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Manuscrito das três faces

miguelv341
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Reunião familiar (2)

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Reunião familiar (2)

Desfigurada a estrutura do espaço, a velha igreja desapareceu e, sob o novo domínio da vastidão do abismo, um cântico antigo ecoou:

~A morte surge antes do suspiro e ao último.

Do fim da estrada do vazio,

vem para os teus braços, ó mãe cujo abraço a todos cerca

das asas-estrelas

por medo da vida…~

As palavras se aprofundam, adentrando o inconsciente dos ali presentes. Quanto mais se caminhava pelo local, mais difícil ficava de enxergar para os olhos mortais. Uma neblina espessa e densa começou a se formar, transformando-se em uma espiral de tempestades manchadas pela escuridão, revelando um espaço vazio. No vazio e na escuridão, uma substância surgiu, abrindo as portas para uma explosão gigantesca.

— Que estranha e inquietante visão. Encantadora como sempre está nossa casa!

Um brilho azul cintilou dos olhos maliciosos do dragão. — Não consigo ver nada além. Como no início: misterioso e insondável, tamanho enigma do qual meus olhos não veem a verdade por trás.

Viajando, carregado pela vontade, pensamentos tocaram suas mentes e uma voz pôde ser ouvida:

『Venham logo a mim, filhos indignos desta vossa mãe.』

Suas palavras gélidas, desprovidas de amor, pesaram no coração dos filhos, perfurando-os como lanças.

Sob o peso das palavras frias, os filhos logo foram se encaminhando a ela. Seus passos ecoaram pelo corredor de cristal que se iluminava a cada pisada, revelando adiante legiões de servos, os Hurras Allyl, ajoelhados com a testa no chão, entoando mantras profundos.

Sentada sobre o colo, a figura enrolada em um pano escuro e com o rosto oculto por um véu observava com um olhar disperso a chegada das crianças. O silêncio e a escuridão a envolviam em uma inquietante e estranha presença.

Exclamando em frustração, o dragão tomou a frente, despejando sua indignação: “Não posso enxergar nada além do que se apresenta diante desta névoa maldita!”

E diante deles, como se respondesse à sua reclamação, uma linha surgiu em meio à neblina densa, abrindo-se em uma grande mandíbula e revelando a presença de uma multidão de outros semelhantes, todos reunidos em torno de Enuma Elish.

Sentados sobre os galhos retorcidos de Yggdrasil, os Anunnakis aguardavam pacientemente pelo início da reunião.

Entre os gritos engasgados e guturais que se propagavam no fluxo das vozes, os filhos rebeldes se apresentavam com eloquência. Mas, a cada palavra, a tensão era constante diante dos pais — para quem uma única ação fora da curva resultaria no fim de suas existências.

Num céu tempestuoso, ao brilho de relâmpagos, as estrelas se agitavam; uma chama branca queimava ao redor dos grandiosos portões dourados de Ishtar.

O fogo branco queimava com vigor, abrindo os portões dourados.

Quando entrei nessa habitação, percebi que ela é quente e gélida; fogo e gelo girando na mesma sensação, num instante constante de emoções intensas.

Na mente do velho — cujo corpo fora desfeito e agora se reconstruía —, não havia nenhum traço do encanto da própria vida, acostumada a se ver mesmo nos locais mais inóspitos do planeta Terra, de onde ele se originou.

O terror sobrepujou o coração do velho, e um tremor de medo foi o que lhe restou.

Voando sem forma ao lado de seu jinn, guiado pela chama branca acima de um chão formado pelas águas negras de Nun.

Sobre o trono de pedra encostado nas raízes de Qliphoth, diante do trono, repousava no colo de Quetzalcoatl a mãe padroeira dos Daemons, um dos dez princípios do universo: Muerte Omena.

Prostrando-se em reverência a um dos três grandes poderes estavam os servos fiéis, os Hurras Allyl — marionetes criadas a partir do castigo da serpente para com os filhos omissos. Trajados com longos mantos negros e máscaras brancas sobre as faces, eram bonecos sem vontade.

Suspirando pesadamente, criei coragem e segui rumo ao trono.

Em um clarão intenso, a chama branca ressoava soberana com a voz de Rénlèi Shén:

『Segue o curso das águas, que encontra rumo ao lado do trono o despertar no ciclo eterno das almas.』

Como batidas de tambores, as águas transbordaram: um rio cintilante de uma beleza etérea, feito das almas azul-pálidas que formam as folhas da Qliphoth.

Repousando abaixo do trono, permaneceu ali em silêncio, contemplando o alimento que eleva sua alma à reunião familiar.

Engolindo em seco, o velho gelou ao sentir o olhar curioso da mulher cuja face se escondia sob o véu.

Ele sentiu um arrepio recorrer sua alma; a tensão era palpável em seu ser, que não parava de tremer.

Balançando seu leque, penas escarlates se revelaram, ecoando em convocação ao início da reunião.

Os portões se fecharam, e os segredos das palavras entoadas nas liras do ritmo do cosmo foram, por hora, enterrados.

Thoughts

  • miguelv341

    Pois bem meus amigos, me digam. O castigo da serpente para com seus filhos foi demais ou ele pegou leve?

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