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O BRUXO CORAÇÃO E A MAGIA DA SEDA Bege - Capítulo 7

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Os Mistérios do Acaso

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O BRUXO CORAÇÃO E A MAGIA DA SEDA BEGE

Os Mistérios do Acaso

CAPÍTULO 7:

​Muitos perguntam o porquê dessa paixão avassaladora do Poeta — um sentimento que beira o exagero (para não dizer a loucura), mas que se traduz em um amor inexplicável por Helena Dolly. Ele literalmente se derrete quando está perto dela, principalmente cara a cara. Narciso não se cansa de admirar os traços finos de sua amada: aqueles lábios delicados, o narizinho lindo, o contorno do rosto e os cabelos sempre impecáveis. Aquela mulher é uma miss vinte e quatro horas por dia, mesmo fora da passarela.

​Enfim, na vida do Poeta nem tudo foi alegria. No passado, ele comeu o pão que o Diabo amassou ao lado da ex-esposa. Ela literalmente nunca gostou dele; eram tantos absurdos que, até hoje, ninguém sabe o porquê de aquele relacionamento ter durado dez anos. Outro homem, no lugar dele, teria ido embora na primeira vacilada. Um fator altamente positivo, contudo, é que o Poeta Narciso abomina a violência. Prefere resolver os problemas na base da conversa, mesmo sabendo que estava sendo traído.

​Disse certa vez:

​— Eu vou ser preso por agredir uma mulher? Se ela não está feliz, que siga o seu caminho, encontre a felicidade e sucesso para todos.

​Para Narciso, o que ficou nítido nos caminhos de Os Mistérios do Acaso é o contraste gritante entre dois mundos: o que ele viveu no passado e a realidade atual com Helena Dolly.

​A vida, em sua ironia peculiar, desenhou para ambos dois caminhos completamente distintos. Ao olhar para trás, as comparações tornam-se inevitáveis. De um lado, a infiel Therezza, o verdadeiro "calvário"; de outro, a admirável Helena Dolly, a antítese de tudo o que ele suportou por uma década. Para quem acompanha os seus relatos, é salutar entender o abismo que separa essas duas figuras que, por razões distintas, cruzaram a sua existência.

​A ex-esposa, Therezza (A sombra maligna da sua juventude)

​Qualidades: Resiliência focada em seus próprios objetivos; capacidade de articulação externa; determinação inabalável quando deseja algo para si.

​Defeitos: Extremo egocentrismo patológico; desonestidade crônica; frieza emocional; manipulação constante; ausência total de princípios éticos; instabilidade comportamental; mesquinhez e tendência à autodestruição alheia. Com esses defeitos, nem é preciso ir mais longe.

​Helena Dolly (O alento da alma)

​Qualidades: Transparência em suas ações; docilidade; lealdade incondicional aos seus valores; empatia genuína; inteligência emocional equilibrada; caráter sólido e inquestionável; capacidade de soma e parceria mútua; respeito pela individualidade do outro, além de ser extremamente sincera e honesta.

​Defeitos: Por vezes, uma teimosia excessiva quando defende suas convicções; um nível de exigência consigo mesma que beira o perfeccionismo; e uma dificuldade em baixar a guarda imediatamente — reflexo de uma cautela defensiva que, embora protetora, pode parecer uma barreira inicial.

​Esta comparação não é apenas um exercício de memória, mas a constatação de que, enquanto uma se nutria do caos e da desonestidade, a outra representa a lucidez e o respeito que lhe foram negados durante os dez anos de cárcere. É necessário contrastar o veneno com o antídoto para que todos compreendam a profundidade da jornada de Narciso.

​Foi essa a pré-revelação que o Poeta fez para Helena, mas prometeu contar muito mais. Afinal, há uma infinidade de desabafos a serem feitos.

​Hoje, o envolvimento com Helena é um romance absolutamente incrível em cada um de seus desdobramentos. Cada vez que Helena Dolly demonstrava uma nova fagulha de afeição, um gesto de amabilidade ou um olhar mais demorado, o instinto poético de Narciso acordava com ainda mais vigor no peito.

Era um ciclo perfeito: o charme dela alimentava a caneta dele, e a caneta dele desarmava o coração dela.

​Sobre os escritos, ela comentava:

— São lindos, Narciso! — exclamava Helena, segurando as folhas manuscritas como se fossem tesouros particulares.

— É tudo para você, minha simpatia — respondia o Poeta, com a voz mansa e o olhar fixo no dela.

— Muito obrigada, de verdade... — agradecia ela, com as bochechas levemente coradas.

