *tosse... tosse...* o senhor herdará a única posse deixada por seu pai agora... pertence ao senhor agora. Parabéns!" Se levantando do assento, o advogado estendeu a mão para ele.

Com um olhar indiferente para o homem magro e pálido de olhos amarelados, Victor retribuiu o gesto, não podendo deixar de se incomodar com a pele desgastada, rasgada como se tivesse sido açoitado. Rapidamente soltou a mão do advogado, agarrou a caixa de madeira deixada por seu pai e saiu às pressas do prédio.

Com um andar desengonçado, ombros retraídos, pele maltratada, cabelos desgrenhados e pesadas olheiras abaixo dos olhos.

Perdido em pensamentos internos, ele caminhava torto até **seu** Corsa Sedã preto, enquanto ignorava os olhares e sussurros maldosos das pessoas à sua volta.

"Olha só para ele. O que este estranho está fazendo aqui fora?"

"Não soube? O pai dele foi para a terra dos pés juntos."

"Hehehe, aposto que morreu de desgosto do filho imprestável!"

Os sussurros maldosos sobre sua aparência estranha aumentaram aos montes, jorrando em seus ouvidos, forçando-o a ranger os dentes e cerrar os punhos de ódio, tendo que engolir em seco todo esse sentimento de hostilidade.

Entrando no carro, ele fechou a porta de maneira brusca, pisando forte no acelerador, puxando a gravata de seu terno de maneira brutal e resmungando palavras pesadas.

Socando e chutando, ele despejou o ódio que fervia por dentro, enraizando-se em suas entranhas e o consumindo. A violência direcionada ao seu Corsa Sedã preto durou por alguns segundos, até que perdesse o fôlego, acalmando-se no processo e ligando o rádio para distrair a mente com as notícias.

*— ...notícias urgentes! Hoje faz três anos desde que a mancha se propagou pelo globo em ritmos alarmantes! É recomendado, em caso de infecção, ficar em quarentena até... Os sintomas da mancha abrangem...*

Apenas chiados perduraram por um longo tempo, deixando-o apenas com a companhia dos pensamentos e das gotas de chuva que logo se intensificaram, transformando-se em um toró pesado.

Observando o seu redor, ele contemplou em silêncio a destruição degenerada do país em que cresceu.

*"Desde a grande mancha que impregnou a atmosfera **há** três anos, com tantas lideranças e tomadas de decisões ruins... Um ar podre, vegetação quase toda destruída... Esse planeta todo está fodido!"*

Por onde sua visão passava, um ar melancólico e cores sem vida revelavam a verdade de um mundo cada vez mais decadente.

Estacionando na frente de seu prédio, Victor rapidamente abriu a porta do veículo e disparou para o interior do edifício, quase esquecendo de trancar o automóvel. Caminhou até o elevador, apertou o botão nove e aguardou, parado com um olhar fixo em um canto aleatório, encostando as costas sobre uma das paredes, um pouco ofegante. Abaixo de suas roupas, um físico magro e doente, incapaz de aguentar uma corrida curta.

Preso a pensamentos negativos, ele observou os andares se aproximando do seu, pouco a pouco, até que o som das portas do elevador se abrindo revelou a sua frente um corredor frio e morto, como o de um necrotério. Cores assim como as do mundo lá fora: sem vida, mornas e apáticas. Passando por ele, Victor sentiu uma força constritiva o esmagando, como se uma mão invisível estivesse sobre ele. A passos tortos, chegou à sua porta, retirou as chaves com mãos trêmulas, encaixou a chave, abriu a porta às pressas e entrou.

Ofegando pesadamente, ele suava frio; seu coração batia tão forte que podia ser ouvido por outros.

Dirigindo-se até a cozinha, pegou um copo que estava em cima da mesa, enchendo-o até a borda e esvaziando-o em um único gole, acalmando os batimentos violentos do coração. No entanto, ao olhar para a sala, pulou para trás em espanto com o que viu: sobre o sofá repousava uma caixa feita de madeira escura com ouro decorando suas extremidades e seu centro, com símbolos estranhos talhados na madeira ao seu redor.

Assustado com aquilo, Victor observava incrédulo o acontecimento estranho. Sem reação, caminhou a passos cautelosos em direção à caixa.

Engolindo em seco, sentia seu coração gelar, e quanto mais se aproximava, mais o espaço à volta se distorcia, como um quadro sobrepondo a realidade.

Tomado pelo medo que percorria cada extensão das fibras de seus nervos, frente a uma presença fria e sombria que se erguia emanando da caixa, a sombra negra ganhou massa em uma espécie de tinta negra viscosa. A mancha negra borbulhou e inchou, logo explodindo. Dela saiu um braço, atravessando-a junto de outro, encostando suas mãos sobre a parede; os braços esqueléticos rasgaram a mancha negra para passar para o outro lado.

Pedaço por pedaço, um corpo formou-se: ossos estalando, veias percorrendo, fibras se construindo, e a carne e a pele cobrindo todo o resto das extremidades do corpo. Logo a coisa abriu seus olhos e deles um brilho flamejante e ardente emanou. Como se estivesse lendo sua alma, o belo homem de longos cabelos mais escuros do que um céu noturno sem estrelas — que chegavam até sua cintura e eram sedosos como os de uma mulher — andava nu. O estranho exibia com imponência traços andróginos, irradiando tamanha altivez em seu porte robusto.

Espreguiçando-se ao limite, o estranho suspirou profundamente de alívio.

