12º Capítulo
OS MISTÉRIOS DO ACASO
O BRINDE, O TOQUE E O BANQUETE DO PRAZER
No limiar do desejo, se assim podemos afirmar, havia uma urgência trágica no peito de Narciso. Sob a névoa cinzenta da dúvida e da melancolia, o Poeta enfrentava a agonia do tempo — esse carrasco lento que tortura quem tem pressa de viver e amar. Sua mente era um turbilhão de vulnerabilidade, mas também de uma obstinação feroz. Há algum tempo, Ele não queria mais apenas contemplar sua Helena; ele sentia uma clareza quase mística, que as portas do labirinto estavam prestes a se abrir. As possibilidades de decifrar Helena por inteiro, de tocar naquela doçura e sua intimidade mais profunda, carne e alma, passaram a ser uma certeza avassaladora e inevitável. Do outro lado, Helena permanece como um enigma sussurrado no escuro.
Protegida por sorrisos protocolares e defesas milimetricamente erguidas, ela é o mistério que desafia a razão do Poeta. Contudo, a armadura começa a rachar. Quando ela confessa senti-lo na calada da noite, a conexão transcende o real, transformando o encontro em um jogo perigoso de sedução e eletricidade pura. O brinde, o toque e o banquete do prazer é o registro dramático desse ponto de não retorno. O beijo sutil, o arrepio violento que desconcerta o corpo e o recuo desesperado para o banheiro revelam que a fortaleza de Helena está cedendo à insistência lírica de Narciso. Uma crônica de alta voltagem sensorial que culmina no poema "Prazer": o manifesto definitivo de um homem que sabe que a barreira entre o sonho e a carne está prestes a se romper para sempre.
Ao chegar na empresa no dia seguinte, Narciso, ainda carregava no peito uma névoa de dúvida e tristeza. O andar dos fatos parecia lento demais para a sua sede de prazer, e ele sentia o peso de não ter o controle do próprio destino. Helena era, de fato, um compêndio de adjetivos deslumbrantes, mas também era dona de uma personalidade enrolada, um labirinto que o Poeta começava a desvendar aos poucos as possíveis saídas, entre suspiros e esperas.
— Bom dia, Helena. Tudo bem com você? — perguntou ele, aproximando-se do balcão.
— Bom dia, Narciso. Comigo está tudo bem — respondeu ela, com o sorriso protocolar.
— Tudo bem com você mesmo, querida? — insistiu ele, tateando o terreno daquela manhã cinzenta.
— Tudo... Por que você está me perguntando duas vezes? — estranhou ela, desviando os olhos para a papelada.
— Helena, isso é para você — respondeu, estendendo uma nova folha manuscrita.
Ela aceitou o papel e o recebeu com seus dedos longos e delicados. O silêncio instalou-se na recepção como uma cortina pesada. Durante três minutos, o mundo lá fora deixou de existir. Narciso acompanhava cada movimento dos olhos dela, cada pequena contração de seus lábios ao ler as estrofes. Ao terminar, ela levantou a cabeça lentamente, encontrou o olhar do Poeta e disse, com uma suavidade que ele nunca se acostumaria:
— Obrigada, Narciso! O meu coração sempre fica feliz quando recebe um poema seu. É um alento.
— Não há de quê, minha querida! Eu gosto de escrever para você. Na verdade, eu te admiro tanto quanto gosto de você — confessou ele, sem esconder a vulnerabilidade.
— Por que você tem este carinho todo por mim? Eu não mereço tanto, Narciso.
— Na verdade, eu não sei dizer... Só sinto um prazer e uma ternura imensuráveis que vêm do fundo da minha alma. Quando olho para o mundo, só vejo você. Só enxergo você!
— Muito lindo... Lindo mesmo. Adorei, meu querido — disse ela, guardando o poema como um segredo.
— Você merece. E, aproveitando o ensejo, que tal uma cervejinha logo mais, no final do expediente?
— Aceito. Mas só depois das 18h, combinado?
O restante do dia foi uma agonia calculada. Narciso contava os giros dos ponteiros do relógio como quem conta os dias em uma espera ansiosa. Quinze e trinta, dezesseis horas, dezessete horas... A espera parecia interminável, um exercício de paciência que ele só suportava porque o destino final era ela. Quando as dezoito horas bateram no relógio da parede, ele quase saiu correndo, embora tenha se segurado para manter a compostura. Após quinze minutos de atraso dela, o bate-papo enfim começou na lanchonete de sempre.
— Demorei? — perguntou ela, sentando-se à mesa.
— Só um pouquinho, mas está tudo tranquilo — respondeu ele, tentando esconder a ansiedade.
— Me desculpe, tive que aguardar uma ligação importante! — justificou-se Helena.