​Narciso conseguia sentir, com a nitidez de quem lê uma partitura, que a ternura e a paixão iam se aflorando de ambos os lados, preenchendo os corpos com um afeto urgente e uma atenção focada. A partir daquele ponto, o ato de escrever tornou-se parte indissociável da própria rotina do Poeta. No chão de fábrica ou no escritório, ele dava um jeito de inserir no dia a dia o hábito de rabiscar. Sempre que possível, anotava uma frase solta no canto de uma folha, capturava um pensamento fugaz no meio do expediente e ia guardando os retalhos até que eles formassem uma poesia completa ou um texto denso. Ele andava para cima e para baixo portando uma caneta esferográfica e um pedaço de papel no bolso, mas a verdade é que a sua principal ferramenta de trabalho era a imagem viva de Helena Dolly, que permanecia cravada em sua mente como fonte inesgotável de inspiração.

​Escrever voltou a ser o hábito mais prazeroso de seus dias. O momento sagrado acontecia principalmente à noite, naquele horário tranquilo e silencioso após as 22h, quando o mundo lá fora finalmente parecia silenciar. Para estimular as visões líricas, Narciso sempre ligava o rádio ou colocava sua playlist para rodar, ouvindo músicas de todos os gêneros — do jazz instrumental às baladas mais românticas. O detalhe mais interessante e autêntico de seu processo criativo era que o Poeta fazia questão de registrar, sempre no rodapé de cada papel de rascunho, o nome exato da canção e o autor que estava tocando naquele instante. Era a sua forma de gravar o tempo, de relacionar a temperatura do poema com a melodia que havia embalado o nascimento daqueles versos.

​E foi justamente em uma dessas noites silenciosas de vigília poética que Narciso deu vida a uma nova composição. Ao dar o ponto final, o coração bateu mais forte: ele simplesmente não via a hora de o dia amanhecer para correr até a empresa e entregar o manuscrito nas mãos dela. Sabia, sentia na alma, que ela gostava profundamente daquele cortejo e que ficava imensamente feliz ao ler suas declarações, retribuindo o presente sempre com um generoso e deslumante sorriso de miss que iluminava toda a recepção.

​Quando os primeiros raios de sol romperam o céu da capital paulista, por volta das 07:55h, Narciso já cruzava os portões da firma, sendo um dos primeiros funcionários a chegar para o expediente. Seus olhos atentos e famintos percorreram imediatamente os quatro cantos da recepção à procura de sua paixão, mas o balcão ainda estava vazio. Contendo a ansiedade, ele seguiu para o seu setor e iniciou as atividades diárias, recusando-se a deixar que o entusiasmo e a euforia da madrugada o abandonassem.

​Exatamente às 08:15h, o portal do acaso se abriu novamente. Ela chegou. Helena Dolly adentrou o recinto com a postura de uma rainha, toda poderosa e transbordando exuberância. Impecável como de costume, ela vestia um belo vestido bege de seda florido e sanfonado, que se movia graciosamente a cada passo, combinado com uma camisa branca de cetim que realçava seus traços finos. Calçando sapatos creme que completavam o visual glamouroso, ela parecia flutuar. Embora o dia lá fora estivesse cinzento e chuvoso, nem de longe a tempestade de São Paulo foi capaz de tirar o brilho daquela mulher; ela estava lindíssima, uma verdadeira gata, soberana em sua beleza.

​Quando Narciso a avistou de longe naquele traje, o queixo caiu. Ele ficou completamente babando, estático na cadeira, admirando cada detalhe daquela visão e sentindo a paixão fertilizar ainda mais o seu peito. Aproximou-se do balcão e disparou um "bom dia" tão profundo, sincero e carregado de magnetismo que, a partir daquele exato segundo, Helena Dolly começou a perceber, de verdade e sem dúvidas, que o Poeta estava totalmente hipnotizado e rendido aos seus encantos. Para disfarçar o transe, ele estendeu uma carta profissional sem muita importância administrativa, aproveitando o ensejo daquele visual glamuroso para lançar o convite definitivo para o final do expediente, mantendo o seu costume de cavalheiro:

​— Aceita tomar um drink comigo hoje, após o término do horário?

​Helena olhou de lado, mediu a audácia dele com os olhos brilhantes e cedeu com um sorriso cúmplice:

​— Tudo bem, eu aceito... Mas veja lá, hein: uma só!

​Narciso sorriu, sabendo que entre o combinado e a realidade daquela lanchonete existia um abismo gostoso. Com a fluidez da conversa e o magnetismo que emanava dos dois, aquela suposta "uma cervejinha" sempre acabava se multiplicando, chegando facilmente a cinco ou seis na mesa. Assim que o relógio apontou o fim do expediente, os dois deixaram o prédio juntos e seguiram em direção ao refúgio da lanchonete.