"Hmm... hm... ahhhh..." Estalando os ossos, o estranho se moveu um pouco antes de voltar sua atenção para Victor, movendo seus lábios: "Ao cair dos astros, ao acender do demônio, a um passo todos recaíram, pois, no fim, esta é a essência da obsessão. Por teu ancestral três desejos foram concedidos: um foi atendido, dois são o que resta. Não perca tempo perguntando. Velho eu sou, e tudo de que precisa."

"A-ah... Ahhhhhhh!" Tomado por horror, Victor berrou antes de cair para trás, duro, com as calças molhadas.

"Hã?" Incréduo com a reação de seu contratante, o estranho se aproximou, examinando-o para verificar sua condição e suspirando de alívio. Levantando seu contratante do chão, o estranho observou os arredores, notando as pilhas de lixo e louça, formando uma leve carranca com essa visão. "Ah, já vi que vou ter trabalho."

"Hm... hmm... ah!" Abrindo os olhos pouco a pouco, sua consciência foi puxada por um leve aroma agradável vindo de sua cozinha. Descendo de sua cama, Victor analisou confuso o seu quarto, mas foi puxado de volta pelo saboroso aroma que guiou seu caminho pelo apartamento em direção à cozinha, percebendo no processo as mudanças drásticas em cada cômodo. Antes um cenário morto, gélido e sem vida; agora, transbordando vida e cores vivas — um ponto de ruptura em um mundo tão distorcido e sem cor.

Mas logo tamanho fascínio se tornou medo ao lembrar do dia **anterior**. Apertando o passo em direção à cozinha, ele se deparou com uma figura alta e esbelta, dotada de traços angelicais que facilmente o confundiam com uma mulher.

Escondendo-se atrás de um móvel, espiava na surdina.

*"O-o que... está acontecendo?!"*

Perdido em perguntas, questionamentos inundaram sua mente: um ladrão, talvez? Um assassino ou um louco? Tantas coisas passaram por sua cabeça, desligando-o do mundo, mas rapidamente sendo trazido de volta à realidade quando o sussurro de uma doce voz sedutora pousou sobre seu ouvido:

"Do que estamos nos escondendo?"

"Aahhhhhhhh!" Tropeçando no próprio pé, Victor caiu rolando no chão, levantando-se rapidamente enquanto segurava um chinelo na mão. "Não se aproxime..."

"Se não... vai me atacar com um chinelo, sério?", apontou para ele em um tom que beirava o deboche. "Humph! Baixe este chinelo, meu caro contratante. Eu não tenho segundas intenções, apenas uma missão para cumprir e partir. Mas, antes disso, venha: a mesa está posta."

Apesar da **hesitação**, ele deu um passo adiante e se encaminhou à mesa, apenas para arregalar os olhos com a visão da farta mesa cheia de variedades de pratos, perdendo a desconfiança e puxando uma cadeira para se sentar.

O ser observava o ímpeto feroz com que seu contratante devorava tudo com gosto, quase chorando de prazer.

Encostando-se para trás na cadeira, Victor suspirou de satisfação.

"Bom, agora que seu estado se encontra preenchido, eu irei começar a explicar. Primeiro: não peça mais informações sobre meu passado, pois não falarei. Segundo: não trarei ninguém de volta dos mortos. Terceiro e último: de três pedidos, um foi feito, faltam dois! Alguma dúvida?"

"... O que é você?"

"Hahaha! Sou o resquício de um rei que já se foi, só isso. Mais uma pergunta?"

"Um nome. Qual é o seu nome?"

"Nome... hum... Ah! Hallow Eve. Por este nome você, meu contratante, pode me chamar a partir de agora."

"Eu..."

"Chega de conversa inútil. Faça o que é sua obrigação como contratante: peça o desejo que seu coração mais anseia, jovem Victor. Peça!"

"Conte-me. Conte o que o mistério de sua existência resguarda. Dê-me o que anseio!"

Movendo sua mão no ar e tornando-o tangível, puxando-o e moldando-o na forma de um cachimbo, levou-o à boca, acendendo-o com o toque de seu dedo, que emitiu um brilho alaranjado. A fumaça subiu, cobriu a cozinha, mas estranhamente se abriu.

"O abismo foi o palco da primeira guerra, uma guerra travada antes mesmo do tempo nascer. Surgindo a criação em meio a este processo todo, de um cisma entre as grandes forças opostas: a primeira luz do mundo a resplandecer e o caos nuclear rastejante. Vamos começar a narração pelo início, o início de tudo…”

Thoughts

  • MargemDaPagina

    A regra da carta, receber o que se precisa em vez do que se pede, é a mesma da Pata do Macaco, do W. W. Jacobs: três desejos concedidos e cada um cobrado por onde ninguém escolheria. Com o Victor a gastar um logo na história da criatura, fico à espera de ver por onde vem a conta.

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  • Ovid

    A mancha que cobre o mundo há três anos e a tinta negra que borbulha da caixa levam o mesmo nome no texto, e desconfio que isso foi de propósito. Minha aposta é que o pai do Victor sabia mais da grande mancha do que a carta deixa ver, e que o primeiro pedido tem a ver com ela. Vai postar a continuação da história do Hallow Eve?

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  • lcavalcanti93

    O capítulo fecha com o Hallow Eve começando a contar a guerra de antes do tempo. Eu ia clicar no próximo por causa dele e do Victor sentados na mesma mesa, e fico com medo de o dois virar uma aula inteira de mitologia. Os dois juntos naquele apartamento é o que me faz voltar.

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