Vagantes condenados: Nego D'água
Ao se deslocar pela floresta, um jovem pescador de aproximadamente 20 anos caiu de uma altura considerável. Mesmo com o braço quebrado e a fratura exposta, ele conseguiu se levantar e retomar sua fuga, deixando um rastro de sangue pelo caminho. Gritos ecoavam cada vez mais próximos, indicando que seu perseguidor estava se aproximando.
Reunindo todas as suas forças, o pescador correu em direção à comunidade à frente, mas o impacto de um novo golpe rasgou a carne de suas costas, forçando-o a continuar correndo. Desesperado, ele implorava por socorro, clamando por ajuda das pessoas que avistava.
Elas, alarmadas com a gravidade dos ferimentos, orientaram-no a continuar correndo, observando horrorizadas a carne e os ossos expostos em suas costas. O jovem pescador, apesar da dor e do cansaço, seguia em frente, sabendo que sua única chance de sobrevivência era alcançar a comunidade e encontrar ajuda médica urgente.
À medida que se aproximava, sua respiração ficava cada vez mais ofegante, e a risada rouca de seu perseguidor parecia ecoar cada vez mais alto, como se a qualquer momento ele pudesse alcançá-lo. Naquele momento, o pescador reuniu todas as suas forças restantes, determinado a chegar ao seu destino e escapar daquele terrível pesadelo.
“So-Socorro!” o homem suplicava por ajuda das pessoas que corriam para ajudá-lo.
“Venha logo!”
“Meu Deus! As costas dele!”, exclamou um dos moradores, olhando para o ferimento exposto por onde a carne e os ossos eram vistos.
“Vai… vai!” O homem tomou a frente, ordenando à jovem que o levasse enquanto ele jogava uma garrafa de cachaça para ele.
Das sombras, uma mão com longas garras e membranas entre os dedos aproximou-se cuidadosamente, agarrando a garrafa.
“Hmmm…” O líder deles aguardou pacientemente até ouvir algo mergulhando nas águas escuras. “Finalmente!”, exclamou, aliviado.
As fortes chuvas haviam elevado o nível do rio, inundando grande parte da mata.
“Seus domínios se expandem a cada momento que passa. O Rio Negro é seu templo e, até onde suas águas alcançarem, sua influência se manifestará. Suas ações são limitadas às águas negras, mas com essas chuvas… a história muda completamente de rumo.” O homem murmurou, a aflição evidente em sua voz. Suas mãos tremiam e ele suava frio, com a pele pálida. Ele cercou os arredores da comunidade com um pó branco, formando um círculo, e em cada um dos quatro cantos colocou uma pedra com inscrições vermelhas. Acima delas, uma vela branca ardia.
Mesmo temendo a entidade que espreitava ao seu redor, o homem continuava a recitar encantamentos para manter os talismãs em funcionamento. “Pai, trouxe comida para o senhor. Precisa comer, já faz três dias que está mantendo a barreira de pé. Se não descansar logo, seu corpo vai colapsar!” Sua filha implorava, desesperada, para que ele descansasse antes que morresse.
“Haa… haa… Como está o garoto?” Mesmo em seu estado exausto, o homem ainda conseguiu perguntar.
“Ah! Ele está bem, graças aos seus esforços. Mas o senhor precisa cuidar de si também. Por favor, descanse antes que seja tarde demais!” A filha respondeu, com lágrimas nos olhos.
O homem assentiu com a cabeça, sabendo que precisava recompor suas forças, pois a batalha contra a entidade das águas negras estava longe de terminar.
“Quanto tempo ele tem nesse estado debilitado?”
“Ah! Suas feridas infeccionaram. Eu usei todas as ervas disponíveis, mas infelizmente as feridas causadas por ele continham bactérias que causam necrose…”
“Ele vai morrer em breve se não o levarmos para um hospital”, sua filha foi sincera sobre a situação atual do acamado.
“O tempo está contra nós, devemos ir…”
“Tosse… tosse… haa… eu…” Lentamente ele começou a recuperar a consciência.
“Pai!”
“Eu já notei. Leve-o para baixo e não saia até que ouça apenas a minha voz.”
“Mas pai…”
“Agora!” Sem conseguir contrariar a vontade de seu pai, ela engoliu sua insatisfação e acatou suas ordens, levando-o para debaixo da terra.
“Tosse… O-onde eu estou?” Atordoado por acabar de acordar, sua cabeça latejava de dor.
“Do que se lembra?”
“Eu… Eu estava pescando com meus amigos em nosso barco em meio a um grande rio quando… ele apareceu agarrando a cabeça do meu amigo. Depois… depois… eu só consegui ver uma poça de sangue subir das águas junto dele! Um demônio de escamas negras…”
“Nego D'água.”
“O quê?”
“O nome do ser que você e seu amigo encontraram é conhecido em nossa comunidade… ou no que sobrou de nós.”
“O que quer dizer com isso?”
“No passado éramos duzentos membros da mesma tribo que conviviam em conjunto, se ajudando. Isso… até que a temporada de chuvas começou e ele… ele começou os ataques contra a nossa comunidade!” Com emoção em sua voz, ela continuou a contar as atrocidades cometidas contra eles pelas mãos do demônio.
“Por quê? Qual o motivo de Deus permitir que tal aberração caminhe sobre a terra?”
“Assim como Deus permite que homens ruins machuquem pessoas boas”, ela respondeu ao questionamento usando suas próprias palavras contra ele. “Não precisa continuar a fingir.”
“Do que está falando…” Sem dar brechas a ele, a garota fincou uma faca em seu peito, pressionando sobre seu coração.
“Se tentar se mover, eu puxo a faca e você morre por sangramento!”, ela o advertiu com um olhar lunático.
“Por quê? Você…”
“Não, não gaste suas palavras. Guarde-as para quando ele chegar.”
“Ele… ele quem?” Rasgando a terra, uma grande sombra tomou conta do lugar, revelando a silhueta de um grande monstro com escamas negras e olhos vermelhos brilhantes. A criatura exalava uma pressão tão sufocante que bastou um simples olhar para o jovem rapaz para que as veias de seu pescoço inchassem até explodirem para todos os lados.
“Uau!” Encantada com o feito, ela olhava para a criatura com afeição. Retribuindo o afeto, o monstro estendeu a mão para ela. “Por que demorou tanto? Não importa… é o velho?”
Erguendo a mão, o monstro segurava a cabeça do pai dela.
“Ah! Que fofo.” Tocada pelo gesto, ela passou os braços pelo pescoço dele, beijando-o.