​A conversa fluía com uma naturalidade espantosa, navegando por diversos assuntos do cotidiano, pela cultura e pela vida. A princípio, Helena ainda jogava o jogo da esquiva; tentava esconder o interesse crescente que nutria por Narciso e desviava o rumo do papo sempre que a temperatura subia demais. Contudo, a barreira não resistiu por muito tempo. Fixando aqueles olhos de cristal no rosto do Poeta, ela mesma quebrou o protocolo e indagou:

​— Puxa, Narciso... Você escreve bem demais! Os seus textos me fazem um bem tão grande, me trazem uma paz que você nem é capaz de imaginar...

​— Muito obrigado, Helena — respondeu ele, inclinando-se na mesa. — Mas preciso te confessar uma coisa: a culpa disso tudo é inteiramente sua.

​— Mas como é que você consegue, Poeta? De onde vem tudo isso? — perguntou ela, genuinamente curiosa.

— Pergunte a você mesma, minha querida. Você é a própria inspiração em pessoa. A única certeza que eu posso te dar, com toda a força da minha alma, é que eu gosto muito, mas muito de você.

​O silêncio que se seguiu foi preenchido pelo som dos copos e pelo burburinho da lanchonete, até que Helena mudou o tom de voz. Com uma mansidão meiga e um timbre doce que arrepiou o escritor, ela confessou:

​— Narciso, a sua presença me agrada demais... Eu simplesmente adoro estar com você. É gratificante demais ficar do seu lado.

​A bola de Narciso, de tão cheia que ficou com aquele elogio, quase explodiu dentro do peito. O coração saltava de tanta emoção, inundado por uma ternura que ele já não conseguia mais conter. O carinho que ele sentia por Helena havia rompido a barreira do singelo e do platônico; agora, as raízes daquela paixão avassaladora estavam profundamente fincadas no solo de sua alma, motivando-o a escrever de forma quase compulsiva, como se a poesia fosse o seu próprio oxigênio.

​Naquela mesma noite, embalado pelo eco daquelas palavras doces, ele se sentou e escreveu "Palavras", um poema belíssimo e envolto em mistério, feito à imagem e semelhança da própria Helena. Para Narciso, cada frase que ela proferira naquela lanchonete havia sido uma verdadeira aula de vida; parecia que os destinos de ambos estavam se transformando em um só segmento, caminhando rumo à mesma finalidade. Talvez os desejos e os anseios guardados nos dois corações fossem exatamente os mesmos, mas Helena, compreensivelmente, precisava segurar as rédeas do sentimento, esperando para testar a veracidade e a constância daquela paixão. Coisa que o Poeta, por sua vez, nunca fez a menor questão de ocultar, demonstrando o seu amor com uma avidez e uma afinidade gigantescas em todas as composições, como no manifesto que entregou a ela no dia seguinte:

​PALAVRAS

​As palavras

São as minúcias do pensamento,

É a mestre de nossa realidade

Que forma opiniões

E une corações.

Espairecer, tarefa difícil

Do decreto, secreto.

​O bruxo coração

Mostrou-me o luxo da paixão

E o privilégio da emoção.

O inesperado aconteceu:

Caí de paraquedas

No seu mundo.

​Por um segundo, viajei...

Nem sei,

Mas foi como um néctar.

Momento mágico!

O branco neve,

De leve como a alma,

Acalma o límpido olhar.

​Lindo, hipnotizante, relaxante...

Fez ecoar um querer a mais.

Minha alma pede bis.

Sua feição,

Que não escrevi a giz,

Fez explodir

Seu candidato feliz.

​Maravilha é a partilha do amor.

Mundo mágico!

A poderosa magia

Da poesia

Produz um feitiço do bem

Ao ser que deduz e seduz.

Por um triz

Pensei que fosse um sonho,

​Mas esse beijo

Fogoso e gostoso

Me fez assim:

Completamente feliz…

​Ass. Narciso "O Poeta"

O Autor.

​Helena Dolly roubou um beijo de Narciso... Será que era exatamente o que ele queria? Ou ele preferia ter esperado um pouco mais?

​Obrigado por dedicar seu tempo às minhas palavras. Este espaço é mantido pela paixão daqueles que ainda acreditam no poder da escrita autêntica. Considere tornar-se um assinante — gratuito ou pago — para não perder nenhum capítulo dessa jornada. Vamos manter viva a chama da literatura. Todas as quartas-feiras e aos sábados, haverá mais Mistérios a serem revelados!

​Este capítulo é uma publicação oficial do Selo 444. Descubra os mistérios do acaso todas as quartas-feiras e aos sábados.

​@PietrodeLuccaPoeta ✒️📝🖋️

Escritor, Poeta, Contista e Cronista

opoetalk520.substack.com

pietrodeluccapoetanarcisosilva.blogspot.com

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