— Sem problemas. Garçom, dois chopes, por gentileza!
Cada vez que eles se sentavam ali, o fenômeno se repetia: parecia a primeira vez, o primeiro encontro, a primeira descoberta. Ficar de frente para aquela musa deixava o Poeta em um estado de graça que ele não conseguia explicar. Quando o chope chegou, fizeram um brinde, um tilintar de copos que soou como uma sinfonia.
— Narciso, por que você tem tanta paciência comigo desse jeito? — perguntou Helena, estudando o rosto dele.
— Você é muito gentil e especial, nada como retribuir. E porque eu sou perdidamente apaixonado por você! Ou você não percebeu o quanto eu te adoro?
— É gratificante estar com você, Narciso. Eu me sinto segura e feliz quando estou ao seu lado.
— Da minha parte, faltam-me palavras. Só não vou dizer que te amo porque não quero te pressionar, e sei que não vou ouvir o mesmo de volta.
Helena baixou o olhar, sorriu de forma enigmática e, numa voz quase um sussurro, disparou:
— Sabe, Narciso... eu sinto você todas as noites. Você fica pensando em mim, né?
— Deve ser o desejo, que é grande demais — respondeu ele, sentindo o rosto esquentar.
— Eu senti você me tocar na noite passada — completou ela, com uma seriedade que fez o ar faltar nos pulmões do Poeta.
Narciso ficou atônito, com as mãos travando sobre a mesa.
— Vontade é o que não falta... Meu amor, eu sou completamente gamado em você.
Naquele momento o Narciso alegando precisar dizer algo baixinho aos seus ouvidos, aproximou-se, quando a boca do encostou na orelha esquerda, o Poeta deu um beijinho sutil seguida de uma leve lambidinha. Com aquele feito, o Narciso sentiu a pele cheirosa de Helena arrepiada do pescoço às demais regiões. Com aqueles olhinhos provocantes a Helena Dolly falou:
Tá vendo como você me deixou Narciso?
Minha querida, que arrepio fantástico minha linda!
Poeta você me desconcertou e quase que não resisti! deixa eu ir até o toilette me recompor!
O Narciso disse que não entendeu mas na verdade ele deu uma provocada em grande estilo na Helena e com todo aquele resultado, ele percebeu que milimetricamente a sua musa estava cedendo. Apesar dos mistérios de Helena, havia uma conexão entre os dois, uma atração ainda não desvendada, tudo indicava que muito em breve o amor ia florescer e certamente aconteceria. O Poeta não fazia a menor ideia de como e nem quando, mas sentia.
O papo fluiu até quase 21h, entre confidências e olhares que diziam o que a língua tentava esconder. Ao fecharem a conta, o clima era de eletricidade pura. Entre beijos, abraços e a promessa silenciosa do que viria, a ternura estava à flor da pele. Narciso, como um cronista da própria alma, não deixou o momento escapar. Em uma criação sutil, escreveu "Prazer", sobre a fascinante capacidade de um homem se transformar quando encontra a mulher que conserta seu ser mostrando o brilho do amor.
PRAZER
Sentir o teu corpo
É uma vontade irrevogável,
Completamente desejável
Que meu eu enseja
E minh'alma almeja.
Nem que for na bandeja,
No prato,
Um fino trato.
Percorrer as curvas de sua escultura
É uma terapia benfazeja.
Deslumbrantemente presente, sente?
Entrar em sua essência
Pela porta da frente
É um prazer do meu desejo
De minha curiosidade,
Escutar de perto
O som da sua cidade.
O pulsar frenético do seu coração
É um sonho...
Que sonho!
Quero revezar contigo
As mais gostosas, glamurosas,
Deliciosas e delirantes
Formas do prazer
Que o momento nos cede.
Provar seu mel
Poderá ser meu êxtase
Para chegar ao céu
E cair ao léu do love.
Seu encanto, no entanto,
Não é meu espanto.
Meu coração
Está pronto para ti.
Na verdade,
Minha vontade
É tocar em seu corpo
Com muito carinho,
Como se estivesse tocando uma flor,
Preliminando o amor.
Harmonizando os encaixes corporais
Que fazem as coreografias dos casais,
Em quatro paredes
Ou até mesmo na rede.
Você é um brilho límpido
E fantástico
Que meus olhos jamais viram.
Sonho acordado e vislumbro:
Quando estou com você,
Presente melhor não há.
Com essa infinita beleza
Só tenho a agradecer
À nossa mãe natureza!
Ass. Narciso "O Poeta"
O Autor.
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@PietrodeLuccaPoeta ✒️📝🖋️
Escritor, Poeta, Contista e Cronista
pietrodeluccapoeta777.substack.com
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Athelier das Letras - Selo 444